domingo, 20 de março de 2011

You're so lucky I'm around - Parte 5

- Terminou, é? – D. pergunta quando já está empoleirada ao lado da amiga no sofá, e ambas estão servidas de uma xícara. A de C. tem chá, a de D. coca-cola. Não que a amiga soubesse disso. – Quer me contar os detalhes?



- Ah sim, por favor. Preciso desabafar. – C. quase grita, com aqueles olhos naturalmente esbugalhados. – Não é que eu não o ame, entende?


- Sei. – D. ri consigo mesma de novo, bebericando o sua coca aos poucos, como se tivesse medo de queimar a língua. O hábito da xícara. – Mas...?


- Mas nós somos TÃO DIFERENTES. É difícil ter uma droga de um relacionamento de longo prazo quando ele fica me enchendo o saco porque quer casar, porque quer ter cinco mil filhos e QUER DAR NOME PARA ELES. – ela olha na direção de D chocada, como se ele estivesse falando que quer começar uma revolução neonazista. – Nós temos metas diferentes da vida e as perseguimos separadamente, sabe? E eu estou cansada de brigar sobre o futuro. E sobre tudo.


- Sei. – D responde novamente, sem saber muito bem o que comentar. C. sempre teve um pouco de problemas com essa toda de comprometimento a longo prazo. E lá ia ela estragando uma coisa fofinha como ela e Bernardo.


Antes que D pudesse respirar fundo para começar a dar um pseudo sermão na amiga, o celular de C. começa a tocar. Beatles.


To lead a better life I need my love to be here...


Os olhos de C. se enchem de lágrimas enquanto ela puxa o celular do bolso. Está prestes a clicar em cima do botão de ignorar a chamada quando D. puxa-o da mão dela.


- Qual é o seu problema? – pergunta D, olhando o visor que acusa ser Bernardo.


Here, making each day of the year, changing my life with a wave of her hand. Nobody can deny that there’s something there.


- Ele tem ligado desde que brigamos pra valer. Um milhão de vezes!


- E você não vai atender eventualmente? - D. encara a amiga chocada.


There, running my hands through her hair, both of us thinking how good it can be, someone is speaking but she doesn’t know he’s there.


- Não estava nos planos. – C. continua com aqueles olhinhos de Dori brilhantes, como se quisesse MUITO atender, mas não quisesse dar o braço a torcer por orgulho barato.


(…) But to love her is to need here everywhere, knowing that love is to share, each one believing that love never dies, watching her eyes and hoping I’m always there.


O celular para de tocar. As duas se encaram no silencio. C desvia o olhar, sem saber no que pensar. Dani sacode a cabeça, pensando no que fazer com essa amiga cabeça dura. Antes que ela possa abrir a boca o telefone toca de novo e dessa vez, antes de C começar a reclamar de novo, ela atende o telefone.


- Oi Bernardo, é a D., tudo bem?


- D!!!! O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO??? – C. pula do sofá e tenta alcançar o celular da mão da amiga.


D. começa a se distanciar dela enquanto ouve Bernardo mimimizar do outro lado da linha. Ela para de andar, aponta pra C, faz sinal de silêncio na frente dos lábios e depois clica no botão do viva voz.


- ... então você desculpa te fazer de mensageira, mas é que ela não me atende e não me escuta de jeito nenhum e eu preciso muito que ela saiba de várias coisas.


- Sei. – D. responde perto do bocal para que ele não perceba o viva-voz. – Pode falar que eu falo com ela.


Bernardo começa a se embaralhar nas palavras. Pede pra D. editar essa parte confusa. Na verdade, ele não conseguia expressar o que sentia em palavras, nunca foi muito bom com elas. Não a toa era um ótimo engenheiro. Mesmo assim depois de gaguejar algumas coisas sem sentido, ele começou a dizer pra D. que não tinha nem noção de como precisava de C. até que ela foi embora e que ela também não tem noção disso. Se desculpou por ter dito um monte de coisas ridículas, mas disse que sempre diz um monte de coisas ridículas e que brigam feio, mas sempre achou que tinha um amor maior que tudo isso que os trazia de volta. “Ainda acho, mas eu tenho medo de que ela não ache mais”.


D. ouve com cuidado. Não diz uma palavra para não atrapalhar o discurso de Bernardo, que pra quem suspostamente mal sabe escrever o próprio nome de tão ruim que é com palavras, estava se saindo muito bem.


- Aí eu tou aqui em casa, olhando para a parede e tentando pensar em alguma coisa que eu possa fazer para lembra-la que o lugar dela também é aqui, olhando para a parede comigo e discutindo sobre todos os possíveis temas da vida, porque eu posso falar as bobagens que eu penso e ela compartilha das minhas bobagens e tudo acaba em risos e suspiros sobre as complexidades da vida. – ele mesmo dá um suspiro. Complexa essa vida marota! - Eu sinto muito por tê-la forçado a tomar decisões e por a ter pressionado para casar comigo de uma vez. Mas D, não é assim que as coisas funcionam num relacionamento? São anos já! Será que você pode avisar pra ela que isso é tudo mega paliativo e só pros meus pais, e os pais dela, diga-se de passagem, pararem de encher o saco? Com casamento, sem casamento, com filhos ou sem filhos, com crianças adotadas ou não, eu só quero passar o máximo de tempo que eu conseguir com ela, porque ela ainda é em muitos aspectos aquela mesma menina tímida que se escondia atrás do cabelo na hora de apresentar um trabalho na faculdade, por quem eu me apaixonei aos poucos e agora não consigo mais imaginar uma vida sem.


D encara o celular em suas mãos. Está com medo de levantar os olhos e não aguentar conter lágrimas. Que fofos, que lindos! Se ela fosse um padre casava-os no ato.


- Não sei se vou conseguir lembrar disso tudo. – D. consegue juntar forças para fazer uma piadinha. – E, sabe, você devia fugir pra casar com ela, aposto que ela ia gostar.


C olha pra D com um sorriso maroto no rosto, rindo das discussões que elas e R, Nina, Isa e outras tiveram sobre o suposto casamento dos sonhos. Naquela época, C. defendia que se casar, estraga. Na atual circunstância ela já não tinha mais tanta certeza assim.


- Então faz o seguinte, só diz: “Please remember how I feel about you. I could never really live without you. So, come on back and see just what you mean to me. I need you.”


- É Beatles. – C. silaba, seus olhos brilhando absurdamente, mas ela era metida a machona demais para chorar.


- É Beatles? – D pergunta alto demais.


- É sim. Algo que eu aprendi a gostar por causa dela. – Bernardo responde. – Você pode fazer esse favor pra mim?


- Ela já fez. – C. diz em voz alta. – Eu ouvi tudo.


- Er, C? – Bernardo gagueja, um pouco confuso.


- Viva-voz – D explica, sorrindo pra amiga.


- Desculpa, C. – Bernardo continua. – Você é muito imprevisível às vezes.


- Pelo menos você sabe que passar o resto da vida comigo não vai ser monótono.


D. olha para amiga chocada com a afirmação. Depois sorri. Era bom que finalmente eles dois se acertassem de vez, tinham mesmo uma relação meio turbulenta, quase tensa. E como Bernardo bem disse, um amor maior que tudo isso. “God only knows how much I’d love you if you’d let me but I can’t break through it all. (…) I sweart to god we’re going to get it right, if you lay your weapon down”.


Olhando a amiga sorrir ao telefone, D. começou a sentir falta de ter alguém para brigar e se reconciliar de vez em quando. Instintivamente lembrou-se de Eduardo. Enquanto guarda as xicaras de volta na cozinha, se questiona o que ele estaria fazendo. Fica chocada ao perceber que mal pode esperar para vê-lo de novo no dia seguinte.


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sábado, 19 de março de 2011

You're so lucky I'm around - Parte 4

Preso no transito no caminho para casa bem na Praça 15, Eduardo agradece não morar mais na cidade do sorriso, also know as Niterói. Maldito tempo que ele tinha que se deslocar de onde Judas fez calo no pé para resolver a vida no Rio de Janeiro, ou apenas sair de noite. Triste. Bendita foi a hora que ele resolveu prestar vestibular de novo, se livrar daquela faculdade de Turismo no Rio. Por mais que ele gostasse de turismo, ele sabia que seu destino era Publicidade. E, além disso, não valia a pena se deslocar da putaquepariolândia de manhã muito cedo quando a UFF estava logo ali do lado e com o curso que ele sempre sonhou.



Barcas never again. Ônibus lerdos never again. Agora quando tinha que ir a Niterói visitar os familiares fazia de carro e nos horários mais inóspitos daquela ponte. A conhecia bem o suficiente para saber quando ela estaria razoavelmente vazia, pouco engarrafada.


Agora faltava só descobrir um caminho alternativo para ir para casa, sem necessidade de se embaralhar no meio desse transito caótico, cheio de ônibus e motoristas estressados, além de trabalhadores que se amontoam no ponto de ônibus, rezando para que o que esperam apareça logo.


Eduardo só chega meia hora depois. Estaciona o carro na frente da sua casa e sobe os degraus quase saltitante. Nada como voltar para o lar depois de um longo dia de trabalho. Vira a chave com um sorriso no rosto e acende a luz antes de fechar a porta.


É, sua casa andava um pouco bagunçada. Desde que ele havia terminado com Carolina a casa não via nem de longe a cor de uma vassoura. Ele riu consigo mesmo, tirando os all star pretos surrados. O que ele precisava era de uma faxineira não de uma nova namorada.


Não que Carolina fosse realmente uma namorada. Ela, coitada, achava que era. Mas ela era apenas alguém pra esquentar a cama. A verdade verdadeira era que Eduardo não era realmente O cara para se ter um compromisso.


Ou pelo menos todos os relacionamentos que ele estragou mostravam isso.


Ele largou a mochila em cima da mesa da sala, em cima de uma pilha de cartas e próxima a uma pilha de papeis do trabalho. Tudo fica ainda mais bagunçado, mas ele evita pensar nisso. Anda na direção do banheiro, sentindo o chão de pedra frio mesmo estando de meias.


Eduardo colocava seu histórico ruim de relacionamentos no seu anseio por liberdade, na sua vontade de ficar sem amarras, sem ter necessidade de decorar datas que supostamente são importantes e todo esse blablabla que um relacionamento impõe a alguém. O que ele não queria encarar era o fato de que ele tinha medo de se apaixonar por alguém. Ele já tinha passado por isso uma vez e ele não ansiava por repetir a experiência. Gostar de alguém significa se tornar vulnerável e isso acaba significando no longo prazo uma péssima ideia e um coração partido.


Mas ele era homem e evitava assumir isso tudo para alguém. Até para ele mesmo. “And I’ve always lived like this keeping a comfortable distance”


Ele deixa a água esquentando enquanto corre no quarto para jogar a roupa do corpo em uma pequena pilha que está ali há algum tempo e pegar uma bermuda qualquer. Uma das coisas boas de não ter nenhuma mulher reclamona em casa era poder andar só de samba-canção por aí sem ser repreendido. “E os vizinhos? E se alguém vir? E se aparecer uma visita inesperada?”


Só que isso não compensava a casa minimamente arrumada. AGORA ele teria vergonha de receber uma visita inesperada. Não pela cueca, mas pela confusão.


Antes de entrar no banho anota num papel e coloca em cima da mochila. “Urgente: procurar empregada!”


É só quando a água quente toca seus ombros que ele não consegue mais controlar seus pensamentos para mantê-los longe da sua nova companheira de trabalho. Pensar nela não era uma boa ideia. Tinha sido uma tarde ótima, discussões a parte. E terninhos a parte também. A maneira como ela andava arrumadinha e aquele salto batia contra o chão de madeira do escritório deixava Eduardo maluco. E não de uma maneira boa, como muitas outras coisas da nova companheira de trabalho o deixavam. Ela tinha aquele olhar estreito naturalmente, mas ainda mais estreito quando ele reclamava de alguma coisa. Também tinha aquela mania de apertar os lábios enquanto pensava, no caso, sobre o planejamento deles. E ela era inteligente. Tipo, muito. Por mais que ele tivesse insistido sobre o fato dos 14 dias serem tempo demais ela conseguiu convence-lo a preencher todos eles no cronograma.


Mesmo que ele ainda achasse que era muito.


Mas o que mais o deixava maluco quando pensava na nova parceira era como ela parecia familiar. Por mais que ele tentasse imaginá-la em algum momento de sua vida, era em vão. Talvez fosse só impressão. Se já a tivesse conhecido antes, COM CERTEZA se lembraria. D. não lhe pareceu alguém fácil de se esquecer.


Ao se enrolar na toalha, Eduardo está um pouco transtornado. Surpreso, talvez essa seja a palavra perfeita.


“Baby I’m a man and maybe I’m a lonely man who’s in the middle of something that he doesn’t understand. Baby, I’m a man and maybe you’re the only woman who could ever help me. Baby, won’t you help me to understand?”


Confuso, Eduardo só consegue pensar que serão longos dias. E não pelos motivos que D. tinha pensando a mesma coisa um pouco mais cedo.

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sexta-feira, 18 de março de 2011

You are so lucky that I'm around - Parte 3'

Dirigindo de volta para casa, D. não consegue lembrar de onde já conhecia Eduardo.



“Talvez de uma palestra? Um meeting de publicitários? Um encontro da própria empresa? Da festa de Natal! Não não... Não fui à festa de Natal. Da faculdade. Ele deve ser da PUC. O MUNDO INTEIRO faz PUC. Provavelmente é da PUC. É. É. Vou perguntar pra ele onde ele estudou e vou descobrir que nós fizemos uma ou duas matérias juntos. É. Com certeza ele é da PUC.”


Um pouco mais aliviada com sua suposta descoberta, D. consegue tirar um peso das costas. Um dos cinquenta mil que costuma carregar. Dias corridos, pouco tempo para descansar. Vinte e seis anos. Quase vinte e sete. E o único pilar que vai realmente bem na vida dela é o profissional. Sendo vice-diretora de criação na empresa, ganha bem o bastante para se permitir trabalhar em outro âmbito por puro hobbie. Jornalismo turístico. D. tem uma coluna numa famosa revista turística e escreve sobre os lugares mais magníficos e os novos hotéis que vão abrir...


Sem nunca ter ido a nenhum deles.


Ela finalmente chega em casa. Estaciona o carro e aperta incessantemente o botão do elevador até que ele chega. D. tem pressa em tirar o sapato bicudo. Ri consigo mesma por um dia ter dito pras amigas da época de colégio que sonhava em trabalhar usando terninho. Há. O que ela não daria por um all star agora.


Abre a porta de casa rapidamente e encara o silêncio. Tenta evitar os pensamentos solitários enquanto joga a bolsa em cima da mesa e acende o interruptor. Agora o vazio a encara, além do silêncio. Aos 26 anos já esperava ter ao menos um namorado que amasse, que eventualmente poderia vir a se tornar um noivo. Ou melhor, um “ajuntado”. Casar pra quê?


Mas aos 26 anos tudo que ela tem é uma carreira maravilhosa. O que, para ela e para muitas, é suficiente. Mas poderia ser melhor se houvesse alguém para compartilhar os momentos de tensão e os de alegria. Sacode a cabeça para espantar os pensamentos do gênero. “Estou parecendo um padre com toda essa coisa do na alegria e na tristeza”.


Ela tira os sapatos com um sorriso de satisfação no rosto. Sacode os dedinhos do pé, gratos por terem parado de ser espremidos. Não é como se ela nunca tivesse tido um namorado. Teve alguns, até. E um ou dois casos de única noite, influencias dos términos de seus romances que nem sempre foram agradáveis. Mesmo assim, D guardava boas recordações de todos eles. Foram especiais na época.


Encara a pilha de trabalho em cima da sua mesa, enquanto liga o computador. Coloca o pen drive dessa missão especial no topo de todos aqueles livros e papeis. Olha o calendário. O prazo para o envio para a revista da matéria sobre St. David’s, a menor cidade da Inglaterra estava se esgotando e ela ainda nem tinha feito a pesquisa, muito menos esboçado um rascunho.


Xinga baixinho em chinês de novo, meio confusa sobre que rumo tomar. Por onde começar o trabalho? Pra onde seguir na vida? When you try your best, but you don’t succeed, when you get what you want but not what you need...


Decide tomar um bom banho para esfriar a cabeça e lavar a alma. Aos 26 anos ela tem mesmo uma carreira maravilhosa. Estressante, mas maravilhosa. Não trocaria o que está fazendo por nada. Assim que coloca o pé dentro do box, a campainha da sua casa toca. Meio pingando e enrolada na toalha, D. sai na ponta dos pés para perguntar quem é.


- Sou eu, amiga!


D. se esconde atrás da porta, mas abre-a com um sorriso.


- O que aconteceu? – pergunta, ao ver o rosto enfurecido da amiga.


- Terminei com o Bernardo. – C. responde, entrando na casa da amiga. – E dessa vez é pra valer.


D. balança a cabeça descrente. Quantas vezes eles já tinham terminado pra valer? Muitas. Mas sorri de novo e pede pra amiga esperar cinco minutos enquanto toma um banho rápido. O trabalho ia ficar pra depois. Talvez houvesse poucas coisas pelas quais ela trocaria seu trabalho maravilhoso sem pestanejar, no fim das contas.


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quinta-feira, 17 de março de 2011

You are so lucky I'm around - Parte 2

- Não, a ideia foi minha. – ele responde com um brilho no olhar, quase como se buscasse aprovação da nova colega.



- Sei. – comenta, com o xingamento engasgado. – Bem, vamos precisar dar uma reorganizada nessa mesa, já que você pretende passar as próximas duas semanas nela.


- Ou menos. – ele fala entre dentes.


D. respira fundo para evitar socá-lo com força. Xinga em chinês mais baixo do que o comentário entre dentes dele. Resolve fingir que não ouviu. O profissionalismo mandando lembranças.


- Então, já abri aqui os documentos do pen drive. – Eduardo comenta ao apontar pra tela do computador. – Vamos ter que nos dividir nessa dupla de criação.


- Como assim dividir? – D. pergunta conectando seu pen drive ao laptop e sentando ao lado do rapaz.


- Sendo uma dupla de criação, temos que nos separar em diretor de arte e redator. – ele explica. – Quer dizer, pelo menos essa é a maneira clássica de fazer isso.


- Que pena que eu não sou muito fã dessas coisas muito conservadoras. – D. responde com um sorrisinho. – Podemos fazer isso juntos, não vejo porque não. Primeiro focamos na redação e depois na arte.


- Obviamente.


- Sim, obviamente! – D. quase grita. Se é tão óbvio porque ele mesmo não falou isso ao invés de apontar uma segregação da dupla? – Podemos tirar hoje para analisar os detalhes do projeto...


Eduardo encara a jovem mulher como se estivesse desesperado. D. parece sentir o olhar queimar na sua pele, pois arrisca olhar de soslaio para confirmar que está sendo encarada. E ela não parece muito feliz.


- O que? – indaga.


- O dia inteiro só para “analisar os detalhes do projeto”? – ele frisa as aspas, evitando encará-la nos olhos.


Sim, é verdade que essa galera de olhos puxados tem olhos muito parecidos, mas os dela tem um charme especial. Um brilho diferente, algum tipo de lembrança...


Especialmente quando ela está zangada.


Talvez isso explique porque ele adorava deixa-la irritada com seus comentários sobre a suposta lerdeza do projeto.


- Qual é o seu problema com a contagem do tempo? – D. responde, cruzando os braços. – Eu gosto de fazer as coisas com calma, para evitar erros.


- Sei. E vida pra quê, né? Se podemos ficar um dia inteiro lendo três páginas do word um milhão de vezes!


- Como se os detalhes do projeto fossem só isso! – ela continua. – Como se não tivesse todo um background da empresa e tudo mais!


- Ah sim, aí já são outros 500. – ele dá de ombros. – Você não acha que a gente devia fazer algum tipo de cronograma? Assim é mais fácil de separamos o tempo.


- Sim! – ela responde com um sorrisinho. – E assim você vai poder ver como os 14 dias vão ser necessários.


- Ou não. – ele volta a encarrar a tela do seu notebook com um sorriso vitorioso no rosto, enquanto observa pela visão periférica sua companheira bufar e olhá-lo descrente, de olhos apertadinhos.


Ele suspira baixinho, surpreso com esse turbilhão de sensações sem nome. There’s something about the look in your eyes. Something I noticed when the light was just right. It remind me twice that I was alive and reminded me that you’re so worth the fight. “Sábio Incubus! Mas o que é isso tudo?”.


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quarta-feira, 16 de março de 2011

Love can cure your problems, you're so lucky I'm around (The Who) - Parte 1




Thousands of people live in this town
And I had to run into him
When I saw him there
On that busy street
Those feelings came back again
There was no where to run
Nowhere to hide
He walked up to me and looked in my eyes...
And Still - Reba McEntire

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- Oi Joana, pediu pra me ver? – D pergunta ao entrar na sala da chefa, meio distraída, pensando em mil coisas.



Qual não é a sua surpresa quando percebe que Joana não está sozinha. Em uma das cadeiras na frente da mesa da diretora publicitária há um homem sentado. D. esgueira-se pra dentro, sem saber se o cumprimenta ou ignora.


“Será que vou ser demitida? Mas meu Deus, o que foi que eu fiz de errado? Será que esse aí é meu substituto?”


- Sim querida! – Joana corta seus pensamento e D. dá um pulo com a resposta afirmativa. Seria demitida? Ela lê mentes? – Sente-se, por favor.


D. ocupa a cadeira vazia ao lado do homem desconhecido. Pergunta-se novamente se deve ou não dizer alguma coisa. Está com aquele vazio no peito, estômago embrulhado e mente ausente. Alguma coisa está errada.


- Er, bom dia? – arrisca dizer para o rapaz.


Ele finalmente vira-se para encará-la e responde “bom dia” com um sorriso encantador no rosto.


Sorriso esse que congela o sangue de D. nas suas veias. Estranhamente conhecido. Doce mas com um fundo de marotice. Como se soubesse que sorrir daquele jeito a deixaria de joelhos meio fracos. Por sorte já está sentada.


- Gostaria de apresenta-los oficialmente. – Joana diz aos dois, com um grande sorriso nada doce no rosto. – D., esse é o Eduardo.


D. olha na direção dele de novo. Eduardo. Juntando o nome ao sorriso as pernas começam a ficar ainda menos firmes e a certeza de que ele não é um desconhecido aumenta. De onde, meu bom Deus?


- O Eduardo veio transferido da nossa outra filial para esse projeto específico e eu preciso que vocês dois trabalhem juntos. – Joana continua, arrumando sua mesa como se tivesse TOC. – Você sabe D, querida, esse projeto é realmente grande, muito importante, preciso ter certeza de que tudo vai dar certo e no prazo perfeito. Por isso achei que você precisava de ajuda. Não dá pra fazer um projeto dessa magnitude sozinha em... Duas semanas.


D. sente uma pontada no estomago, típica do estresse. DUAS SEMANAS? DUAS FUCKING SEMANAS? No que Joana está pensando? Antes que ela possa indaga-la sobre sua sanidade mental, Eduardo comenta:


- Não acha que é tempo demais?


A pontada aumenta enquanto ela olha chocada na direção dele.


TEMPO DEMAIS?


- Ah é, claro! – ela não consegue se conter. – Por que não buscamos fazer em tempo recorde e entrar no guiness book também?


É a vez dele lançar um olhar chocado na direção dela. Gagueja um pouco antes de começar a se defender.


- Eu só quis dizer que se a gente se esforçar e fazer um trabalho bom dá pra terminar antes para que possamos fazer uma análise mais demorada e corrigir possíveis erros e imprevistos. Como Joana disse, é um trabalho muito importante e eu espero que você esteja levando-o tão a sério quanto eu estou.


O QUE? POR ACASO ELE A HAVIA CHAMADO DE POUCO ESFORÇADA? DE RELAXADA?


“Que abuso! Serão duas longas semanas!” pensa D, enquanto revira os olhos para o novo colega de trabalho. Infelizmente.


- Justamente por estar levando a sério que acho que não é tempo demais e você vai ver isso. – responde ela, confiante.


- Certo. – Joana interfere ao ver que a conversa não terminará tão cedo se não fizer isso. – Aqui estão os pen drives com os arquivos principais. O prazo é de duas semanas contando de hoje e eu preciso saber de todos os passos de vocês. Mandem-me quantos e-mails forem precisos. Todos os outros projetos de vocês estão suspensos por enquanto. Alguma dúvida?


Os dois negam com a cabeça, pegando os pen drives da mão da chefa. Seus dedos se tocam por um momento e D. segura o ímpeto de recolher a mão como se tivesse levado um choque. Não queria tocar no colega de trabalho que a deixava de pernas bambas. Precisava se focar no projeto especial e não em como ele parecia estranhamente familiar.


- Tudo bem então, podem ir. – Joana os libera. – Quer dizer, D., fique mais um segundo por favor.


Eduardo levanta-se da cadeira, aperta a mão de Joana e agradece mais uma vez pela “confiança e oportunidade”. Depois estende a mão pra D. com um sorriso torto no rosto.


- Espero que façamos uma boa dupla.


Ela estende a mão de volta, com um sorriso escapando pelo canto dos lábios. As mãos dos dois se fecham num aperto de mão quente e estranho ainda que agradável.


- Eu também. – responde ela, puxando a mão de volta.


Ele se retira da sala e D. volta a se sentar de frente pra chefa.


- Só gostaria de esclarecer algumas coisas. – Joana aponta. – Primeiro: eu confio plenamente no seu potencial ou não teria te feito vice-diretora da sua área. Só chamei Eduardo porque eu realmente acho que esse projeto em especial tem um tempo muito curto para ser realizado por só uma pessoa. Não quero que você diga isso pra ele, mas você ainda é a líder. Ok? Ok. Segundo: não deixe ele te estressar como estava fazendo há poucos segundos aqui dentro. Ele é ótimo, também é vice-diretor da área na nossa outra filial, mas pode ser um pouco teimoso e cabeça dura. Sobre tudo. Espero que vocês dois convivam muito pacificamente, mas se não for o caso, espero que seu profissionalismo não permita que o projeto afunde por causa disso. E terceiro... Bem, não tem terceiro. Vai trabalhar querida!


D. ri da chefa antes de agradecer e sair da sala. Rodando o pen drive entre os dedos, caminha de volta para sua sala remoendo as palavras de Joana. “Pode ser um pouco teimoso e cabeça dura, né? Sei. Acontece que eu também sei ser teimosa se quiser. Ele que não tente me encher o sac-”


D. não consegue terminar o raciocínio. Tem um grito preso na garganta, pois ao virar na porta da sua sala dá de cara com Eduardo sentado em uma cadeira ao lado da dela, vazia. A mesa enorme onde ela trabalha está toda organizada de forma diferente e na frente dele há mais um laptop.


- Então, gostou? – ele ri para ela. – Organizei um pouco as coisas para nós dois cabermos bem aqui e fazermos brainstorming e tudo mais juntos.


SE ELA HAVIA GOSTADO? BRAINSTORMING? TUDO MAIS? O QUE SERIA TUDO MAIS? AI MEU JESUS.


- Você foi bem ligeiro, hein? – ela responde, tentando não transparecer sua fúria. – Não sabia que nós íamos dividir minha sala. Joana falou isso pra você?


“Por que aquela filha da mãe não me avisou nada? Cabeça dura, né? Ela podia ter me avisado que ele era espaçoso e invasor de privacidade também!”


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quinta-feira, 10 de março de 2011

EPÍLOGO

Dois anos depois.


-Cadê a R? Nós vamos entrar daqui a pouco! - D estava um pouco ansiosa.

-Ela foi buscar o buquê que a Nina esqueceu no carro calma. - C ajeitava a barra do vestido.

-Ai, gente, vamos entrar sem buquê mesmo! - Nina mexia as mãos demostrando nervosismo.

-Pronto. - R aparece trazendo o ramalhete.

-Que bonitinho, vou ser daminha de honra, gente! - C dava pulinhos.

-Somos madrinhas!! - R falou enquanto apontava para D e fingiu que se importava muito com isso.

-Chata.

-Shhiu, tá na hora! - D se posicionou ao lado de Adam, que esperava para entrar junto já dentro da Igreja. R seguiu D e deu o braço para John, logo atrás. Bernardo deu um beijinho de boa sorte em C (ele havia se recusado a entrar de pajem com a namorada) e voltou para seu lugar nos bancos da frente.

Mathew estava parado no altar, se balançando um pouco para diminuir a tensão. Quando a música começou a tocar ele se enrijeceu, mas conseguiu estampar um sorriso radiante. Nina também relaxou, ela olhava para as amigas posicionadas no altar, todas dando apoio moral. A Igreja não estava cheia, era um cerimônia pequena só para a parte mais chegada da família e os amigos íntimos. Tudo foi como a tradição pedia.


**
1 mês depois

Todas estavam reunidas em casa de novo. Era possível continuar chamando de casa aquele endereço?

-Nina, o que você quer levar da sala? - C estava embrulhando todos os enfeites com plástico bolha.

-Gente, sinceramente, não quero nada. Olha quanta caixa ainda pra abrir! - ela apontava para o grande acumulado de presentes no canto esquerdo da sala.

-Pelo menos os nossos você já abriu... - D falou distraída, também tirando coisas do armário e colocando numa caixa própria.

-Gente, eu não acredito que estamos deixando isso aqui. - C deixou os braços caírem pelas laterais- Afinal, foi por causa DISSO que encontramos nossos namorados, opa, e maridos.

-Eu sempre esperei que Nina fosse ser a primeira a casar, mas no fundo eu sempre soube que R ia realizar o seu sonho de casar na praia, era mais forte do que ela. - D riu.

-Já estão falando de mim, não é? Vocês me amam!- R se joga no sofá.

-Lembra que todas nós corremos pra Miami pra poder chegar a cerimônia? - D puxava pela memória.

-Nem me fale! Saí correndo da Itália! Eu ia te matar se eu não visse seu casamento, R. - C dá um leve tapa na cabeça da amiga.

-Ai gente, tudo foi muito de repente. John veio com a proposta e o lugar. Cabia a mim dizer 'sim'. Aliás, eu nem sei se isso vai dar certo mesmo.

-É claro que vai! - Nina exclama. - Você está proibida de ter crises bipolares em relação ao seu casamento. Deixa do jeito que está!

-Por falar em deixar do jeito que está, gente, Bernardo está me pressionando.- C faz cara de desespero - Ele cismou que já tá na hora de constituir uma família e que a nonna está enchendo o saco dele para que nós dois nos casemos. Aliás, ela também não gosta da sua ideia não, D. Não pense em se safar.

-Ai, que saco. Estamos praticamente casados. Morar junto é casar. Isso vira oficial daqui a alguns anos e ela não tem o que reclamar. - D arremessa um embrulho para a parte do lixo.

-É, só que não é você que ouve o mesmo discurso todo santo Domingo, inclusive das amigas dela da igreja. Passe 6 meses inteiros na Itália conosco e quero ver se você aguenta tanto quanto eu. - C ficara emburrada.

-Então casa, ué!

-Ah, não... Se casar estraga. Nada contra, meninas – C olha para Nina e R.

-Gente, mudando de assunto: alguém tem espaço na garagem sobrando onde eu possa colocar meus carros, pelo menos 4 deles? - R analisava as chaves penduradas no pendurador perto da entrada de serviço.

-A não ser que você queria deixar alguns na Itália e pagar o translado, fique a vontade. Mas só cabe dois.

-Cabe outro lá em casa. - D falou – Mas eu queria passe livre pra usar, posso?

-Pensarei no seu caso, D – R responde – E não é uma má ideia, C.

-Bem, eu não tenho garagem. - Nina começa – Nossa cobertura fica em cima do restaurante, sem espaço para estacionamento. O nosso carro fica na vaga da frente.

A porta da frente é aberta. Adam, Bernardo, John e Matt entram.

-Acabaram de pegar as respectivas caixas? - C pergunta.

-Tudo certo. - responde Bernardo.




-Acho melhor todos nós irmos logo, não quero ninguém atrasado pra inauguração do NOSSO restaurante, não é amor? - Matt abraça Nina.

-Ai droga, não sei o que vestir! - R cochicha para D e C.

-Posso ir de All-star? Sem chance de eu colocar um salto hoje – C praticamente suplicava.

Assim que C fez seu comentário, D passou a observar os pés. Adam notou que a namorada olhava para baixo:

-Algum problema, D?

-Na verdade, não é um problema. - ela agora encarava os olhos azuis de Adam – Você já reparou em uma coisa engraçada hoje?

D voltou a olhar para os pés, Adam a seguiu.

-Todas vocês estão com um All-Star?

-Isso chega a ser irônico. Deveríamos ser sedutoras sobre um salto alto, que além de impor elegância também é uma ótima arma.

-Sim, ótima arma (eu que o diga). Mas eu não acho que vocês sejam mais sedutoras com eles. Realmente, demonstram elegância, mas os tênis mostram a personalidades de vocês. Não é porque vocês são super espiãs que vocês vivem esse universo o tempo todo.

-Assim como você saber dançar muito bem e eu não julgar.

-Você adora a história de quando eu me infiltrei numa escola de dança – Adam revira os olhos.

-Adoro mesmo, me deu a chance de ter um exímio dançarino para me fazer rodopiar no salão! - D desfaz a cara feia de Adam com um beijinho.

-Vamos, D e Adam! Deixem para namorar depois, casal! - Bernardo chama.

C, Nina, R e D pararam na porta. Elas olharam para seus pequenos pingentes em forma de chave. Trancaram a porta e seguiram seus caminhos.

FIM.

A Missão - Parte 15

**
Nina e R estavam estateladas em seus respectivos bancos, elas não estava usando nenhum acessório que lhes fosse útil naquele momento. D estava na última curva do círculo. Forçando mais um pouco, o vidro sairia com facilidade. Uma nova movimentação no portão fez com que ela interrompesse sua tentativa de liberdade. Bernardo e C foram postos em redomas, dessa vez ao lado de D. Aquele vigilante metido olhava mais uma vez com o nariz em pé, provavelmente pensando que todos ali eram um bando de amadores. Ao deixar o recinto, as luzes se apagaram novamente. 5 minutos depois, um grande crack pegou todos de surpresa. D finalmente tinha terminado o buraco, agora ela precisava agir rapidamente, antes que o barulho alarmasse os guardas do lado de fora. Ops, tarde demais. Jeffrey entrava na sala, as luzes estavam se religando ainda quando um segundo vulto acompanhava o ex-chefe grisalho do mal. D se escondia por trás do computador que controlava os cadeados das “celas”.

-Ora, D sabemos que você ainda está aqui. Mais uma vez, você esquece que quem as criou está exatamente aqui e que não é nenhum idiota. Por favor, todos vimos seus movimentos... Inclusive, acho que você demorou até demais. Então, por que você não sai quietinha aí de trás antes que alguém a machuque. Sabe, duas adagas não são necessariamente ameaçadoras em uma grande distância, página 105, capítulo 5 do livro “Potencializando suas armas”.

-Vamos, D. É melhor pra você acredite... - Adam falava com a cabeça baixa e o que era apenas um vulto tomou as formas claras do rapaz.

D estava chocada. Ela havia afastado os pensamentos da hora que tinha sido sequestrada porque se importava mais em como ela sairia daquele vidro abafado, mas puxando pela memória, Adam não tinha feito nada para impedir que ela fosse levada. Porém, ela sempre imaginou que ele também tinha sido pego. Engano? A questão da traição não ia ser discutida nem ali nem naquele momento, antes de mais nada, ela tinha que libertar todo mundo e acabar com o plano de Jeffrey – sendo ele qual fosse. D estava sentada e se abraçou contra as pernas, quase em posição fetal, isso lhe ajudaria a pensar. Foi contraindo as pernas contra o peito que ela sentiu um grande caroço na perna: era aquela pequena arma que D havia comprado com I naquela semana, ela tinha se esquecido completamente que estava com aquele acessório preso a perna. Poderia ter simplificado as coisas... Agora, ela tinha um plano.

D rasgou a calça para retirar a arma e se levantou abruptamente, apertando todos os botões que suas mãos alcançavam. Os comandos imprecisos fizeram com que o controlador da porta ficasse louco, um curto circuito finalizou com a máquina e as cúpulas foram abertas. Nina, R, C e Bernardo saíram e pararam em posição de combate. Homens de preto entravam aos montes pela mesma porta de onde surgiram Jeffrey e Adam e começaram a atacar. A luta entre bons e maus estavam intensa. Chutes, socos, desvios. Chutes, socos, desvios. Se não fossem alguns caídos no chão inconscientes, poderia se dizer que tudo parecia uma coreografia. A grande fumaça que tornava o ambiente turvo serviu como um disfarce para Jeffrey que corria para a saída de emergência. Ninguém o viu, exceto D e Adam, que o seguiram imediatamente. Eles caíram numa escadaria em forma de caracol que os levavam mais fundo no solo. Quando D percebeu quem a estava seguindo ela gritou:

-Pode me explicar o que você está fazendo aqui? Se veio me impedir, acho que não está conseguindo – ela estava a, no mínimo, 10 degraus a frente dele.

-Eu estava fingindo participar do joguinho dele. Já te falei, não quero te matar...

-Então, por que não impediu que eu fosse levada? Por que não lutou?! - D estava ficando sem fôlego, mas precisava perguntar essas coisas.

-Ah, caso você não se lembre, você tentou lutar e não adiantou. Veio presa do mesmo jeito.

-Covarde.

-Ah tá, porque pular de um prédio por uma janela ínfima do banheiro enquanto seu apartamento estava em chamas é um ato de alguém sem coragem.

D parou e se virou. Adam estava no embalo e não conseguiu frear a tempo, os dois se chocaram. A menina estava cansada de analisar a situação racionalmente, seu sexto sentido dizia que Adam falava a verdade e ela escutou, se jogou no pescoço dele e lhe deu um beijo, não longo, apenas intenso, assim como tudo aquilo que eles estavam passando naqueles dias.

-Vamos atrás desse idiota e você pode acabar com ele – disse Adam, com um leve sorriso nos lábios. D derreteu - se aquilo fosse possível naquela hora.

Juntos eles terminaram as escadas e juntos passaram pelo grande portão de ferro do final do corredor. Jeffrey estava no galpão, em frente a um pedestal, colocando cuidadosamente um embrulho dentro de uma maleta coberta de proteção. D e Adam miravam sua arma para ele:

-Quem está encurralado agora?

-Você é tão ingênua... Isso pra não dizer idiota.

Adam estava pronto para apertar o gatilho quando Jeffrey se pronunciou:

-Garoto, você também é tão idiota quanto ela. ESSA é a bomba de que eu te falei. - ele indica com a cabeça a maleta, agora fechada. - Eu não estava blefando naquele dia.

-Que bomba? - D estava confusa.

-Essa é uma nova bomba atômica, querida. - Jeffrey parecia muito mais tranquilo, a ponto de cantarolar suas palavras – Só que 10 vezes mais poderosa, capaz de erradicar continentes.

-Pensei que isso era uma desculpa. - Adam começou a falar – Se era só a bomba que você queria (e não estou dizendo que isso também não é grande), o que você queria com as meninas? Pra quê sequestrá-las?

-Adam, Adam, Adam... Realmente você está passando tempo demais com ela. - Jeffrey tinha uma feição demoníaca. - Elas, literalmente, eram a chave desse caixa.

D colocou a mão no peito e exclamou:

-Nossas medalhas!

-Olha, até que você subiu mais dois pontos no meu conceito... -Jeffrey ri.

-Eu não acredito que nossas medalhas em forma de chave eram, REALMENTE, chaves. Essa EDM sofre de falta de imaginação.

-Cada uma de vocês tinham uma parte da chave. Pegar qualquer uma de vocês foi a parte mais fácil...

-Assim você chamava a atenção das outras, já que dificilmente nos separamos e você ainda aproveitava para roubar as chaves!

-Dois coelhos com uma cajadada só. - Adam acompanhava perfeitamente a linha de pensamento de D.

-Palmas para vocês! Querem uma medalha? - mais uma rodada de risadas maléficas e sarcasmo – Bem, agora se me dão licença...

-Onde você pensa que vai? - Adam interrompe.

-Pensei que já tivéssemos passado dessa fase – Jeff revira os olhos – Se por um acaso, vocês atirarem em mim, eu explodo essa maleta. Acho que você não tem outra saída a não ser me deixarem sair daqui.

Ele se vira e vai em direção ao jatinho estacionado no final do galpão. D atira contra o pequeno avião, o tiro acerta exatamente o para-brisa na direção do piloto. Os três voltam a se encarar. D atira mais uma vez contra o jatinho, dessa vez na hélice lateral.

-Você sabe que se eu atirar de novo ali, sua hélice vai ter perda total e você não terá como fugir? - o vilão parecia acoado, olhava para todos os lados em busca de saída. - Então, me conta, por que você virou o cara do mal, Jeff? Por que roubar a bomba, por que meter o Bernardo numa fria?

-Sério mesmo que você quer saber? Faz alguma diferença agora? - Jeffrey estava incrédulo, Adam um pouco confuso.

-Tudo bem... - ele andava lentamente para trás – Eu cansei de criar super espiões superdotados. O mundo não precisa mais disso. Além do mais, não tem o mesmo prazer que tinha antes...

-Depressão? - Adam estava espantando.

-Mais do que isso meu caro, apesar de ter um certo conforto, nada recompensava as horas gastas treinando gente pra um serviço que a meu ver está fora do eixo há muito tempo. O que motivavam as pessoas a terem um serviço secreto? Os jogos políticos, claro. Mas hoje, me conte D, o que vocês fazem especificamente?

-Nós acabamos com vilõezinhos de meia pataca que querem conquistar o mundo por motivos fúteis, assim como você. - ela solta um sorrisinho simpático.

-Minha querida D, política não é fútil. Negociar com o lado certo é estar apenas salvando a pele. O mundo deu voltas, o ramo da espionagem também, estou só me adaptando ao meio. Darwin empregou muito bem suas palavras.

-Isso não é evolução Jeff, é um retrocesso.

-Quanto ao primo do seu fidanzato, foi tão fácil usá-lo como bode expiatório. Os mafiosos estão interessados nesse belo pacote. E não sou eu que vou dar calote neles.

Jeffrey havia imposto uma boa distância durante a conversa. Com as últimas palavras de D, ele passou a correr descontroladamente. Contudo, uma pequena rateira fez ele cair com a cara no chão e a maleta voar pelos ares. Cuidadosamente, Nina segura a bomba quando ela estava caindo de sua parábola.

-R, eu quis dizer que era pra você ser sutil!- C reclama.

-Desculpe, não estava afim de amenizar pro lado desse cara. - R imobilizava Jeff, que se debatia por debaixo da menina.

-Isso é por ter dado tantos cabelos brancos para nossas lindas cabecinhas – C se abaixou e deu um belo soco na cara de Jeff.

-Isso foi por ter me metido em tantas encrencas – R dá um chute na costela do moribundo jogado no chão.

-Isso foi por ter me feito perder um encont... digo, horas sentada na frente do computador pra nada – Nina também deu outro chute.

-Bode expiatório? - Bernardo deu dois de esquerda e um de direita diretamente na cara, Jeff desmaia.

-Logo agora que estava na minha vez?

D se aproxima e estava praticamente dando outro chute, quando C a interrompe:

-Vamos esperar ele acordar e daremos o mesmo tratamento refinado que ele nos fez passar.



Jeffrey acordou na redoma de vidro. Todos estavam ansiosos para esse momento.

-Jeff, querido. Isso vai ser por você ter chamado a mim e as minhas amigas de idiotas tantas vezes - Choque número 1 e estava apenas começando – Isso por você ter me feito bater pra valer em Adam. Isso por você ter tentado destruir o mundo. Isso pela dor que você causou a elas nessa mesma prisão de vidro e isso por você ter nos unido mais ainda e ter nos feito a melhor equipe de espionagem da EDM.

R manda um beijinho pra ele.

-Ah, pegamos nossas medalhas de volta. Agora elas têm mais uma recompensa como significado. - Nina mostra sua pequena chave dourada balançando em seu pescoço.

**

A campainha toca. Nina corre para atender. Adam está na porta, vestido elegantemente com uma caixa de chocolate na mão:

-Ah, é você.

-Oi, Nina. D já está pronta?

-Ela acabou de entrar no banho, voltou da academia agora.

-Então, eu vou esperar por aqui mesmo, se importa?

-Imagina. Na verdade, eu já estou de saída.

-Encontro com o cara do restaurante?

-Não é da sua conta. - Nina faz uma careta e sai, não sem antes dar um aviso – Juízo vocês dois.

Adam se senta no sofá e larga a caixa em cima da mesa de centro. Ele decide subir. Passa pelas escadas sem fazer barulho e continua seu caminho até o quarto de D. Ele entra e pára na porta do banheiro, que estava com uma pequena fresta por onde saía o vapor. Ele dá 3 batidinhas leves.

-Nina? Já estou acabando. Algo errado?

D desliga o chuveiro, pega a toalha e se enrola para, em seguida, abrir a porta do box. Adam entra.

-AAAAHH!.- D volta para dentro – Adam, você tem probleminhas?

-Estava cansado de esperar lá embaixo.

-Há quanto tempo você chegou?

-Há dois minutos.

-Adam, você pode, por favor, sair para eu poder terminar de me arrumar?

-Não sei porque você quer que eu saia, eu sei perfeitamente o que tem aí. - D esguicha água com o chuveirinho. Adam ficara encharcado na cabeça – Agora eu tenho mais certeza de que não quero sair. Pra que um primeiro encontro formal?

Adam foi para cima de D, segurando seu rosto, às vezes deslizando a mão pelos fios de cabelo molhado. Um atraso de meia hora não faria mal a ninguém.

**

Nina estava parada na porta do Le Restaurant. Seria loucura levar isso a diante? Besteria, afinal, aquelas eram as férias em que não era permitido se prender novamente. Todas fizeram isso, por que não continuar? Diga-se de passagem, todas gostaram - e muito - de seguir os instintos e não o que o velho treinamento pregava.

Mathew abre a porta principal e parecia estar de saída, ele pára quando vê a moça parada logo em frente.

-Hm, oi Nina.

-Olá, Matt.

-O que faz por aqui? Dando uma voltinha?

-Não... - “vai lá, Nina, continue”, pensou – Vim ver você.

-Pensei que você estivesse desistido – ele foi direto ao ponto.

-Eu te disse naquele dia, eram coisas mais sérias, que precisavam ser resolvidas. Urgentes.

-O que era?

-Me deixe ajudar na sua cozinha. Quem sabe eu te conto? – pura mentira, ela não poderia contar a verdade, mas era uma boa desculpa.

Matt passou uns segundos pensando. Virou-se para a porta, destrancando-a, e fez um sinal para que Nina entrasse:

-Depois de você...

A cozinha estava impecável. Tudo bonito e organizado.

-Tem certeza que aqui é uma cozinha de restaurante? - Nina brincou.

-Ainda não estamos na hora dos preparos.

-Hum, olha, acho que você não está muito afim de uma conversa. Então, acho que eu volto outro dia, de novo. - Nina sentia que Matt estava meio distante.

-Nina, espera. - ele se põe em sua frente. - São problemas aqui. Minha cabeça estava longe, aí você apareceu. Isso é bom, você pode me ajudar a esquecer um pouco das coisas.

-Que tipo de problemas? Quem sabe eu possa ajudar?

-Parece que o dono não está gostando muito do cardápio.

Nina volta ao salão principal e pega o Menu na pilha amontoada em cima do balcão de drinks. Após analise ela diz sua sentença:

-Não vejo problema com esses pratos.

-Ele acha que ou são muito sofisticados e as pessoas não conhecem, ou são comuns demais e que todos já estão cansados de pedir.

-Ou são caros demais, ou baratos e extremamente comuns...

-Essas são as entrelinhas.

-Posso usar a cozinha? - Nina repentinamente muda o assunto.

-Claro. Mas o que você tem em mente?

-Conhecimento de família.

Nina pôs o avental e ignorou o uso do chapéu. Ela apenas abria a boca para perguntar aonde os ingredientes necessários estavam. Matt já tinha desistido de fazê-la falar alguma coisa – suas brincadeiras não sortiram tanto efeito, além das risadas habituais- e fazia um bom papel de ajudante. Depois de 20 minutos, o prato estava pronto.

-Prove. - ordenou Nina.



Matt viu o processo de criação e estava com o pé atrás. Era uma mistura exótica que ele não se atreveria a fazer e duvidava de que estivesse com um gosto bom. Contudo, não ia deixar Nina na mão, ela se esforçara tanto para ajudar. Uma garfada, por pior que fosse, não ia matar ninguém. E, então, ele provou. Veio a primeira, seguida da segunda e as outras diversas garfadas que fizeram com que o conteúdo do prato sumisse. Ele olhava incrédulo para a menina que se mantivera calada e observava o deleite do rapaz.

-Como? Eu vi o preparo. Os ingrediente! Eu nunca teria imaginado que ia ter um resultado tão...

-Diferente?

-Delicioso.

Ela sorri e prepara-se para a despedida:

-Bom, adorei a tarde na cozinha de um restaurante, mas está na hora de ir. Daqui a pouco os outros funcionários vão chegar e eu não quero atrapalhar.

Matt beija Nina de surpresa. Os dois caem em cima de uma pilha de panelas limpas, derrubando-as todas no chão.

-Opa. - ele lança um sorrisinho sem o menor resquício de culpa.

-Matt, se alguém chegar? - Nina estava entre o moral e a loucura.

-O restaurante está fechado temporariamente. Motivo: Chefe ocupado com outras coisas mais importantes.

-MATT!!

-Nina, não tem nada demais. O restaurante não vai abrir hoje. O dono veio aqui e dispensou todo mundo hoje de manhã. Você me encontrou na hora da saída.

-Você não vai me deixar ir, não é?

-Não mais.

**
-Perdemos a reserva do almoço, não é? - D encarava Adam. Ela estava de pé e ele ainda deitado.

-Que horas são? - ele procura o relógio – Com certeza. D, pra que se preocupar? Era pra ser nosso “primeiro encontro oficial”. Não precisamos disso!

-Bom, foi difícil fazer você aceitar essa ideia, não vou me dar ao trabalho de tentar convencê-lo.

O celular de D toca, interrompendo a pequena discussão. Ela olha o número e atende contente:

-Ciao, stampa!

-Oii, D!

-Então, como estão as coisas? Me diga que Bernardo está se comportando.

-Não e nem quero que ele se comporte.

-Ai, C, não quero detalhes, me poupe, por favor. Como estão as coisas na EDM daí, senhora Diretora-executiva para assuntos internacionais?

-Pois é, nome grande né? Mas estou adorando.

-Quem eles nomearam para presidente? Me diga que é quem eu estou pensando.

-Se você já sabe, pra que quer que eu conte? Brincadeira. May aceitou com muito gosto. Ela vai dar um tempo na parte “normal” da vida dela. Parece que ela contou tudo para o Leonardo e tiveram uma pequena briguinha.

-Nossa. Mas tem muito tempo que eles estão separados?

-Quem falou em separação? Eles descobriram o que é bom para fazer as pazes, if you know what I mean.

-E como vai nosso prisioneiro número 1?

-Jeff está muito bem trancafiado. Agora que a May tomou as direções por aqui e a Ju controla muito bem as coisa por aí, duvido que ele consiga uma pena menor do que todos esses 40 anos de detenção. Bernardo está muito feliz que voltou a integrar a equipe e vai ajudar a treinar os novos agentes.

-Ah, quem sabe eu e ele não trocamos alguns métodos de ensino. Vou ajudar por aqui também enquanto não arranjam um substituto. Até lá, meio período lecionando. Deus, me ajude!

-Você vai se sair bem, é só não atirar no aluno mala. Mudando de assunto: como estão Nina e R?

-Nina saiu em busca do encontro perdido. E R, bem, ela ainda não voltou, mas o último postal dela, enviado há uma semana, era de algum lugar no Pacífico – não lembro agora onde exatamente. Ela e John estão se divertindo.

-Ai, R saindo sem dar notícias isso não é legal.

-Ela já é bem grandinha. Espero que John fique bem com a bipolaridade do relacionamento. Mas já avisei a ela: nada de querer terminar tudo enquanto estiver num lugar completamente sem civilização e em alto-mar.

-John é paciente. D, preciso ir. Problemas demais para resolver por aqui. Socorro, as pessoas aqui parecem que não sabem fazer as coisas sozinhas, vivem me pedindo conselhos!

-Ciao. Buona fortuna.

-Seu italiano está ficando cada vez melhor, parabéns! Ah, Bernardo está mandando um 'oi' para o cugino e la sua ragazza. Enfim, ciao.

D desliga o telefone e volta para cama. Adam, mesmo sonolento, estica os braços para manter D por perto. Enquanto ele dormia, ela montava uma pequena retrospectiva do que haviam sido aquelas férias. Era uma coisa estranha, antes todas estava unidas apesar do trabalho, se encontravam todos os dias e estavam sempre presentes fisicamente a qualquer momento. Cada uma tomou um rumo na vida, estavam em partes diferentes, conquistando seus sonhos. Não, elas não estavam separadas. A distância geográfica – no caso de C e R - não impedia que uma estivesse em contato com a outra. Sempre era bom um encontro de vez em quando e isso não impedia a amizade de continuar. Era só um grande intervalo até que a próxima missão as chamasse. Era questão de tempo.

quarta-feira, 9 de março de 2011

A Missão - Parte 14

**
-Sabe, estou cansando dessa coisa toda. Não podemos parar por uns minutinhos? - Bernardo estava se encostando na parede e bocejava para C que olhou com cara feia – Até parece que você também não está cansada, depois de nossa noite regada a vinho...

-Bernardo, pare de ser escroto! É a minha amiga que está em perigo e se bem entendi, você também tem uma parcela de culpa nisso tudo. Não é hora para fazermos uma paradinha com segundas intenções!

-Eu não tinha segundas nem terceiras intenções que não fossem relacionadas a um pequeno cochilo. Você que está com... - ele claramente estava reconstruindo o final da frase – muitas ideias na cabeça.

C se aproximou lentamente do rapaz e lhe deu um bom cascudo. “Discutimos depois”, ela seguiu a trilha da tubulação, porém ela foi obrigada a parar meio metro a frente.

-Está revendo seus conceitos? - Bernardo era irônico.

-Shhhiu! Cala a boca! - C cochichou e sinalizou com a mão a abertura a poucos centímetros de seus joelhos. Era possível ouvir alguns resmungos vindos do ambiente escuro, xingamentos saídos de vozes muito conhecidas. Um barulho de alguém sendo caindo e sendo arremessada pra longe seguido por uma interjeição de dor.

-Você está bem? - R perguntou ao leu, já que não fazia ideia de onde se encontrava Nina.

-Agora vou ter um roxo, obrigada Jeffrey! - ela esfregava as costas doloridas.

-Fiquem quietas, suas fofoqueiras, ou vamos deixar as coisas mais “elétricas” pra vocês – um dos capangas aproveitava seus 15 segundos de superioridade, fazendo piadinhas inclusive.

-O que você quis diz....?

Nina e R são atacadas por uma descarga elétrica. Uma das fortes, proveniente de todas as direções possíveis. Ela gritaram no primeiro momento, mas logo se forçaram a ficarem caladas, não daria o gostinho de poder que esse cara queria. Quando o choque acabou, os capangas marcharam calmamente para fora do recinto, luzes fracas pelo chão se acenderam.

-Nina! R! Vocês estão bem?

Se elas conseguissem enxergar uma a outra com certeza teriam a confirmação das suspeitas de seus pensamentos mútuos, mas para pessoas com tanto tempo de convivência, às vezes nem essa troca de olhares era necessária. Exclamaram ao mesmo tempo:

- D!!!

-Ai meu deus, meninas, vocês estão bem? O que fizeram com vocês ainda pouco??

-Foi só um choque – respondia Nina – de leve, não foi nada. Mas e você o que fizeram com você?

-Vocês não vão acreditar...

-Se você vier nos contar que foi o Jeffrey que armou tudo isso... Bem, notícia velha, queri. -R falava tentando manter o tom de aparente tranquilidade.

-Ai, eu não devia ter ficado calada enquanto vocês sofriam. Eu queria ter a certeza que eram vocês e que meus movimentos não despertariam a atenção do vigia. Mesmo assim, não devia ter deixado você sofrerem sozinhas.... - D estava com muito remorso.

-Não D, pelo o que eu entendi, você tem um outro plano em prática, não valia a pena ter posto tudo a perder por um choquezinho... - R tentava tranquilizar a amiga, mas era difícil acreditar quando suas palavras ainda saíam ofegantes.

-Conte-nos, o que você tem em mente? – Nina se aproximava da borda de sua redoma, ela havia ficado imediatamente ao lado de D.

-Vou mostrar...

D tirou mais uma vez seus sapatos e fez com que as adagas ficassem amostra, ela empurrou o banco, tirando-o do caminho e aprofundo o buraco que formava praticamente um círculo perfeito.

Nina e R pareciam radiantes com a ideia de D em fazer uma saída de emergência. Nessa hora C, tentou se comunicar com as amigas, as quais ainda observava de cima:

-Isso deve ter um certo trabalho, não é?

-C! – gritaram as 3.

-Quietas aí matraqueiras, se eu ouvir mais um pio eu dou outro presentinho pra vocês. – o mesmo vigia que continuava a se sentir o Poderoso Chefão berrava do lado de fora.

Elas reviraram os olhos. Sem fazer muito barulho, D voltou para sua tentativa de fuga. C se comunicava por código Morse com Nina, elas trocavam informações de como C e Bernardo poderiam entrar e ajudar no resgate. Nessa hora, o rapaz interveio e mostrou o seu ponto de vista, ainda usando o código, ele acreditava que se elas haviam falhado na missão de hackear os computadores, seria justo eles tentarem. Além do mais, D parecia estar se virando muito bem desde que estivera presa, e logo logo as três estariam fora das bolas de vidro. Após um breve momento de reflexão, elas concordaram com o ponto de vista de Bernardo.

Mas isso fazia com que o casal voltasse à estaca zero, não tinham a menor ideia de onde encontrar o grande computador. C continuava por seu caminho, quando ouviu um pequeno silvo de Bernardo, ele indica outro respirador que se localizava a uma distância ínfima em relação ao outro em que eles conversavam com as meninas. Bernardo estava tranquilo e fazia sua cara especial de sabe-tudo. C se aproximou e se esforçava para ver o que tinha naquela sala, diversas luzezinhas piscavam incessantemente, definitivamente, tratava-se de um grande computador.

-Como entrar, então? – C analisava.

-Vamos por aqui mesmo, procurar a entrada principal é pura perda de tempo. – Bernardo já desaparafusava o buraco do respirador, antes mesmo que C concordasse.

-Ah, como se fizesse diferença se eu tivesse dado outra ideia.

Bernardo e C desceram por uma corda até a metade do caminho, quando perceberam os raios lasers que protegiam o computador gigante.

-E agora, gênio que não queria a entrada principal? - C estava claramente irritada.

Bernardo já ia responder na mesma moeda a pergunta sarcástica, mas sente sua mão escorregando. Um fio de óleo escorre do buraco por onde eles entraram. Armadilha número 2.

-C, sem querer te preocupar, mas acho que temos problemas...

-Que tipo de prob....- nessa hora Bernardo se soltou completamente da corda, indo em direção ao chão e esbarrando em todos os alarmes luminosos possíveis.

C não conseguiria subir de volta, nem abandonaria Bernardo. A dúvida de C não durou muito, em menos de 3 segundos, eles estavam cercados por mais homens de preto e postos em redomas de vidro na mesma sala de detenção que as outras meninas. A última esperança estava em Adam.

Continua...
 
Últimos capítulos.

terça-feira, 8 de março de 2011

A Missão - Parte 13

Quando chegaram à casa de May, Nina foi direito para seu computador e terminou a busca detalhada que havia começado em seu celular. May ajudou com as localizações, já que conhecia muito bem a cidade.


-Definitivamente, ela está em algum lugar na EDM daqui... – May analisava os arquivos enviados por Nina, ela estava na revista em sua segunda jornada – Mas o sinal está muito fraco, não dá pra ter certeza...

-Já é um começo –disse R.

Leonardo chega em casa e se depara com a sala de estar lotada e praticamente de pernas pro ar:

-Ma cosa sta succedendo? (O que está acontecendo?) – o rapaz olhava assustado.

-Ciao, Leo. – C se apressou em dizer – Stiamo risolvendo uma cosa importante. (estamos resolvendo uma coisa importante).

Leonardo olha de maneira muito desconfiada. Vê Adam e Bernardo conversando exaltadamente sobre maneiras de arrombar uma porta e olha mais torto ainda.

-Nina, flor, chama Leo pra mim. – May fala na webcam.

Leonardo se senta de frente para uma May localizada no meio da tela do computador:

-Amore – começa ela – Fidati di me, la fiducia miei amici. Non riesco a spiegare adesso. Tutto è a posto. (Confie em mim, confie em minhas amigas. Não posso explicar agora. Está tudo bem).

Leo deu de ombros e subiu as escadas sem olhar para trás. O grupo reunido se entreolhou por alguns segundos, mas continuou a rotina. Estava praticamente tudo pronto para realizarem a Grande Missão. Antes, porém, Adam subiu até onde seria ao quarto de D. Ela viu a disposição das malas pseudo desfeitas, e procurou aonde ela deixaria sua munição. Por alguma razão inexplicável, ele encontrava seus esconderijos num piscar de olhos. Adam fitou por longos minutos as armas organizadas milimetricamente. Ele escolheu aquela, aquela pela qual D tinha um apreço especial. De volta ao primeiro andar, R fala casualmente para o rapaz assim que o viu com a arma da amiga:

-É bom você ter uma explicação bem razoável para dar quando ela descobrir que você pegou a preferida dela.

-Engraçado, não sabia que essa era preferida. Escolhi a que me chamou, entende?

-Não quero saber de suas macumbas. Foi só um aviso: tenha apreço pela sua vida. – R piscou e saiu para terminar de preparar o carro.



**

D estava deitada numa grande bolha transparente. Ela levantou lentamente e se sentou no banco mais próximo, sua cabeça latejava tamanha era a dor de cabeça.

-Acordou... – uma voz familiar vem do fundo do aposento.

-Não, estou sonâmbula aqui. – D falou com o mau humor.

Jeffrey pára de frente para o vidro, fazendo-se ser visto.

D olha de soslácio, mas seus outros sentidos estavam aflorados, não via a hora de sair daquela bolha de vidro e sair chutando o traseiro do primeiro que cruzasse a sua frente. Ao contrário do que queria, ela simplesmente se fez de pobre-donzela-indefesa-sofrendo-por-estar-trancafiada, piscou seus olhinhos com ar dramático e perguntou com um fio de voz:

-Por que?

-No tempo certo você saberá. – ele estava de saída e se virou para uma última palavra – Ah, se você acha que isso vai funcionar comigo, está terrivelmente enganada. Eu criei vocês, eu que as fiz o que são hoje. Eu ensinei esse truque a vocês.

-Ai,vsf. – D ficou emburrada e cruzou os braços, dando as costas para onde estava Jeffrey.



**

O plano era simples: entrar como quem não quer nada, procurar D e sair de fininho, caso isso não funcionasse, era sair fazendo muito barulho e fumaça mesmo. Adam entraria a procura de Jeffrey, “uma reunião de emergência”, enquanto isso, Nina e R procurariam por pistas do que estava realmente por trás de “A Missão” ; C e Bernardo iriam atrás de D.

Adam caminha para dentro do prédio calmamente, como se fosse mais um dos transeuntes, ele pára na portaria e fala o código secreto para liberarem sua entrada até a EDM. Junto com o porteiro eles vão à entrada dos fundos e sobem por um elevador escondindo por trás de uma parede falsa. Ao sair, discretamente, Adam joga entre o vão e o andar uma espécie de pequeno explosivo que não soltaria tanta fumaça e que não faria tanto barulho. A pequena explosão foi o suficiente para que os elevadores que davam acesso à EDM parassem momentaneamente. Entrando pelo buraco do elevador, Nina e R foram rápidas e entraram no 12º andar do edifício, primeiro aonde a EDM estava instalada. C e Bernardo entraram pelo ducto de ventilação, eles olhavam cada respiratório, verficando cada buraco para terem certeza de que não passaria em branco a sala em que estaria D.



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D estava sentada no banco. Precisava pensar e se forçava a isso a cada segundo. Mas parecia uma espécie de bloqueio em sua mente e isso a irritava demasiadamente. “Como eu vou pensar com meupé me matando também?”, ela olhou para seu sapato. Usava um salto alto, o possível encontro com Adam a fez subir alguns centímetros a mais para ficar olho no olho com ele. Mas aquele não era um simples salto de salto alto que irritava D, era um dos modelos especiais feito por Carol. Só tinha um problema: ela não sabia o que exatamente ele poderia fazer. Imediatamente, ela ficou descalça e tentou a todo custo achar um botão ou um sinal de que transformaria aquilo numa arma para tirá-la dali.

-Droga de sapatos! – ela atirou eles contra a parede oposta. O salto alto cravou no vidro, abrindo uma rachadura. Ela catou o outro sapato que estava jogando no chão, reparou uma pequena, mas afiada, adaga saindo do salto. D pegou os dois sapatos e começou a riscar o vidro, formando uma esfera – não tão perfeita. Um barulho de porta se abrindo fez com que ela parece momentaneamente, ficando calçada novamente e colocando o banco na frente do buraco. Era apenas um guarda fazendo a ronda, ele faz cara de mau para a menina, ela revida com gestos feios, não estava com paciência para pessoas que se achavam superiores se aproveintando que ela estava presa. “Espera eu sair daqui e tirar esse seu sorrisinho besta”, cochichou ela para o nada. As luzes são apagadas.



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-Conseguiu achar alguma coisa? - fala R baixinho para Nina, que estava dentro de uma da sala. Os disfarces já haviam sido abandonados pelo caminho e escondidos no cantinho.

-Nada. – Nina estava desanimada – Pelo visto, aqui não é o computador central, acesso básico.

-Não aguento mais entrar nesses cômodos, olha quantos ainda falta! – R aponta para o corredor com várias portas ainda por serem abertas.

-Eu ainda acho que ele não vai estar num lugar assim tão óbvio. Deve ter alguma passagem secreta em algum lugar... – Nina analisava de longe o movimento no corredor próximo, as pessoas entravam mas não saíam.

Com a maior cautela do mundo, ele andou de mansinho até o tal corredor. Não tinha nenhuma porta, as pessoas entravam no nada? “impossível”, pensou ela. De volta ao lado de R, ela comenta:

-Acho que aqui tem uma passagem secreta. Aonde estão as pessoas que entraram por esse corredor? Evaporar não é possível.

-Tem certeza que tinha alguma movimentação por aqui?

-Claro que tenho!

-Vamos olhar a fundo, então.

R ficara de vigia enquanto Nina procurava pela porta e por algum botão que a abrisse. Ela estava cansada de olhar minuciosamente e só ver o branco meio manchado da parede, passou a usar seu outro sentido que não era visão: o tato. Depois de muito espalmar Nina encontra uma pequena fenda que chega até o chão, ela tentou empurrar o que supunha ser a abertura, em vão. R se aproximou e depois de uma sequência de pequenos soquinhos em pontos estratégicos, a porta se abriu. R olhou para Nina, que entendeu claramente o que a amiga queria dizer: “Viu? É fácil.” Cautelosamente, elas seguiram pelo corredor coberto por paredes de aço até a porta ao fundo, ele dava em uma sala em completo breu.

-Será que não tem nenhuma luz por aqui? – R cochicou.

No estante seguinte, um clarão pior do que a total escuridão fez com que elas ficassem desnorteadas. A única coisa que conseguiram identificar foi o som de uma voz familiar:

-Sabia que isso não ia demorar muito... Não a deixem juntas em hipótese nenhuma!- Jeffrey ordenava com voracidade.

Continua...