domingo, 31 de julho de 2011

You're so lucky I'm around - Parte 11


A semana restante foi curiosa. Nenhum dos dois queria ser o primeiro a falar sobre aquela noite e aquele dia que passaram na casa de D., sem que o trabalho tenha sido o foco. Sim, estava tudo quase pronto e os retoques que faltavam podiam ser feitos a distancia. E era assim que eles vinham se comportando. Em silencio, a distancia, se falando apenas quando era estritamente necessário e mesmo assim, medindo as palavras, agora que sabiam que eram antigos conhecidos.
Nenhum dos dois conseguia tirar isso da cabeça. Terem feito um semestre de faculdade juntos, antes dele largar e dela trancar indefinidamente, explicava porque os dois acreditavam ser estranhamente conhecidos, mas não explicava – ao menos não por parte dele – os motivos que o levaram a desejar que a toalha dela caísse ou a fazer o almoço para os dois no dia seguinte.
E no final do almoço, quando mesmo depois de ter descoberto amigos em comum e uma faculdade em comum, ele não conseguiu ir embora. Estava apavorado com mais essa proximidade, mas não conseguia juntar as forças para atravessar a porta. Queria ficar lá. E ficou mais um pouco. Os dois discutiram mais alguns detalhes sobre o projeto, dividiram quem ficaria com cada parte final... Mas o que aconteceu mesmo foi que o vinho acabou subindo a cabeça e os dois acabaram dormindo, apagados porque dormiram pouco e mal na noite anterior. D. acordou primeiro dessa vez, apoiada no braço de Eduardo, que dormia desconfortavelmente ao lado dela no sofá muito apertado para dois corpos.
Ela se xingou baixinho em chinês de novo, enquanto levantava-se e olhava para ele chocada. Era Eduardo, meu Deus. Como ela deixou isso passar assim por tanto tempo? E o que ela estava fazendo DORMINDO assim, toda hora, perto dele? Esse vinho maldito! Mas não era o vinho e ela sabia disso. Ela estava perdendo um pouco o controle da situação.
Quando Eduardo foi embora, quase 24 horas depois dele ter entrado por aquelas portas, D. ligou o computador e contou tudo para suas amigas, que se dividiram em gritar de euforia e falar “po cara, mas você não ficou com ele? NÃO?”.
Então D. também estava aliviada por não precisar dividir as tarefas com Eduardo nessa última semana. Sem comentários na sua nuca. Sem duas mãos dividindo o mesmo mouse. Sem risos e conversas informais em sua casa. Ela não sabia como estava se sentindo agora que sabia que ele era aquele menino alto e meio esquisito, mas extremamente charmoso do seu primeiro período há anos e anos atrás. Isso explicava muita coisa, mas ela não queria que isso explicasse esses sentimentos contraditórios dela. Não podia ser o revival de um crush. Não podia. Ela estava velha demais para isso.
Eduardo observava no decorrer da semana sua colega trabalhar na outra ponta da mesa. Séria, com óculos, saltos e terninhos, ela lembrava só de longe aquela mulher descontraída e engraçada, com quem ele passou ótimos momentos cozinhando e pra quem estendeu o braço com vontade para que ela usasse de travesseiro.
Talvez eles devessem parar de besteira e assumir um pro outro que o relacionamento deles não devia ficar só nesse âmbito profissional. No fim da semana, Eduardo voltaria para sua filial da empresa e os dois não iriam mais se ver todos os dias, muito menos dividir o mesmo mouse, ou o mesmo escritório pequeno. Os dois ficavam apavorados em assumir isso, mas sabiam que iam acabar sentindo falta. “Talvez”, pensavam, “talvez seja bom fazer um esforço para mantermos contato. Aquele dia foi tão divertido”. E lembravam de outros momentos divertidos no decorrer da semana na passada. Da carona pra casa, dos livros de vampiro. “Arg, que droga”, pensavam em conjunto e Eduardo sentia vontade de chutar o rodapé de novo.
Na quarta-feira já tinham terminado o que deviam fazer no comercial e banners e, sendo assim, os levaram na quinta de manhã para que Joana desse uma olhada.
- Está lindo! – ela disse, olhando os banners. O trabalho impecável dos dois, fruto das idéias mirabolantes de Eduardo, mas da execução pratica e sempre muito bem feita de D.
Quando rodaram o vídeo, Joana encarou com cuidado, mas depois da exibição tinha o nariz torcido e disse:
- Não gostei da música. Preferia que fosse de alguma banda conhecida, com um rítimo mais animado.
A musica que tocava na propaganda era clássica e aparentemente calma demais, desconhecida demais. Eles não tinham parado pra pensar muito na musica, no fim das contas.
- Nós podemos lidar com os direitos autorais, não se preocupem. – concluiu ela – Vocês tem até amanhã para pensar numa música boa, mas levando em consideração que vocês fizeram todo esse trabalho maravilhoso em uma semana e meia, acho que vocês conseguem fazer isso em cinco minutos, não é mesmo? – riu.
Os dois assentiram tentando mostrar segurança, mas estavam inseguros porque teriam que pensar juntos novamente.
A distancia física já era. Mas fazia assim tanta diferença se eles não conseguiam manter-se longe dos pensamentos um do outro de qualquer maneira?

quarta-feira, 27 de julho de 2011

You're so lucky I'm around - Parte 10


Quando D. abriu os olhos, percebeu que já eram 11 horas da manhã de Domingo. Percebeu também que a casa estava cheirando a tempero. Depois disso, percebeu que estava enrolada no sofá. Por último, que o casaco quadriculado de Eduardo cobria suas pernas.
Com essa última descoberta, levantou-se num pulo, derrubando o casaco no chão.
Merda. Merda. Merdaaaaaaaa.
Pelo menos estava devidamente vestida. Será que tinham feito alguma coisa tensa ontem a noite? Procurou por evidencias de vinho ou qualquer outro tipo de bebida alcoólica. Taças, garrafas, manchas? Nada. Graças a Deus.
O que eles estavam fazendo juntos mesmo? Céus, como ela estava cansada. Viu o laptop conectado a tomada a distancia. Estava aberto, mostrando o editor de filmes e o que eles tinham feito na noite anterior.
Ah é, trabalho. Ufa. O comercial televisivo estava quase pronto e os banners estavam também precisando de só alguns retoques. Conseguiriam terminar a tempo de mostrar para Joana e teriam tempo hábil de mudar alguma coisa caso ela apontasse algum tipo de defeito.
Cacete, e esse tempero forte?
Sem entender o que se passava naquela casa, D. foi em direção a cozinha, tentando arrumar o cabelo no caminho. Sorte dela que seu cabelo sempre foi bom, mesmo que ela nunca assumisse esse fato para as suas amigas.
Eduardo estava descalço, vestindo só a camisa branca e a calça jeans. O casaco havia servido de cobertor para D., como ela bem sabia e os tênis estavam amontoados perto da porta. Ele estava picando tomate e só a viu parada na porta alguns minutos depois, quando virou-se para colocar os tomates dentro de uma panela, que borbulhava na água.
E como aquela cozinha cheirava bem. “Meu Deus” - D. pensou – “Faz tanto tempo que essa cozinha não tem um cheiro tão maravilhoso!”.
Depois pensou que fazia mesmo muito tempo que ela não se dignava a cozinhar. Exceto, é claro, quando as amigas passavam na sua casa, e todas elas invadiam a cozinha como nos velhos tempos. Fazendo lasanha, gelatinas que ninguém comia no final e com a C. empoleirada do lado do fogão fazendo a mesma coisa que o Louro José e dizendo coisas como “um dia eu tenho que fazer minha palha italiana pra vocês. Sorte minha que o Bernardo é Romagnoli e curte minhas massas e minha palha italiana que são tudo que eu sei fazer na cozinha”. Todas riem, mas aí Isa comenta sobre como a sorte é da C., que arrumou um rolo que é praticamente um mestre cuca apesar de formado em engenharia. Todas riem de novo.
Absorta em seus pensamentos, D. foi despertada pelo som da sua própria risada. Com as lembranças. E com a cena que se sucede em sua frente.
As mãos dele pararam a centímetro da água na panela, cheias de tomate. Ele olhou para ela por um segundo, como se não esperasse vê-la ali, NA COZINHA DA CASA DELA. Depois seus dedos se abriram, junto com seu sorriso, e os tomates despencaram panela adentro.
- Do que você está rindo? – perguntou.
- Você pode me explicar o que está fazendo na minha cozinha domingo de manhã?
- Posso. – ele respondeu, voltando para perto da pia para pegar mais tomates picados. – Estou fazendo um refogado de carne com batata. Antes que você comece a reclamar, eu comprei tudo no mercado aqui perto. Não sabia se podia usar o que tinha na despensa e na geladeira, vai que você estava guardando para alguma ocasião em especial.
“ESSA é uma ocasião em especial” – D. quase não conseguiu se impedir de dizer. Mas aí teria que se explicar. Era realmente especial que ela tivesse dormido com um cara – LITERALMENTE dormido e nada além disso – e que ele estivesse fazendo o ALMOÇO.
Por livre arbítrio. Sem sexo envolvido.
Isso pode, Arnaldo?
- Eu não ia começar a reclamar. – disse ela se esgueirando para dentro e se aproximando do  fogão. – Olha, tá cheirando muito bem.
- Foi o cheiro que te acordou do seu sono mega pesado? – ele riu.
- Normalmente eu não durmo mega pesado.
- Normalmente você não fica acordada até as 5 da manhã com seu colega de trabalho fazendo um vídeo maldito, fica?
Cinco da manhã. Ela lembrou melhor do acontecido na noite anterior. Isso explicava também esse cansaço terrível.
- Onde você dormiu? – perguntou ela. – Levando em consideração que eu ocupei o sofá.
- Você não lembra? – ele a encarou. D. gelou por um momento. Por favor, não. Por favor sem vinho, por favor sem cama, por favor sem mais constrangimentos. – Estávamos trabalhado no vídeo e quando eu perguntei sua opinião, descobri que você tinha dormido no meu ombro. Aí eu vi que eram cinco horas da manhã. Não consegui me mexer porque não queria te acordar, então coloquei o computador pro canto e me acomodei melhor. Você também. Deitou na minha perna.
- Você podia ter me acordado! Assim eu ia pro meu quarto e você podia ficar com o sofá pra você... – ela olhou para ele sentindo as bochechas corarem pensando que haveria outra possibilidade, especialmente se eles tivessem tomado vinho. – Ou algo assim.
Ou algo assim foi uma boa saída.
- Não quis te acordar. De qualquer maneira, eu também estava tão cansado que dormi sentado no sofá mesmo. Ele é bem confortável. – respondeu. – Aí acordei faz mais ou menos uma hora e você ainda estava dormindo. Deixei-a dormindo lá, saindo com muito cuidado e agradecendo por seu sono pesado e saí para comprar o almoço. E comecei a faze-lo. Aliás, o que você está fazendo aí? Esses outros dois tomates não vão se picar sozinhos, eu poderia fazer uso de uma ajudante.
D. revirou os olhos, rindo. Então se aproximou da pia e pegou uma faca na gaveta. Essa noite tinha feito bem pro relacionamento dos dois, ela podia ver. Eduardo não estava mais sempre na defensiva, fazendo comentários irônicos sobre tudo. Quer dizer, obviamente ironizava a maneira como ela cortava os tomates, ou como seus olhos ficaram cheios de lágrimas com as cebolas (não por muito tempo, porque os dele também ficaram), mas era uma ironia muito mais simpática do que a que ele fez, por exemplo, sobre seus livros de vampiro.
Conversavam enquanto cozinhavam o almoço para dois. Eduardo arrumava a carne moída, D. amassava os alhos (junto com mais um comentário sobre vampiros) e eles dois conversavam sobre a vida. Eduardo contou sobre a família, sobre a maneira como a mãe dele cozinha, alguns casos de família, sobre o cachorro que um dia roubou o bife da mesa... D. achou tudo engraçado, mas o mais engraçado mesmo era aquele bom humor que tinha tomado conta da relação dos dois, que possibilitava que ele fizesse marabalismo com as batatas e que ela murmurasse Maroon 5 junto com o rádio. O que gerou uma discussão entre os dois, sobre gostos musicais, que findou-se em D. jogando um punhado de água da pia em cima dele, simplesmente porque ele achava que The Who era melhor que os Beatles. E nunca serão. Nunca, nunca e nunca.
O que era pra ser extremamente estranho, foi perfeitamente natural. Cozinharam juntos como se já tivessem feito isso um milhão de vezes antes. Estavam indo muito bem. Quem diria que eles faziam mesmo uma bela dupla, e não só na publicidade, mas também na cozinha... Onde mais?
Com o almoço pronto, os dois se servem e vão se sentar na mesa da cozinha mesmo, que era mais pequena, acolhedora e menos bagunçada. Continuam falando sobre a vida. Um pouco da infância, D. fala das amigas de muitos anos e sobre como desde o fim da escola continuam se vendo como dá, quando dá, mas continuam sendo as melhores amigas umas das outras, mesmo que cada uma tenha conhecido inúmeras outras pessoas e se envolvido em milhões de relacionamentos, nem sempre sadios. Eduardo concordou veementemente com a parte de nem sempre sadios. Então começou a falar dos amigos da faculdade e da faculdade em si. Tinha feito UFF. “UFF” - D. pensou. – “Se não é da PUC que eu o conheço, é de onde?”
E eles estavam bebendo vinho. Eduardo insistiu. Foi aquisição dele também.
- Eduardo... – ela disse. O vinho estava dando coragem. – Por que eu tenho essa impressão de já ter te conhecido antes de sermos apresentados por Joana?
- Por conta de nós sermos uma boa dupla? – ele ironizou. – Não, eu também tenho essa impressão. Quer tentar traçar um panorama de nossas vidas pra descobrir de onde a gente pode se conhecer?
Os dois riram. Era uma vida longa, no fim das contas. Mais de um quarto de século! Mesmo assim, D. deu de ombros e concordou, então, entre uma garfada e outra, os dois começaram a nomear lugares, colégios e finalmente faculdades, enquanto riam de memórias e de conhecidos de um lado só.
Foi só quando D. falou que tinha feito turismo na UNIRIO, como graduação tardia, que os dois ficaram em silencio.
Jackpot.

You're so lucky I'm around - Parte 9


SEU TAMAGOSHI LIGOU.
Tudo que ele tinha conseguido falar para a sua colega de trabalho enrolada numa toalha foi AH, SEU TAMAGOSHI LIGOU.
ISSO NÃO FAZ O MENOR SENTIDO.
Mas quem pode culpa-lo? Por Deus, estava realmente escrito tamagoshi na porcaria do visor.
Chutou o rodapé da parede com o bico do all star, embaraçado.
Ah não, espera! Fica melhor. VOCÊ PODE LIGAR MAIS TARDE QUANDO TIVER UMA ROUPA.
Sério. SÉRIO.
Mas como ele deveria se comportar? Deveria ignorar a esquisitice? Deveria ignorar o incomodo? Deveria ignorar essa intimidade forçada?
Quer dizer, não é como se ele não tivesse gostado de vê-la só de toalha, mas é que isso simplesmente não estava certo. Ele não podia vê-la só de toalha!!! Ela era a D., control freak, workaholic, que vivia batendo os saltos por aí e vestindo aquelas saias no joelho.
E ele queria que a toalha caísse.
“Jesus” – pensou, chutando novamente o rodapé. – “Qual é o meu problema?”
Ensaiou mentalmente o que ia dizer para D. quando ela finalmente saísse do quarto. Isso se ela saísse do quarto. Será que ele deveria ir embora? Não. Como iria encara-la na segunda feira se fosse embora? “É, eu fui embora da sua casa porque te vi de toalha e fiquei sem graça”.
Bom, pelo menos ela ainda estava de toalha. IMAGINA se os desejos sórdidos dele sobre a queda da toalha fossem atingidos, que CONSTRANGEDOR.
Talvez fosse melhor ele manter uma distancia segura de D. até o fim dos trabalhos. Não queria perder o prazo por causa disso. DISSO. Ele não quis nomear aquelas sensações estranhas. Na verdade, estava apavorado por aquelas sensações estranhas.
Talvez ISSO explicasse porque ficou parecendo um idiota quando ela saiu do banheiro enrolado numa toalha. Pelo amor de Deus, como se nunca tivesse visto uma mulher de toalha antes.
O problema em específico era ver aquela mulher de toalha.
E não só porque ela era sua amiguinha de trabalho, a quem ele devia respeito e tudo mais. Mas especialmente porque ela despertava esse lado RIDÍCULO dele. Esse lado mulherzinha de sentimentos.
Chutou o rodapé de novo. “Puta que pariu, sentimentos não. Sentimentos são uma PÉSSIMA idéia, Eduardo”. – pensou com si mesmo. – “Você viu no que isso deu da última vez”.
Tinha acabado de chutar o rodapé quando ouviu-a pigarrear atrás dele.

*

D. assistiu Eduardo chutar o rodapé do canto da sala, cabisbaixo e com muita força. Alguém parecia chateado. Ou talvez ele estivesse perturbado com o que viu. Oh céus, espero que ele não esteja pensando que terá pesadelos com a visão dela de toalhas.
Se for isso, ela terá que chuta-lo para fora de casa.
- Ah... – ela diz, tentando chamar sua atenção. Ele se vira num sobressalto e ela assiste suas sobrancelhas subirem enquanto ele analisa o que ela está vestindo.
Achou que não tinha problema vestir um short, levando em consideração que ela não tinha deixado muita coisa para imaginação quando saiu desfilando de toalha.
E ela tinha GRITADO. Por Deus, GRITADO!
- Agora que eu já estou devidamente vestida, quem você disse que tinha ligado? – perguntou, tentando fazer piada.
- Olha, isso vai parecer estranho. – ele disse, com uma risada presa. – Mas no visor estava escrito tamagoshi. Achei estranho, mas a casa é sua no fim das contas.
D. começou a rir. Eduardo não entendeu a razão, mas acabou rindo também. Depois ela explicou que se tratava de uma amiga, que tinha esse apelido desde os tempos de colégio e ela nem lembrava mais porque. “Provavelmente foi coisa da mika”, ela disse.
Como se isso explicasse muita coisa para ele.
Com o incidente da toalha devidamente ignorado, os dois voltaram ao trabalho. Ou pelo menos, foi isso que eles tentaram fazer. Nenhum dos dois tinha muita concentração sobrando. Especialmente quando se uniam para enxergar a idéia no único computador na sala, o de D. E quando Eduardo passava a mão muito perto dela para apontar alguma coisa na tela, ou acabava falando tão perto que ela sentia o calor do seu hálito nas costas do seu pescoço.
Obviamente tentaram manter a distancia formal, mas era difícil quando só se tinha um computador e a lembrança constante de um momento de intimidade não esperado.
Tão não esperado quanto a visita dele.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

You're so lucky I'm around - Parte 8


Chocada com a aparição repentina de Eduardo na porta de casa, quando ela estava literalmente babando sobre o trabalho, D. correu para dentro do banheiro para fugir daqueles olhos ridiculamente conhecidos.
O grande problema desse escape foi justamente a parte dele não ter sido previamente planejado.
E é assim que D. se vê trancada dentro do banheiro, com nada além de uma toalha feopulda defendendo-a do mundo lá fora.
Merda.
Como pode ser tão relapsa? Esquecer desse detalhe tão importante! ROUPAS. Que droga!
Mas também, quem pode culpa-la? Não tem o hábito de carregar as roupas pro banheiro, a não ser em dias extremamente frios. Mora sozinha e o quarto dela está a um passo do banheiro, as portas são opostas e separadas por um mísero corredor estreito...
Que desemboca na sala.
Aliás, que desemboca bem de frente pro sofá da sala.
Sofá que Eduardo estava sentado confortavelmente antes dela entrar no banho.
        Ou seja, por alguns segundos, enquanto ela dá um passo até seu quarto, Eduardo teria uma visão pouco ortodoxa dela atravessando o corredor enroladinha numa toalha branca e com os cabelos pingando.
        Qual será a credibilidade dela depois disso? Como ela vai poder convence-lo de suas idéias sabendo que aqueles olhos marotos e conhecidos dele já a escanearam vulnerável? DE TOALHA?
        Bom, ela sempre pode pedir para que ele vire de costas por um momento. Mas talvez ele se sinta ofendido por tal pedido. Como se ela não confiasse no fato de que ele não ia dar uma olhadinha... Talvez ela não confiasse mesmo, mas ele não precisava saber disso.
        Não tinha escolha. Girou a tranca tentando não fazer barulho e a maçaneta vagarosamente...
        Um passo.
        Só precisava dar um passo longo e estaria na segurança de seu quarto.
        Colocou os dedinhos do pé pra fora e arriscou um olhar para sala. O corredor estava vazio, assim como o sofá.
        Deus existe! Talvez Eduardo tenha ido buscar alguma coisa na cozinha ou olhar a vista da janela. Pouco importa! O importante era que ele não estava a vista e que ela podia dar seu único passo em paz.
        Virou-se na direção do quarto quando reparou numa sombra bizarra proveniente do seu outro lado. Do outro lado do corredor, que dava no escritório e não na sala. Gelou.

*
        Eduardo ficou sem reação quando viu D. sair do banheiro. Ele realmente não queria estar ali. Desejou fazer um buraco no chão de tão constrangido que ficou...
        Especialmente porque ele não conseguia tirar os olhos daquela toalha.
        E a parte pouquíssimo racional dele estava querendo muito que ela caísse.
        O que era inadmissível. Ele não podia ter desejos sórdidos com a amiguinha de trabalho. Primeiro porque ele não a conhecia a tempo o bastante e segundo porque ele tinha essa incrível capacidade de merdar qualquer tipo de relacionamento que se metia, mesmo que puramente carnal.
O que certamente não era o caso.
        Certamente aquela pessoa enrolada na toalha mexia com ele em muitos outros níveis além do carnal.
        O que voltava a não fazer sentido, porque eles só se conheciam há uma semana. Uma semana de contato direto, mas ainda assim só uma semana. Que tipo de outros níveis poderiam estar remexidos se não o seu nível mais animalesco?
        Ele não entendia como, nem porque, mas aquele fascínio não era normal.
- AHHHH! – D. gritou de susto assim que viu que era Eduardo que estava em seu lado, estático, segurando o telefone sem fio na mão.
- Ah, seu tamagoshi ligou. E ah, mil desculpas. Eu ah, vou, ah.. ali. – Eduardo disse, estendendo o telefone para a garota que não conseguia se mover um milímetro. Vendo que ela não estendeu a mão para pega-lo, ele continuou segurando. – Ah, acho que você pode ligar mais tarde quando tiver, ah, uma roupa. Eu vou ah, ficar na sala. Desculpe.
Eduardo virou as costas para D, quase correndo na direção da sala, cabisbaixo. Ela pulou pra dentro do seu quarto e bateu a porta com força. Encostou-se contra ela e respirou fundo.
“PUTA QUE PARIU, MURPHY MALDITO!!!!!!!!”
Nesse exato momento, sua toalha caiu.

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