quinta-feira, 26 de julho de 2012

"Too many people living in a secret world" (Parte 12)


 Nada além das respirações ofegantes de Daren e D poderiam ser ouvidos no bangalô 1. As luzes continuavam apagadas. A claridade do quarto vinha diretamente da luz da Lua, que adentrava a janela, e da iluminação artificial do piso de vidro, que possibilitava a visão dos peixes e corais do fundo das águas que passavam sob a casa.
O rangido da porta e do piso mostrava que alguém estava entrando. Os passos de quem entrava não eram cuidadosos, não eram de quem estava tentando não ser visto. Ao contrário do que D imaginava, os passos foram rápidos e ritmados, o som de saltos muito finos batendo no chão. Ela se desvencilhou cuidadosamente de Daren (que havia se agarrado ao seu braço) e apontou a arma centímetros a frente de onde vinham os passos. Ela atirou acertando apenas no assoalho. O tiro de volta veio no mesmo segundo. D apontou para que Daren saísse e fosse para trás da poltrona. A voz aguda de mulher entrou cortante nos tímpanos de D que reconheceu-a muito bem:
-Eu sei que você esta aí, daaarling – era um sotaque carregado e extremamente irritante.
-Charlotte. O que você está fazendo aqui? - D saiu do sofá para encarar a “loira fatal”que vestia roupas de couro, botas de cano alto e seus cabelos estavam extremamente loiros (claramente tingidos vários tons abaixo do natural) . Ela portava uma pistola calibre 32. Charlotte era uma das agentes do EDM, seu posto ficava na França. Uma vez ou outra ela ia à Nova York fazer treinamentos especializados com Nina, C, R e D. Com a saída delas, as espiãs nunca mais a viram.
-Estou realizando um trabalhinho novo. Jeff me deu uma proposta irrecusável.
-Você sabia que ele tentou nos matar anos atrás? - D estava perplexa pelo tom indiferente de Charlotte ao falar do ex-chefe.
-E não sei porque não conseguiu - ela solta uma gargalhada profunda e maléfica, como nos filmes infantis. - Seria uma boa lição para o ego inflado de vocês.
-Ego inflado? Mulher, com quem você acha que está falando?
-Com as agentes da mais alta patente do EDM, de todas as sedes- Charlotte faz uma voz falseada ainda mais aguda, se isso era possível. - Era sempre vocês quatro pegando as melhores missões e recebendo as melhores gratificações.
-Besteira - D mantinha a arma apontada para rival.
-Eu realmente não me importo em ter que matar vocês, mas meu alvo de hoje não é uma espiã aposentada - Charlotte muda seu foco e direciona a arma para a poltrona onde Daren deveria estar. Ela está pronta para apertar o gatilho quando um tiro vindo da janela atinge o braço dela. A pistola cai direto no chão e gera um tiro acidental. D, que tinha pulado para tentar pegar a arma, não chega a tempo e o disparo acerta de raspão seu ombro esquerdo. Acuada, Charlotte sai correndo pela varanda dos fundos, caindo diretamente no mar e sumindo entre as ondas escuras.
Entrando pela porta da frente, surge um Adam de terno incompleto, sem a gravata e com a camisa abotoada errada. Ele corre em direção a D que estava com um sangramento no ombro devido ao tiro.
-Aquela vadia entrou com a arma destravada – D falou com ar de incredulidade para o marido. - Ela não aprendeu NADA durante todos aqueles anos de treinamento?
-Se o acidente tivesse sido com ela, com certeza teria sido uma lição dolorosa. Mas um tiro direto no anti-braço é o que tem pra hoje – Ele olhou o ferimento da esposa e concluiu: - Vai ter que fazer um curativo e ficar com esse braço parado.
-Rá! Até parece que vou ficar de repouso enquanto vocês estão por aí … - D parou. Isso a fez lembrar do motivo pelo qual ela tinha levado o tiro para começo de conversa. Ela correu para de trás da poltrona. - Daren, você já pode sair, ela escapou, é seguro agora – Daren estava encolhido em posição fetal e tremia levemente. - Venha, eu te ajudo a levantar – D fez o movimento de esticar o braço, mas com a dor latejante, recolheu imediatamente – Digo, Adam vai te ajudar .
Adam revirou os olhos, em seguida sussurrou um “eu te disse” para ela. Daren não gostou da troca de suporte e tratou de empurrar a mão de Adam para longe. Levantou-se sozinho, ajeitou a roupa completamente torta e por fim pigarreou:
-Bem, obrigado. Acho que devo sair imediatamente desse lugar e ficar escondido, certo?
-Claro – disse D com o olhar mais amável que conseguia com um ombro dolorido - Antes, porém, você vai responder algumas perguntinhas - Adam estava de cara com Daren, impedindo o jovem Ayer de correr para a porta. - Conte-nos tudo sobre o último projeto que você criou para o seu pai.
-Olha, D. Não posso contar sobre isso, sabe? Confidencial e essas coisas... - Daren vacila em algumas palavras. D pega o seu distintivo preso na bainha, sua saia levanta mais alguns milímetros e os olhos de Daren correm para o pedaço de carne à mostra. Adam dá um soquinho nas costelas do rapaz e sussurra - para que D não escute - “da próxima vez que você olhar pra minha mulher desse jeito, vai ter costela quebrada”. - Desculpe, força do hábito. O que querem saber exatamente? - Daren então se joga no sofá, como se aquilo tudo tivesse cansado sua beleza.
-Vai contando... - Adam e D sentaram nas poltronas de frente para ele.
-Bom, eu criei um chip subcutâneo. Era um projeto antigo, o qual eu tinha começado a desenvolver para a polícia americana. O chip seria colocado em presos que recebessem a condicional e o direito de terminar a pena em liberdade. Seria como as tornozeleiras de hoje em dia, com o diferencial de ele não ser um acessório à vista de todos e de um poder de controle maior por parte dos policiais. Se o condenado descumprisse seu perímetro ou fizesse alguma outra besteira que o fizesse voltar para de trás das grades, os agentes policiais teriam a possibilidade de controlar o preso, fazendo-o se entregar. Sem tiros, sem deslocamento de equipes. Uma maneira mais eficaz de capturar um fugitivo. - Daren encarava os dois como quem dizia “já posso ir agora?”.
-Esses chips são de controle mental?
-Tipo isso – ele fez uma pausa. - Bem, acho que É isso. Porque essa foi a desculpa que o departamento de segurança federal disse para rejeitar a implantação do chip. Como o projeto era meu, os direitos sobre ele continuavam em minhas mãos. Eu só vendi para o meu pai.
-Como assim você só vendeu para o cara da máfia tecnológica? - D estava chocada.
-Ele não tem nada a ver com esse treco de máfia. É intriga das pessoas - Daren defende.
-Como sabe? Ele te conta tudo dos negócios dele?
-É meu pai! Eu saberia dessas coisas. - Daren acreditava piamente no pai, D e Adam bufam de incredulidade.
-Pra quem seu pai revendeu seu projeto?
-Não faço ideia – o casal já estava ficando sem paciência para o filhinho mimado.
-Quando que ele revendeu?
-Acho que semana passada. Lembro dele ter comentado alguma coisa sobre já ter desencalhado o esquema.
-Certo. Isso pra mim já basta – Adam se levantou – Vou ligar para Pablo, o agente da América Central, vir e escoltar o senhor Ayer até um local seguro.
-E eu? - pergunta Daren.
-É de você mesmo que estou falando.
-Ah, pensei que estivesse falando do meu pai... Então, e ele?
Adam ficara calado. D o conhecia muito bem, sabia que tentava dizer alguma coisa difícil e Adam tentava escolher as palavras certas.
-Seu pai morreu no tiroteio da festa - soltou de uma vez.
Daren recosta no sofá desolado e começa a chorar feito criança.

Um comentário:

  1. Já começou arrepiando e envolvendo atenção pra leitura inquietada pelo mistério. Muito bom!
    Cadinho RoCo

    ResponderExcluir