quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Vendem-se lembranças

A rua estava vazia. Todos os vizinhos resolveram brincar de pique-esconde? Até o sol brincava de se esconder entre as nuvens. Podia me divertir pela calçada, subir e descer o meio-fio, dançar na chuva sem uma única gota caindo do céu. Algo, porém, chamou minha atenção. Uma placa branca reluzia com os reflexos solares que escapavam. “VENDEM-SE LEMBRANÇAS”, dizia a placa. Uma menina sentada no banquinho encontrava-se necessariamente ao lado das inscrições e encarava o vazio do asfalto a frente. Tentei passar sem fazer movimentos bruscos, não queria chamar a atenção dela. Em vão.


-Oi. Quer uma lembrança?

-Desculpe...?

-Bom, você escolhe. Temos as lembranças de infância, lembranças das minhas habilidades na cozinha, lembranças de amigos, de histórias, de amor... As felizes estão quase se esgotando, as engraçadas não ficam muito atrás. Mas as tristes estão empilhadas no cantinho e são de pronta entrega.

-Eu acho que não estou precisando – tentei contornar a situação.

-Poxa, você não entende... – o leve sorriso dela se desfez e fechou a cara.

-O que?

-Preciso de espaço, preciso me livrar delas! Não pode me ajudar nem um pouquinho?

-Não é possível que você tenha tantas lembranças. Você é mais nova do que eu!

-Só porque sou nova, não quer dizer que não tenha vivido.

-Se eu não vivi nem a metade do que eu queria, como você poderia? Como conseguiu?

-Quer saber o segredo para muitas emoções e lembranças? – ela me chama para perto – Viva. Viva. Viva.

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