quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Vendem-se lembranças

A rua estava vazia. Todos os vizinhos resolveram brincar de pique-esconde? Até o sol brincava de se esconder entre as nuvens. Podia me divertir pela calçada, subir e descer o meio-fio, dançar na chuva sem uma única gota caindo do céu. Algo, porém, chamou minha atenção. Uma placa branca reluzia com os reflexos solares que escapavam. “VENDEM-SE LEMBRANÇAS”, dizia a placa. Uma menina sentada no banquinho encontrava-se necessariamente ao lado das inscrições e encarava o vazio do asfalto a frente. Tentei passar sem fazer movimentos bruscos, não queria chamar a atenção dela. Em vão.


-Oi. Quer uma lembrança?

-Desculpe...?

-Bom, você escolhe. Temos as lembranças de infância, lembranças das minhas habilidades na cozinha, lembranças de amigos, de histórias, de amor... As felizes estão quase se esgotando, as engraçadas não ficam muito atrás. Mas as tristes estão empilhadas no cantinho e são de pronta entrega.

-Eu acho que não estou precisando – tentei contornar a situação.

-Poxa, você não entende... – o leve sorriso dela se desfez e fechou a cara.

-O que?

-Preciso de espaço, preciso me livrar delas! Não pode me ajudar nem um pouquinho?

-Não é possível que você tenha tantas lembranças. Você é mais nova do que eu!

-Só porque sou nova, não quer dizer que não tenha vivido.

-Se eu não vivi nem a metade do que eu queria, como você poderia? Como conseguiu?

-Quer saber o segredo para muitas emoções e lembranças? – ela me chama para perto – Viva. Viva. Viva.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

"Too many people living in a secret world" (Parte 11)

Chegara a hora do parabéns, porém isso nunca significa o fim da festa. Os convidados observavam Lily e o bolo de 7 camadas. Daren e Albert estavam ao seu lado, D estava alguns centímetros atrás do trio. As pessoas batiam palmas entoando as velhas canções que desejam felicidades e mais anos de vida. Ao final do último versão, tiros são disparados. O pânico tomou conta, homens e mulheres correndo para pontos aleatórios, derrubando mesas, cadeiras e as tendas. Simon tentava colocar certa ordem, mas quando a histeria é grande, não há organizador que consiga fazer todos entrarem na linha. Os homens de preto que rodeavam Albert estava caídos, atingidos com tiros no peito e na cabeça. Esse era o momento oportuno para R se aproximar. Ela e D precisavam proteger a família Ayer, evitando ao máximo que a sua principal fonte para o caso suma antes o essencial seja descoberto.


D logo acha Daren, deitado encolhido embaixo da mesa. “Pussy”, pensou. A espiã o puxa para fora, sinalizando para eles engatinharem para dentro o abrigo mais próximo. Com a arma em punho ela garante que perigos em potencial não ataquem seu protegido. Além dos tiros, algumas bombas faziam muito barulho e baixavam a visibilidade, o que irritava extremamente D. Ela tentava se comunicar com as meninas, mas ao passar os dedos pelas orelhas, percebe que os brincos não estão mais ali. Eles chegam até o bangalô vazio. D arrombou a porta com um disparo na maçaneta, eles entraram e permaneceram no escuro. Ela ainda em sua posição de ataque faz com que Daren fique quieto atrás do sofá. Eles sentam lado a lado e ouvem atentamente os sons vindo de fora.


**

5 minutos para a meia-noite

Em frente ao bangalô 7 dois homens se posicionavam de frente para porta. Eles tinham cara de que só permaneciam em pé aquele tempo todo porque estavam sendo muito bem pagos para isso. Nina e C, sentadas atrás da moita, analisavam a situação. Elas eram obrigadas a sussurrar:

-Parece fácil – disse Nina – Você vai no da esquerda e eu no da direita?

-Tenho um outra ideia – C piscou para a amiga.

C pegou sua pulseira de mil e uma utilidades e retirou os mini-explosivos e mais três cápsulas de gás sonífero no formato de balas de menta. Ela foi passando escondida entre galhos e folhagem, com o máximo de cuidado para não fazer muito barulho. Quando parou, a menos de 30 centímetros da dupla, a espiã arremessou duas das balas de menta. As pequenas balinhas coloridas quicaram no chão de madeira da varanda, fazendo com que os homens procurassem a origem do barulho. A fumaça saía a princípio bem fraquinha, imperceptível para os parrudos seguranças que continuavam buscando um sinal de movimento. A última balinha foi atirada e se chocou diretamente com as outras duas. A rachadura provocada pelo impacto fez a fumaça adquirir volume e encobrir os seguranças, que tossiam muito. Em poucos segundos, a densa camada branca que tinha se formado foi dissipada, restando apenas os seguranças deitados adormecidos no chão de entrada.

C parte em direção da porta, coloca um dos mini-explosivos e rapidamente sinaliza para que Nina entre. As duas pegaram suas canetas lanternas nos bolsos e vasculharam a casa inteira. C recolhia os papéis que achava conter informações importante. Nina foi direto para o computador que repousava sobre a mesa de vidro. Enquanto esperava o computador ligar, ela admirava o chão envidraçado onde via as águas cristalinas da bacia e toda a esplendorosa fauna e flora marinha. Os peixes excêntricos nadavam em círculos e pareciam gostar de aparecer para quem quisesse ver.

De volta da pequena distração, Nina encarou o laptop, encaixou o pen-drive e todos os seus dispositivos, ocupando todas as portas USB. Ela começou o dedilhar frenético sobre o teclado. Um por um dos obstáculos criados pelos programas anti-rastreamento foram sendo desligados. Até que finalmente ela conseguiu realizar a transferência total dos arquivos armazenados no HD. Ela levou o próprio HD externo para realizar a cópia sem problemas de falta de espaço.

Já que não poderia fazer nada que agilizasse a passagem de arquivos, Nina foi ajudar C a procurar possíveis esconderijos de documentos confidenciais. Todos os cantos foram vistos: os quadros revirados, o colchão jogado para cima, potes e enfeites decorativos também foram abertos e virados várias vezes. Mas a descoberta do fundo falso do closet foi o que animou de verdade, elas retiraram a parede falsa e encontram com duas caixas. Os nomes dos arquivos do lado de fora estavam meio apagados, uma tentativa de tentar não chamar a atenção. O apito vindo do laptop avisava que estava pronto, o download estava concluído.

Para não levantar suspeitas, as meninas tiveram o cuidado de deixar tudo do jeito que estava, aquilo que foi arremessado para longe já estava de volta no seu devido lugar. Elas estavam prontas para sair quando ouviram as primeiras explosões vindas dos jardins da festa. C se aproximou da janela e viu os clarões seguidos da nuvem de fumaça preta, olhou para Nina e passou a se comunicar por códigos (evitando que qualquer tipo de escuta capturasse suas vozes e fizessem reconhecimento de timbre). Os comunicadores não respondiam aos chamados, estava impossível saber como R e D estavam no meio daquela confusão toda. Ainda falavam com as mãos, as espiãs montaram um plano: elas chegariam à festa, procurariam pelas amigas e, por fim, tentariam deter quem estava fazendo esse caos no resort.

Elas saíram correndo pela porta da frente, quase tropeçaram nos seguranças que ainda dormiam tranquilo, aquéns ao estardalhaço ali perto. Contudo, uma mão puxou C pelo braço, fazendo-a perder o equilíbrio completamente, mas ao invés dela cair de cara no chão, ela teve a queda amortecida pela mesma mão. C viu que estava cara a cara com Bernardo, que pedia para ela continuar em silêncio quando viu que a mulher abrira a boca. Nina olhou para trás e viu que a amiga tinha sumido, ela pensou que algo tivesse dado errado e ao sentir a sua perna sendo envolvida por braços ela teve o impulso de chutar:

-Ai! Nina! - Bernardo estava zangado, a amiga da esposa tinha acertado seu estômago.

-Bernardo? Como eu ia saber?! - Nina abaixou ao lado do casal.

-Dá uma chance, né B? O que você etá fazendo aqui? - C quis saber.

-Depois nós explicamos tudo.

-Nós? - Nina e C falaram ao mesmo tempo.


**

Quando os tiros começaram, o instinto de R foi se abaixar para não ser atingida, mas logo que colocou os joelhos no chão ela teve que se levantar. Albert Ayer estava caído a poucos metros dela. Um homem mascarado usando jaleco estava a dois passos de distância, ele apontava uma arma para o peito de Ayer. Ela correu na direção dele pegando sua arma presa na bainha, seu disparo não pode evitar que o homem misterioso atirasse. O tiro dele passou longe do alvo, ao contrário do dela que atingiu em cheio o homem, deixando uma marca vermelha de sangue no jaleco branco. Quando se aproximou, R notou que Albert já estava baleado antes e arfava, com dificuldade para respirar. Com a mão no peito, tentava falar alguma coisa. R mandou que ele se calasse e que respondesse às perguntas apenas piscando os olhos.

-Sim, duas piscada. Não, uma só. Entendeu? -ela estava um pouco atônita, as pessoas ainda corriam de um lado ao outro sem rumo.

Ele deu duas piscadas. Ela prosseguiu:

-O senhor sabe quem pode estar por trás disso? - ele deu duas piscadas. - Jeff Hoggins é de quem o senhor suspeita? - e mais uma vez ele confirma. - E esse que tentou atirar agora, conhece? - “Não”. - Vou levá-lo para um local seguro. - Albert pisca uma vez e tenta falar, mesmo ouvindo o discurso de R sobre o quanto ele estava fraco e precisava poupar energias de qualquer maneira.

-Dd.. Da-rreen. Pro..ttte...ja... - e após o esforço monumental para balbuciar essas únicas palavras, Albert fecha os olhos.

R fica mais desesperada, começa todos os procedimentos padrões para reanimação cardíaca. Depois de longos cinco minutos fazendo massagem no coração, ela não consegue trazê-lo de volta. Ela fica sentada ao lado do corpo com a mão ainda sobre o seu peito. A sensação de fracasso estava crescendo. “Tanto trabalho à toa, perdemos a pista mais quente que tínhamos. Vamos voltar com as mãos abanando”, pensou.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

"Too many people living in a secret world" (Parte 10)

Eram quinze para às nove. Todas estavam na suíte de C e R (agora de D e R). E o lugar mesmo sendo relativamente grande, não era a suíte principal do hotel e de longe a mais elegante de todo complexo do resort. O orçamento foi minguado para essa missão. May disse que a grana estava sendo liberada aos poucos, porque os sócios/donos (da iniciativa privada) não gostam que seu dinheiro seja tirado deles assim de repente.


Esse foi o grande problema do EDM ao longo dos anos. Com a aprovação de mais sócios, o que devia ser investimento e melhoramentos para o Esquadrão se tornou pura burocracia e praticamente uma maneira de obter desconto nos impostos. A sede americana reduziu 3 vezes o seu tamanho e todos os chefes das filiais foram transferidos para a sede maior que fica na Itália, aonde May se mante firme e forte gerindo aquilo tudo. Ju acabou indo para a Itália também e divide o poder com May. Foi de certa maneira engraçado as duas gerindo com mãos de ferro. Nenhum homem se atreve a disputar a cadeira de nenhuma delas.

D e R estão prontas:

-Estou me sentindo meio ridícula. Acho que essas coisas de flertes não cabe para pessoas da nossa idade... - D diz do banheiro.

-Você fala como se não tivéssemos 32 anos - C fala indignada.

-Sempre fui uma jovem idosa nesse quesito. E nunca fui boa no sensual seduction.

-Saí logo daí! Você precisa ir. - R estava impaciente. - Quero acabar logo com isso.

-Vocês está linda, amiga. Vai fisgar Albert rapidinho.

-E se eu não quiser?

-Com esse visual? Mesmo que você n]ao quisesse. - Nina encerra a discussão.

D aparece no quarto e todas ficam com os olhinhos brilhantes. O pensamento de que essa parte da missão estava no papo era o que passava nas cabecinhas de cada uma. Ela e R usavam um vestido especial costurado por Carol. Nina explicou que era de fibra sintética especial, feita com o mesmo material de um colete à prova de balas, com a pequena diferença de que ele era um modelito que se encaixava no corpo e não pareciam que elas iam para a batalha. Os sapatos de salto eram os de sempre, aqueles que escondem a ponta cortante. Por último, um outro detalhe desenhado por Carol e fabricado por I foram as pulseiras que se transformam em um utensílio de mil e uma utilidades, nele tem explosivos de baixa potência, chave universal para abrir qualquer tipo de maçaneta, além de cápsulas de sonífero e pequenas brocas para emergências.

-Podemos ir? - pergunta R.

-Um segundo. - D levanta a barra do vestido e prega sua pistola na coxa

-Já ia esquecendo... - É a vez de R pegar a sua arma e colocar escondida no corpo, no decote.

-Vamos repassar os horários então? - C parece meio precoupada com a cobertura perfeita do plano – Por volta da meia-noite, quando começar o parabéns e o baile, Nina corre para o bangalô 7 (o mais distante do terreno). R o distraí enquanto isso.

-Ele vai participar da dança! Ele é o pai! - R se agarrara a essa ideia.

-Enfim, não podemos descuidar. De qualquer jeito, não tire os seus olhos de cima dele. - C começou a olhar em suas anotações e não percebeu a careta de R – Quando for meia noite, está programada uma chuva de fogos de artifício “surpresa”. É a hora perfeita para você sair sem ser vista.

-Ótimo - disse Nina – E quem vai me cobrir?

-Eu vou impedir que os seguranças fiquem por muito tempo vigiando a porta. Você vai ter menos de 10 minutos para entrar e sair. -C disse séria.

-10 minutos? Como vou procurar coisas pelas gavetas?

-Você enfia o pen-drive no laptop e saí procurando.

-Não se esqueça que eu também tenho que chegar até os arquivos. Eu não sei as senhas!

-Faça o que você puder por hoje, certo?

-Ok – Nina solta um muxoxo - Hora da ação.


**



A festa estava apenas começando, mas já estava bem cheia. As pessoas não quiseram perder tempo, nem queriam se fingir de importantes, todos marcando presença. O ar da festa estava animado e a decoração impecável: as tendas montadas formando ambientes diversos; flores e arranjos que combinavam com cada área; e pessoas ricas e vestidas elegantemente deixavam os ares pomposos.

D observava tudo com certa admiração, era tudo muito bonito. Ela chegou à festa de braços dados com Daren, praticamente obrigada a fazer o gesto quando se encontraram no hall principal do resort. Além da beleza da celebração ela também estava de olho em suas amigas, que seriam seus pilares em caso as coisas saíssem de controle. Nina servia as mesas e os convidados, sempre com um sorriso simpático; C brincava com as coqueteleiras, misturando as bebidas atrás do pequeno balcão; R ainda não havia chegado, esperava pela hora certa para “dar o bote”.

Quando o relógio marcava 23:50h, finalmente Albert Ayer deu o ar de sua graça. R estava impaciente depois de todo aquele tempo esperando e se livrando de cantadas indesejadas. Ela teria pouco tempo para por sua estratégia em prática. Obviamente, Ayer colocava em ação sua própria tática de evitar situações de risco. Mesmo cercado por seguranças, espalhados discretamente ao seu redor, ele agia com naturalidade, circulando entre as pessoas e batendo longos papos. À meia-noite, pares de meninos e meninas se posicionaram na pista de dança para dar início à coreografia do baile da debutante. A caçula da família Ayer vestia-se e agia como princesa. Era visível o autoritarismo de sua personalidade graças aos seus olhares e gestos rígidos para os colegas. Lily usava um vestido longo e rosa volumoso devido às camadas e mais camadas de renda, além de joias muito reluzentes, que cegavam durante a passagem de luz.

Uma coreografia cercada de rodopias e troca de casais (com passos muito elaborados) fez com que a plateia batesse muitas palmas. Albert já estava pronto para cumprir seu papel de pai da aniversariante debutante e lhe conceder a valsa tradicional.

Nina e C aproveitaram que os convidados montavam um barreira em volta da pista e encobria maiores movimentações pelo lado de fora, saíram de fininho, rumo aos bangalôs. R estava de frente para Albert e encarava os seguranças com cara feia, afinal, eles seriam uma pedra a mais para tirar de seu caminho. D continuava presa a Daren, ele não soltara a mão de D por nenhum minuto. Ela foi carregada para praticamente todas as rodinhas da alta sociedade e ainda teve que aturar conversas minimamente interessantes e fingir que aqueles assuntos lhe eram extremamente cativantes. Os breves momentos que Daren se afastou foram para pegar uma bebida para eles, ir ao banheiro ou tranquilizar a irmã segundos antes dela começar a dancinha. D aproveitou todos eles para conversar com as amigas através de seus brincos comunicadores (mais um acessório desenvolvido pela fusão de ideias de Carol e I):

-Gente, ele não me larga e ao mesmo tempo não larga essas rodas de pessoas metidas. - D disse numa oportunidade.

-Continuem assim. Se não conseguirmos arrancar nada deles hoje, temos que manter um laço que nos possibilite intimidade com a família - C disse em meio a caipivodcas e tequilas para D e R.

-Intimidade. Eca. - R bebericava seus bons drinks.

-Ainda sim, eles também precisam de proteção. Nunca se sabe o que pode acontecer – Nina falou rapidamente.

Daren se aproxima de D (que encerra a comunicação) e a puxa para dançar. Sem jeito ela aceita mais uma vez ser levada pelo homem loiro que tentava seduzi-la.

Eles dançavam praticamente sozinhos, excluindo um casal ou outro, a mudança repentina para uma música mais lenta afastou aqueles que não estavam em pares. D tentava ao máximo manter uma distância amigável, mas Daren insistia. Até que ela resolveu que era hora de tentar iniciar uma conversa broxante:

-Então, você faz o que mesmo?

-Bom, eu ajudo meu pai nos negócios. Essas coisas de tecnologia e informática.

-No que exatamente?

-Eu faço a parte da equipe de engenharia da criação. Fabrico novos dispositivos com as funções mais variadas.

-Inteligente... Quem compra esse tipo de coisa? - a própria D achou que perguntara demais e esperava a reação negativa de Daren, mas foi o contrário.

-Não sei porque está tão curiosa. Mas infelizmente não posso ajudar. Não controlo essa parte – ele a gira e pega de jeito – Pra quê essa conversa chata? Vamos a algo mais interessante.

D percebe as intenções de Daren e consegue virar o rosto bem a tempo, fazendo com que os lábios dele acertem em cheio suas bochechas. Assim que virou, D deu de cara com uma silhueta muito conhecida e impossível de errar. Os cabelos negros de Adam balançavam de acordo com a brisa praiana, muito agradável naquela região. Àquela distância não dava para ela ter certeza, mas D poderia jurar que os olhos dele estava bem apertados em sinal de desaprovação. Adam permaneceu de braços cruzados por mais algum tempo até que D precisou se virar para encarar Daren e lhe dizer que estava indo rápido demais. Ela tentou espiar de soslaio o marido novamente, mas ele não estava mais lá.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

"Too many people living in a secret word (Parte 9)"

D tinha saído debaixo da tenda branca procurando um lugar aonde o sinal do seu celular funcionasse direito. Esse era o problema de paraísos no fim do mundo. A tecnologia comum nem sempre funcionava. D caminhara tanto que já estava na área da praia privativa do Resort. Ela sentou-se na areia e ficou olhando as pequenas ondulações da lagoa batendo na margem. A visão era realmente boa, a água era de um azul digno de pedra de joia rara. De repente, a visão ficou mais escura. Uma pipa com quase 1 metro de comprimento cai sobre D, as linha se enrolando cada vez mais quando ela tentava se desvencilhar dela.


Um homem loiro com aspecto de atleta e olhos tão azuis quantos os da água chega para ajudar:

-Hey, calma aí. Você está se debatendo e se enrolando mais e mais. - ele claramente segurava o riso. - Pronto.

-Obrigada - murmurou D, aquilo estava embaraçoso demais (com todos os trocadilhos possíveis).

-O que fazia nessa praia? Aqui não é para o banho de sol, não sabe?

-Não estava tomando banho de sol – ela aponta para sua roupa - Tenho cara de que estou aqui para pegar uma cor?

-Bem, já vi que está chateada. Vou deixá-la em paz – ele se levanta – Mas antes de ir, tenho um convite que deve melhorar seu ânimo. Tem uma festa hoje à noite, é só aparecer. Será um prazer tê-la como convidada e acompanhante...

-Nem sabe meu nome e já está me convidando? -ela estende a mão - Sou D.

-Ayer, Daren Ayer.

D tentou de tudo para fazer com que Daren não percebe-se o espanto dela. Mas ele teve um sentido apurado e reparou no aumento dos seus olhos.

-Não se preocupe, é o aniversário da minha irmã. Festa de debutante. Será tranquila.

O alívio tomou conta de D, Daren interpretara mal o espanto e ela faria de tudo pra ele continuar acreditando nisso:

-Você não conhece os jovens de 15/16 anos...

-Eles querem se divertir como adultos e acabam agindo feito crianças. Então fica para hoje à noite, às 21h. Te busco no seu bangalô?

-Bangalô? Não. - “Pense, pense, pense” - Me espere na recepção, é melhor. Estarei lá.

Daren acena e sai do campo de visão de D. Ela estava tão enrolada naquela história toda. Precisava falar com as meninas urgente.



**

R e C estavam arrumando as coisas em suas suítes. Alguém bate a porta freneticamente. Não esperavam nenhum tipo de visita, então elas entraram em suas personagens, vestiram os robes e as pantufas do hotel. Abriram a porta lentamente:

-Que susto vocês nos deram! - D e Nina entram num rompante. Não podiam ficar no corredor e correr o risco de serem vistas.

-Vocês não sabem o que aconteceu. - D estava histérica.

-Espero que ninguém tenha morrido. - C diz sarcasticamente.

-Ela encontrou com Daren Ayer e ele a convidou para a festa que a família Ayer vai dar hoje à noite! - Nina desembuchou tudo num solavanco.

-Que coisa boa! Não vou precisar tentar seduzir ninguém! - C pulou animada.

-Não é bom, não! - D estava desesperada – Temos que rever os planos.

-Sinceramente, não temos não – Nina se manifestou – Conversei com o gerente Simon, insira muitos ecas aqui, e ele não sabe quem você é. Só disse que tinha minha amiga perdida por aí para trabalhar também. Pode muito bem ser a C.

-Droga! - D reclama.

-Yeeey! - C continua comemorando.

-D, não reclama. Eu ainda tenho que grudar no velho Ayer. Isso sim é eca! - R estava revoltadinha.

-Já que as coisas não vão mudar... - D se levanta apressada. - C, me dê logo aqueles papéis.

-Que papéis?

-A ficha dos Ayer. Preciso saber onde estou pisando e, o mais importante, aonde tenho que direcionar as perguntas.

-Uh, go for it! - C entrega uma pasta parda à amiga.



O resto da tarde passou bem rápido. Rápido demais na opinião delas. Naquelas poucas horas que separavam o encontro pelo final da manhã com Daren e a hora marcada para o encontro no hall principal D esteve ocupada lendo folhas e mais folhas sobre a vida inteira do jovem Ayer.

-Gente, esse garoto fez muita coisa mesmo. Não ficou acomodado no colo dos pais – D estava realmente impressionada. -London School of Economics, com pós em Harvard e curso extensivo de verão em Cambridge.

-Esse menino não brinca quando o assunto é educação. Cruzou os oceanos para as melhores faculdades – R não estava ligando muito, ela estava esperando ser atendida no serviço de transportes do EDM. O carro que ela tinha solicitado ainda não tinha chegado e não queria depender dos táxis da região (os poucos que existiam).

Nina entra depois de bater levemente na porta, trajando o uniforme dos empregados. Ela trazia mais papéis em mãos:

-Isso aqui foi o que eu consegui retirar da recepção. São cópias de todas as entradas e saídas do hotel dos últimos dois meses. As fitas da câmera de segurança são o próximo passo em relação ao hotel. Hoje à noite pretendo entrar no quarto de Albert e dar uma boa hackeada no laptop dele. Tenho certeza que um homem ligado em tecnologia deve escrever tudo no computador.

-Vai ver esse é o problema – comentou D enquanto passava para página seguinte. - Ele conhecer o ramo, digo. Vai ver ele esconde as coisas muito bem, com senhas, programas de bloqueio e coisas do gênero.

-Por que você acha que estudei firewalls a minha vida inteira? - Nina parece zangada – Eu sei o que estou fazendo e conheço pessoas. Elas sempre querem se gabar e precisam se comunicar rapidamente. Computador é a melhor saída em um lugar que não pega nem celular direito.

-Não quis ofender – defende-se D – Eu estou ficando um pouco preocupada. Não sei o que vestir exatamente...

-Algo de cair o queixo, de preferência - R ainda com meia consciência na conversa.

-E eu sempre salvando a vida de vocês... Esperem 10 muitos. - Nina olha para o relógio antes de sair. Estava preocupada com o fato de ter que terminar o expediente no hotel antes que Simon lhe arrancasse alguma parte do corpo como pagamento de dívida.



quarta-feira, 10 de agosto de 2011

"Too many people living in a secret world" (Parte 8)

Como não existe voo direto para Bora Bora e muito menos para qualquer ilha da Polinésia Francesa, C e R saíram um pouco mais cedo e pegaram o primeiro avião da tarde. C ainda estava um pouco chateada com Bernado, mas nada do que uma “noite para fazer as pazes” quando eles voltarem, acreditava ela. A escala era na França, duas horas e meia esperando até o próximo avião. Se não estivessem em companhia uma da outra, aquilo ia ser um pouco sacal.


Depois de quase 40 horas de viagem, contando todas as paradas para torca de aeronave e de espera no saguão de embarque, elas finalmente chegam a Bora Bora. Depois da disputa pela bagagem na esteira rolante, R e C se encontraram com D e Nina, que já tinham chegado há algumas horas, no pequeno quiosque de café.

-Vilões. Por que sempre tão longe? - R reclama soltando um largo bocejo.

-Eu culpo o EDM por não ter tido a decência de mandar um jatinho da sua própria frota. Seria muito mais confortável. - C se espreguiça, tentativa falha de colocar as costas no lugar – Esses aviões comerciais são sempre muito apertados, me sentia espremida feito uma laranja.

-Certo. Sabemos que a verba até aqui foi curta e que eles não queriam desperdiçar dinheiro com a investigação que ainda está dando os primeiros passos – falou D cética.

-Grande erro se você quer saber a minha opinião. - Nina completa – E se acharmos algo substancial por aqui? Teremos que esperar o próximo avião para sei lá aonde para sairmos desse fim de mundo?

-Até que é um fim de mundo bem bonito – observou R pelas paredes de vidro da entrada principal do aeroporto.

-Ok, chega disso. Todas já sabem o que fazer? - C pergunta.

-Não – dizem Nina e D ao mesmo tempo. Enquanto R apenas assente com a cabeça.

-O plano é o seguinte – C começa – Vai ser no esquema “Filhinha de Papai”. Atraímos o velho Ayer, tornando uma de nós sua futura amante...

-Eca – as três fazem uma careta.

-De mentira! - C entende perfeitamente a repulsa, mas trabalho vem em primeiro lugar – Enfim, uma de nós fica de olho nele, dia e noite, no café da manhã, no almoço, no jantar, nas saídas para o banho de sol na piscina, nas festas em boate.... Enquanto isso, outras duas ficam de camareiras, assim é mais fácil ter acesso ao quarto dele e se a amante for competente teremos tempo o suficiente para procurarmos pelo quarto. Tem ainda uma última coisa - a cara de nojo ainda estava impregnada em todas elas, mas C continua – O filho de Albert, Daren Ayer.

-O que tem ele? - pergunta Nina.

-Ele também é um bom caminho para se chegar ao pai. E as investigações não dizem nada específico sobre ele. Não sabemos até que ponto está envolvido.

-O filho do rei da máfia digital? Deve saber de alguma coisa, ou no mínimo desconfiar. - R diz.

-Ou fazer parte do negócio sujo. – concluiu D dramaticamente.

-Envolvido ou não, é bom termos um par de olhos em cima dele também. - C encerra o rumo da conversa chegando ao ponto que interessa – Quem vai fazer o que?

-Camareira – Nina e D gritaram antes mesmo da formulação completa da pergunta de C.

-Droga, vocês duas! Parem de agir igual. Essa coisa me assusta! - C reclama.

-Isso não tem nada a ver com aquela coisa de nome igual. Tem mais a ver com as capacidades nossas. - D explica.

-Certo. Sou muito melhor procurando arquivos escondidos (no computador ou fora dele) do que seduzindo pessoas! - Nina completa.

-Vocês são muito espertinhas, mas estou fora não quero mais tentar seduzir ninguém! Por que sempre EU? - R choraminga.

-Porque as coisas acontecem mais fácil pra você do que pra nós. - C fala e se vira para Nina e D - Mas isso não quer dizer que eu seja como a R. Não tenho atributos físicos, não tenho olhos de mel!

R revira os olhos e então sugere:

-Vamos tirar na sorte? Tiramos no zerinho-ou-um duas pessoas que terão a chance de escolher o que quiserem (no caso, o papel de camareiras). As outras duas tiram no palitinho. Quem perder é a (ecaaaa) amante do velho Ayer, enquanto a outra vai em cima do novo Ayer.

-Deal! - gritaram as quatro.

E que a sorte seja lançada. Na primeira rodada, Nina sai sendo a única a colocar um zero no meio de três 'um'. Na segunda e última rodada desse jogo, D foi a vencedora.

-Eu continuo dizendo que essa coisa de vocês duas me assusta de vez em quando. - C disse meio inconformada.

A hora era dos palitinhos. Por já estarem fora e terem se saído bem na primeira fase, Nina e D estavam preparando o equipamento para o próximo jogo. Na falta de palitos maiores, dois palitos de dentes foram quebrados em tamanhos diferentes. C e R respiram fundo e escolhem cada uma o seu. Elas puxam ao mesmo tempo. O resultado ficou da seguinte maneira:

• D e Nina eram as camareiras: Tomariam conta não só do quarto, mas de todo o hotel. Olhariam cada canto e copiariam cada arquivo suspeito. Além de implantarem escutas ou qualquer outro recurso para monitoramento. Ficariam de olho nos funcionários também, se há algum tipo de envolvimento por parte deles nos esquemas de Ayer;

• C ficou encarregada de Daren Ayer: Procurar qualquer prova de envolvimento do indivíduo com os negócios escusos do pai. Se houver ligação, como isso se dá necessariamente, os esquemas e afins;

• E por último, mas não menos importante, R fica de olho no velho Albert Ayer: Tentar descobrir qual a relação dele com o psicopata Jeff Hoggins. E caso encontre outras provas não relacionadas a essa missão específica, tudo será bem vindo.



**

Depois de uma pequena viagem em carros separados, as quatro chegam ao Grand Hotel Resort Blue Lagoon. Ele ficava na parte mais isolada da ilha e pertencia (oh, que novidade!) a Albert Ayer. Diziam que eles haviam passado por cima das leis ambientais e que o processo estava parado há anos. Isso tudo não tirava a fama do lugar, muitos hóspedes continuavam a frequentar o hotel, deixando-o sempre com lotação máxima.

C e R entraram no hall e logo perceberam que estavam chamando atenção demais. Estavam vestidas de maneira simples demais. Correram para fazerem o check-in e subirem o quanto antes para suas suítes (porque o mais barato dos quartos era a suíte de frente para a Lagoa). Nina e D foram pelos fundos tentando achar o gerente do staff. Logo elas viram que não seria uma tarefa fácil. No jardim principal do resort uma festa completa estava sendo montada. Tendas enormes ocupavam a maior parte da área verde descampada, cadeiras arrumadas milimetricamente alinhadas, a mesa quase completa com o banquete, pessoas de uniforme desesperadas com as mãos cheias e sem saber qual o destino final daquilo tudo.

Nina perguntou para uma moça que estava junto a mesa;

-Com licença, você sabe aonde podemos encontrar o gerente?

A menina para e olha com um sentimento de compaixão: “Se eu fosse você, fugiria para as montanhas o quanto antes. Isso é o inferno e Simon é o capeta”. Naquele exato momento, um rapaz (muito mais jovem do que as espiãs imaginavam) apareceu. Cabelo emplastado jogado e colado pro lado com gel, terno impecavelmente reto sem um único vinco, gravata vermelha e um broche com o logo do resort que ocupava praticamente a lapela inteira.

-Menos papo, mais trabalho, Janine – disse o rapaz autoritariamente.

-Claro. Desculpe, Simon – assim que ele vira as costas, Janine faz sinal feio com o dedo.

-Com licença? - Nina corre atrás de Simon.

-Sim? - ele se vira bruscamente para encarar a voz que lhe chama.

-Olá, nós.. - Nina olha ao redor, D tinha saído de perto – Digo, eu e mais uma amiga, que não está aqui no momento, viemos pela oferta de emprego. As novas camareiras?

-Ah, sim, lembro. A contratação de última hora. Lembro do assunto. Onde está sua amiga?

-Ela estava aqui agora pouco. Deve ter se perdido enquanto procurava o senhor.

-Pode me chamar de “você” - Simon pega a mão de Nina e a beija com delicadeza. Nina se contorce internamente.

-Ah, certo, Simon. - ela estava sem graça - Quando podemos começar?

-Se quiser pode ser agora mesmo. Mimi passou mal no turno da tarde, você pode substituí-la na limpeza da ala sul. Quanto a sua amiga, assim que a encontrar, pode dizer a ela que precisamos de mais gente aqui na organização da festa.

-Sem querer me intrometer, de quem é essa festa?

-É da família Ayer. A senhorita Lily Ayer está comemorando seus 16 anos. Nem preciso dizer que tudo precisa ser perfeito.

-Imagino. Bem, se o senhor... er, você me der licença, vou procurar minha amiga e nos apresentaremos direto ao batente. Até mais! - Nina percebe que Simon ia fazer outro tipo de cumprimento que envolvia contato com suas mãos, ela sai rapidamente, evitando esse ato.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

"Too many people living in a secret world" (Parte 7)

Nina estava para partir. Luti e Matt estavam na sala quando ela havia voltado do ateliê de Carol e não desgrudaram dela por mais nem um minuto. Ela recebe a mensagem de D e decidi ir mais cedo para o aeroporto acompanhar a amiga. Logo em seguida uma resposta de C, também não muito animadora. Num breve momento de distração de Luti, Nina resolve falar com Matt:


-Tudo bem pra você eu sair esses dias todos?

-Claro.

-Preciso que seja sincero, Matthew.

-Meu nome inteiro? O que aconteceu?

-Digamos, que Bernardo e Adam acabaram soltando que eles preferiam as coisas de outra maneira. Queriam ir junto.

-Nina, vou fingir que não entendi o que você quer dizer assim que terminarmos essa conversa. Mas se você quer saber, acho normal isso. Vocês andaram muito tempo longe, enquanto eles se mantiveram. E essa é uma rotina diferente. Se você quer a verdade, também não gosto disso, mas quando eu conheci você sabia que tinha algo de mistério em você. Lembra da primeira vez que nos conhecemos? – Nina afirma com a cabeça – Estávamos no supermercado, quer lugar mais misterioso para encontros? Quando achei que tudo estava perdido, você apareceu de novo. E sumiu de novo, apareceu, sumiu, apare...

-Entendi! – ela beija Matt, com vontade – Obrigada, querido. Acho que seu conselho me esclareceu e vai me ajudar a aconselhar também. Você é demais!

-Ewww! - Luti ressurge.

-Tenho que ir.

-Já?

-Sem dramas, Luti. Está grandinho pra isso.



**

D chega ao aeroporto. Ela deixa o carro no estacionamento, mas não necessariamente saiu depois de desligar o motor. Ela estava pensando, durante todo o trajeto, que havia exagerado um pouco no tom com o marido. “TPM, deve ser. Na verdade, TEM que ser”, pensou. Pegou o celular para digitar um pedido de desculpas para Adam, mas viu que ele tinha ligado muitas vezes, mais do que ela imaginara, apertou o botão de rediscagem. A ligação caiu direto na caixa postal. “Vai ver esse é um sinal. Esse é um assunto que não se deve discutir por telefone.”

Ela finalmente pega suas coisas e vai para o lobby. Enquanto esperava a companhia de Nina, ela parou na banca/livraria, à procura de algo que a fizesse realmente se distrair nos momentos de silêncio. No caixa, com dois livros na lista dos best-sellers, ela se depara com outro jornal. Esse era internacional, era do Canadá. A manchete era praticamente a mesma do jornal da cidade de hoje: crianças desaparecidas e nem sinal de pedido de resgate por parte dos sequestradores. A reportagem de capa foi completada com as fotos de algumas das crianças. Logo ao lado do impresso canadense, o tabloide inglês também anunciava casos de desaparecimento.

D analisou-os com suspeita. Por via das dúvidas, ela comprou os exemplares e tinha decido debater aquilo com Nina. Isso cheira a uma possível missão futura.



**

Nina chega ao aeroporto e se senta calmamente ao lado de D:

-Então, quer dizer que Adam e Bernado estão inseguros?

-E o pior não é isso. Eu sei que exagerei. - D fecha o jornal que estava lendo e encara Nina – Já tentei ligar, mas o celular está desligado ou fora de área, sei lá. Provavelmente ele deve ter ido pra Itália levar Bruno.

-Pera, como vocês não vão se encontrar aqui?

-O avião para a Itália parte do JFK.

-Ah, claro. Não me toquei nisso. - Nina queria mudar de assunto, mas tinham certas coisas que precisavam ser esclarecidas – Qual o plano quando chegarmos na ilha?

-Não sei. C e R vão encontrar conosco e vão contar tudo certinho. Mas acho que executaremos o plano “Filhinha de Papai”.

-Ai meu Deus, eu não quero ser a “filhinha”.

-Bem, ninguém acertou nada. Mas no fim das contas, a gente convence a R de fazer isso. Ela tem mais jeito para essas coisas.

-Sempre.

A voz anasalada da mulher do microfone anuncia: “voo número 4458 para Papeete e conexões. Embarque no portão 5”.

-Vamos? Quero acabar logo com essa confusão. Bora Bora não vai ter gostinho de reencontro e, sim, de tortura. - D pega sua bagagem de mão, Nina a segue ainda em silêncio pensando: “Ela tem razão nesse ponto, a diversão não será a habitual”.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

"Too many people living in a secret world" (Parte 6)

R chegou à casa de C e Bernardo. Estava até que silencioso, bem diferente do normal. “As crianças devem ter saído”, pensou ela. R toca a campainha. Depois de alguns segundos esperando, uma C meio preocupada surge à porta.


-Ei, R! Demorou, mas chegou. Entra e fique à vontade.

-Onde estão os meninos. Tá muito quieto isso aqui.

-Mandei-os para a casa da avó. Deixar um pouco longe da gente, sabe? Aparentemente, D e Adam vão fazer o mesmo.

-Acho que Catarina ficará segura com John. Ele é meio distraído, mas é bom pai.

-Óbvio que sim. Provavelmente, aquilo que mais influencia nessa decisão é o fato de tanto Bernardo quanto Adam, agora, fazerem parte da equipe. Claro que os pais seriam a melhor opção, porém, nesse caso específico...

R passa por Bernardo no escritório. Muitos papéis e livros abertos espalhados pelo cômodo. Ela resolve entrar.

-Então, o que temos pra hoje?

-Opa, olá R! Bem, já sabe que vamos para Bora Bora?

-É, May me contou, assim de leve.

-Mas tem uma coisa que eu ainda não informei. Acabei de receber umas informações diretamente da ilha, de um agente que trabalha na região da Oceania. – C entrou bem na hora, segurando uma maleta - Parece que Jeff e os outros passaram rapidamente por Bora Bora, permaneceram por menos de 48 horas lá.

-Tiveram muita pressa, né? – C estava colocando parte dos papéis e livros dentro da maleta.

- Suspeito. – disse R.

-E descobri com quem eles negociaram. – Bernardo entrega algumas fotos para R e aponta para um senhor muito bem vestido, usando um terno caro e óculos escuros – Esse, ao lado de Jeff, é o Albert Ayer. Ele está na lista negra, ligado ao contrabando de tecnologia.

-Estive pensando... – começou R - Já que vamos para Bora Bora e sabemos que Jeff não está por lá, não seria melhor irmos num pequeno grupo? Digo, Bernardo e Adam podem ficar. Nós 4 damos conta.

-Está querendo nos dispensar, R? – Bernardo olha com um risinho irônico para ela.

-Não. Só acho que estamos levando todas as nossas forças, para um caso que, por enquanto, não precisa que mostremos todas as nossas cartas na manga. Mas é só uma opinião.

-Acho que R está certa – C se manifestou. – Estaríamos vulneráveis demais, com todos nós presos na ilha.

-Sabe o que é engraçado? Eu só consegui confirmar o disfarce de vocês. Essa coisa de “primeiro as damas” deixou meu primo e eu de fora da primeira ação conjunta depois de anos – Bernardo choramingou.

-Então, está resolvido. D e Nina vão para Bora Bora com a gente. – C dá a palavra final. – Será que elas não preferem ir direto para lá? Vou ligar para elas.



**

D desliga o telefone e procura Adam pela casa. Ele estava sentado no escritório, procurando algum papel na gaveta.

-Era C. Parece que eles acharam melhor irem só as meninas investigar.

-Isso é besteira. Quanto mais gente lá, melhor.

-Aparentemente, eles entraram num consenso de que não é hora para atacar com força total. – D explica tudo que Bernardo acabara de descobrir.

-Mesmo assim – continuou Adam – Acho que seria mais seguro ter... – ele parou no meio da frase.

-O quê ?? – D havia captado a ideia e não gostou nada – Você ia dizer HOMENS?

-Não – ele tentou consertar – É que vocês estão há muito tempo fora de atividade. Acho que uma supervisão nunca é demais. – a emenda saiu pior que o soneto.

D explodiu:

-Eu não acredito que você esteja me dizendo ISSO! – D andava de uma lado ao outro do cômodo – Adam, só estamos fora da ativa porque colocamos a família em primeiro lugar. Podemos estar um pouco fora da sintonia perfeita, mas as meninas e eu nunca paramos de vez. Você sabe disso.

-Justamente essa falta de sintonia pode ser perigosa. Acho que alguém de fora seria um bom mediador, tomaria conta de vocês.

-Adam, não somos mais crianças. Sou uma agente de alta patente. Eu sei o que estou fazendo. Aliás, não só eu, TODAS nós somos qualificadas e sabemos dos perigos. Não precisamos de babá. Você está com medo que eu volte completamente, não é? E que você tenha que dividir as tarefas, cuidar da vida doméstica também, ficando mais tempo em casa, não é?

-Não seja ridícula!!

-EU estou sendo ridícula? – D passa a mão sobre os cabelos - Olha, quer saber?! Se quiser ir com a gente vá. Mas já vou avisando, eu não recebo ordens de ninguém. Meu currículo me permite ter uma amizade com meus superiores e nem eles querem me manter presa.

D bate a porta do escritório com violência, pega as malas já prontas e as coloca no carro, junto com as sacolas de compras feitas com I. Ela avista a embalagem do presente que ia dar a Adam e resolve deixar no canto da garagem, meio escondido entre bugigangas e cacarecos antigos. Ela arranca com o carro para o aeroporto.



**

C recebe uma mensagem de texto de D, explicando quase tudo o que aconteceu. Meio que querendo ajudar ela foi conversar com o marido que ainda estava absorto em pesquisas. Tentava achar a ligação perfeita entre Jeff e Albert.

-Bernardo?

-Sim?

-D acabou de me contar que eles não receberam muito bem a noticia.

-O que quer dizer?

-Bom, Adam disse alguma coisa que sobre ter alguém ajudando a gente, já que faz muito tempo que nós quatro estaríamos no comando.

Bernardo para imediatamente e olha fixamente para C. Esse olhar a assustou:

-B, você não vai concordar com essa ideia, vai? – C arregalou os olhos, quando ele parecia não ter muitas palavras e, sem jeito, acabou tombando a cabeça para o lado. – Diga que isso é besteira.

-Ele tem um ponto. Também não gosto muito da ideia de vocês quatro sozinhas.

-Ai meu Deus!

-C, não faça tempestade em copo d’água!

-Não é fricote! Isso que vocês têm em mente é machista. Acha que não damos conta?

-Não disse isso! Você está pondo palavras na minha boca!

-Agora tá me chamando de controladora?

-O quê?

-Va fa napole!

-Ei, va fa napole você!

domingo, 7 de agosto de 2011

"Too many people living in a secret world" (Parte 5)

Nina estava quase pronta. As malas já estavam no carro e ela dava as últimas conferidas na maleta de mão: seu laptop e seus fios que faziam parte de um kit de sobrevivência prática – serviam para qualquer emergência. Isso, além de chips novos e um novo modem de conexão wireless que não precisava se conectar a tomada nenhuma, bastava estar perto de uma rede disponível que ela tratava de dividir o fluxo (tudo altamente controlado com uma senha com o maior nível de dificuldade, esse equipamento só era usado em emergências, pois sua bateria aguentava um tempo suficiente para acesso de tempo mediano).


O celular toca. Era D avisando que passaria na I para deixar sua criança espiã interior feliz. Perguntou se queria alguma coisa e também pediu que ela passasse no ateliê de Carol. Roupas resistentes aos impactos e às situações mais adversas também era uma boa pedida.

Ela desceu as escadas pegando as chaves do carro. Luti estava com uma cara enfezada, queria viajar, queria uma viagem em família.

-Ainda volto. Vou fazer umas comprinhas antes. Artigos de necessidade. – Nina lança um olhar para Matt, esperando que ele compreenda a subjetividade. Ele entendeu.

Carol tinha agora um grande ateliê em duas das cidades da moda: Nova York, onde tudo começou, e Milão. Ela avistou pela TV no canal de segurança do prédio que o carro de Nina estava parado na garagem exclusiva para clientes. Carol passava maior parte do tempo na Big Apple, tinha se identificado com a cidade, além de ter constituído família ali.

Nina vai direto ao escritório. Carol tinha descido na confecção para resolver um problema que acontecera durante o tempo em que Nina demorou para saltar do carro e ir pegar o elevador até a diretoria. Nina apenas sentou e observou os grandes pôsteres com os modelos desenhados por Carol vestindo as Tops internacionais, além dos primeiros rascunhos que a levaram a chegar ao topo. Competindo pelo espaço na parede, as fotos de família: Fred, o filho; Nicholas, o pai; e Carol com a pequena Alice nos braços.

- Deixa eu adivinhar? – Carol entra falando rápido pelo rádio – Alguém errou o corte por 5mm? Já disse, manda recalcular as outras medidas de maneira que o resultado fique igual ao original. Se não couber naquela modelo a gente troca! Como assim troca o quê? De modelo, oras. – Ela desliga e olha para Nina – Odeio ser tão rude com as pessoas, mas quando te chamam a cada meio segundo por besteiras, a pessoa acaba perdendo a cabeça um pouquinho. Você me conhece, não sou assim tão durona.

Nina pensa na resposta, levando em conta todos aqueles anos, sim, Carol nunca foi de gritar com pessoas. Ela concorda com a cabeça e abraça a amiga, dizendo em seguida, em tom animado:

-O que temos pra hoje?

-Qual o problema?

-Tudo o que sei é que estamos indo para Itália agora dar uma investigada no desaparecimento de Jeff e seus comparsas. O ponto seguinte é ir para algum lugar do Pacífico, nossa primeira pista.

-Hum – Carol analisou cada ponto dito por Nina – Então precisamos de algo como um vestido elegante para coquetéis importantes, com uma boa proteção, uma dose extra de tecido à prova de bala. Ah, tenho também o rastreador em formato de brinco de pérola, aperte com ele ainda no seu ouvido e pregue em quem ou o que você pretende seguir. Temos também às botas de sempre, com sucção na sola, perfeita para todos os tipos de solo (ou teto, dependendo de onde estiverem). Vem comigo, você pode escolher outras coisas aqui também.

Carol empurra o grande pôster familiar e digita uma senha longa. A parede move e se fecha assim que elas atravessam o túnel. Era o “outro” ateliê. Alguns estagiários ajudavam na parte final de testes. Parecia a pequena ala de treinamento de recrutas do EDM.

-Vamos, o que acha disso aqui? – Carol abre o grande closet com muitas peças. Algumas para cair na água, outras para temperaturas infernais, além de específicas para o deserto quente ou gelado.

-Acho que uma de cada, pra 4 pessoas está de bom tamanho – Nina dá um sorriso modesto.





**

D chega à loja de I. Agora é um antigo armazém reformado. Ela continua com a fachada cult, com a venda de filmes e livro antigos ao mesmo tempo, agora com um espaço para leitura e televisões individuais que era o verdadeiro cinema, mas com preço mais acessível. As pessoas comuns imaginavam que a parte escondida do público, nos fundos, tinha coleção de artigos raros, pois nunca ninguém poderia olhar. Os livros/filmes mais importantes e caros sumiam das prateleiras. Mal sabiam os clientes que I retira esses exemplares porque, no fundo, tem um carinho todo especial por eles e ela sabe como os frequentadores podem ser distraídos e descuidados.

-Hola! – D diz em alto e bom espanhol.

-Por que você sempre me vem com esses sustos? Mania de andar feito gato! – Falando isso Edgar, o gato de I, levanta a cabeça de seu lado aconchegante do balcão ao pensar que chamaram por ele, vendo que o assunto não lhe interessava, voltou ao seu estado inerte.

-Treino minha vida inteira pra poder andar assim, não estrague o trabalho de anos – D argumenta sarcasticamente.

-Em que posso lhe ser útil? – I se recompõe.

-Estamos, digo, estou precisando ver coisas novas. Sempre acho que estou obsoleta, mas dessa vez tenho certeza, não compro nada há... dois anos?

-Por aí... – I sai de trás do balcão e vai aos fundos. D acompanha. Elas atravessam um grande portão, passam por mais algumas portas, até que finalmente descem até a entrada do verdadeiro estoque. I faz sua identificação biométrica libera a entrada.

-Tenho algo que acabei de melhorar. Quem de vocês é boa no arco e flecha?

-Todas nós sabemos um pouco de tudo, não quer dizer que façamos isso na maior perfeição. – D argumenta – Podemos revezar.

I trás um saco de golfe, com vários tacos dentro.

-Pensei que fosse arco e flecha a brincadeira. Sou péssima para golfe.

-Isso não é para você jogar golfe! Pode até ser, mas aí a vida útil do produto vai diminuir. - I tira um dos tacos, retira a ponta arredondada e uma linda seta brilhante e pontiaguda surge. Colocando- o de volta no lugar, ela retira o único que tem uma cor diferenciada. – Esse aqui é o arco. Tem corzinha diferente para, inclusive, não se confundir com as flechas. Ele é maleável e a corda está tencionada na extensão. Pra usar, retira a ponta (como as outras flechas), aperta o botão embaixo (no lado oposto à tampa) e ele vai tomar o formato ideal sozinho, levemente arqueado com a corda solta para você poder puxar e mirar.

-Adorei! Pena que com esse disfarce é bem mais provável que Adam ou Bernardo usem – era visível o desapontamento nos olhos de D.

-Um carrega outro usa, oras. E que preconceito de mulheres no golfe? – I revira os olhos - Mas vamos para parte que você gosta.

Novos rifles de longa distância, revólver com calibres extremamente pequenos, porém de alto impacto, lasers, e munições com gases de efeito moral (das mais diversas reações). Isso sim gerou felicidade instantânea sobre D.

-Mas, me conta, como vai a família? – D tinha desviado ligeiramente o olhar das armas e encarava o porta-retrato que estava de costas, o qual ela sabia que estava a recordação de alguma festa de família. – Manuela continua dando muito trabalho?

-Na verdade, Manuela não dá trabalho nenhum. Só Bernardo que chuta demais... – I alisa a barriga de seus sete meses e meio. – Além disso, ela já está de férias e vai fazer um mini-intercâmbio. Vai ficar com a mãe de G, em Barcelona, fazendo cursos de fotografia.

-Meu Deus, I! A menina só tem 7 anos. – D leva mão à boca – E sempre me lembro do meu “primo” – ela ri.

-Nunca é tarde para se ensinar algo que preste às crianças. E eu sei que dá pra fazer uma confusãozinha. Mas, foi o único nome que G não rejeitou, da lista imensa que eu sugeri. Ou melhor, falei com jeitinho.

-Enfim, algo de mais de útil?

-Queri, tudo que está aqui é útil, não sabia?

-Você sabe, sou sedenta por novidades. E não se importe, que o EDM paga. E muito bem, né? – D dá uma piscada.

-Ok. Vamos, vou te mostrar o resto.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

"Too many people living in a secret world" (Parte 4)

R finalmente chegara à terra firme. Não precisou se dar ao trabalho de procurar por C. May estava no cais, só esperando a chegada da amiga:


-Mulher, essa coisa de viagem em alto-mar nunca é uma boa quando se tem a possibilidade de ser pega de surpresa no meio do caminho.

-Olá, bom dia pra você também? Como foram todos esses meses sem falar comigo? Eu sei que você morreu de saudades de mim, ordinária!

-Se enxergue! – May deu um leve empurrão em R – Tenho coisas mais importantes, muito mais importantes, do que morrer de saudades de você.

R completa com uma careta e recompõe-se de maneira a tratar logo dos assuntos. “Do que se trata?”. May entrega-lhe uma pasta parda com inscrições de CONFIDENCIAL em um vermelho gritante.

- D, Adam e Nina estão a caminho e devem chegar a qualquer momento. C e Bernardo já começaram uma parte das investigações. Leia isso com atenção e qualquer dúvida, já sabe né? Só ligar. Aí tem todas as explicações, mas só pra adiantar o assunto, C e Bernardo acham que o destino de vocês nesse verão é ir para Bora Bora. – May dá uma pequena piscadela e se vira com a intenção de partir, mas acaba voltando para dar um último recadinho – Queria poder ficar mais um pouco, mas Jeff fugindo realmente não é uma coisa qualquer, imagine como está a diretoria e os outros agentes. As pessoas são muito histéricas, nossa! – elas se abraçam e May toma o caminho do escritório.

John aparece segurando Catarina. Ele deixava a menina irritada com seus ataques de superproteção. Seis anos seria uma idade considerável para uma criança achar que já era quase uma adulta, mas Catarina não simplesmente achava, ela agia como uma. Por isso ficava estressada com os ataques do pai. Convenhamos, normal para pais babões de primeira viagem.

R se aproxima dos dois e está prestes a dar a notícia de que não haveria mais final de semana legal na Itália. John entende completamente, mas Catarina fica indignada:

-Mas, mãeee – ela choraminga – Você falou que poderíamos andar de lambreta por toda a Roma. Disse que íamos comer pizzas até nossas barrigas estourarem!

-Vamos, Catarina. Sua mãe precisa trabalhar e já conversamos sobre isso outras vezes. Quando ela é chamada, precisa ir. – disse John. Apesar de não saber oficialmente, ele tinha uma leve ideia do que se tratava o emprego de R. Certa vez eles tentaram com que ele descobrisse na base da mímica, mas estavam bêbados demais pra chegarem à resposta correta, numa época em que Catarina não estava nos planos.

-Tentarei ao máximo não demorar muito. Mas sabe como é. Essas coisas não dependem de mim...

-E o que exatamente você vai fazer? - Catarina tinha ar inocente. E a inocência fica só na expressão.

-Hum, depois eu explico melhor. Por enquanto, digamos que se trata de contenção de problemas. – R dava por encerrado o assunto. A menina já estava pronta para uma outra pergunta quando R deu um beijo em sua cabeça e saiu andando para dentro do barco.

-Mãe, você sabe que eu vou perguntar de novo, né?

-Sei, querida. Mas me permita ter o direito de responder isso em outra hora. – R pisca em cumplicidade com John. Ele teria um longo e árduo trabalho com Catarina.



**

Por volta de 15 minutos depois da reunião, D e Adam chegaram em casa. A intenção deles era subir correndo as escadas e fazer as malas o mais rápido possível. Pouca roupa e muitos equipamentos estavam na lista de D, mas ela tinha certeza, e Nina concordaria com ela, de que estava na hora de ver Carol e I novamente. Só para reabastecer os estoques e se atualizar nas tendências da moda dos dispositivos e armamentos de espionagem.

Passando pela cozinha, ela dá uma olhada no jornal sobre o balcão, provavelmente deixado por Adam antes que ele ouvisse a sirene vermelha. Nele tinha uma pequena nota, dizendo que os casos de desaparecimento de crianças estavam aumentando drasticamente em Nova York. Segundo a polícia, as ocorrências estavam sendo avaliadas, mas nenhum contato por parte dos criminosos foi feito. Os pais estavam abalados e não queriam dar entrevistas. Apenas pediram para entrarem em contato caso vissem uma das crianças da foto.

D sentiu um calafrio estranho e, de repente, lembrou-se do pesadelo que teve naquela manhã. Sabe aquele ditado “eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem”? Ela teve um mau pressentimento e não queria ligar isso a nada. Mas tem horas que toda sua convicção em algo se torna um pouco duvidosa. Esse era um desses momentos.

Adam já tinha subido para fazer seu kit sobrevivência a perigos extremos, quando Bruno chegou batendo a porta. D acordou de seus devaneios.

-Hey, o que houve? – ela pergunta largando o jornal de volta na bancada.

-Como posso começar? – “lá vinha chumbo grosso”, pensou D – Primeiro, papai esqueceu de mim. Rita aparece de última hora para me levar pro jogo. Quase perdi a vaga por causa disso. Eles vivem avisando que horário é muito importante e blablabla.

-Huum. – D apenas balançava a cabeça.

-Meu time perdeu de goleada e todos me culparam porque eu não aqueci direito e estava tendo câimbras a toda hora. Pra completar, a prova de chinês estava impossível e, graças ao jogo horrível, não me concentrei na hora, esquecendo como se conjuga os verbos impessoais.

-Meu filho, mil desculpas. Seu pai e eu não tivemos um leve esquecimento, fomos chamado de última hora para uma conferência da área de markenting empresarial.

-Pais... – ele balançou a cabeça com pesar – vocês deveriam me dar a prioridade sabia?

-Ai meu Deus, quanto drama! – D se move rapidamente para dar um abraço no filho.

Nesse momento, Adam desce com parte de suas malas pronta. Bruno vê e logo abre o sorriso:

-Pensei que só iríamos viajar amanhã! Oba, vou pegar os meus brinquedos novos para mostrar pro Arthur e pro Henrique...

D e Adam se entreolharam, eles ainda não tinham discutido isso. Com quem Bruno iria ficar durante a nova missão? O menino nem reparou na expressão dos pais, ele subiu correndo para seu quarto. O casal passou a falar aos sussurros:

-Eu pensei que ele ficar por aqui era o melhor a se fazer... – Adam começou – Afinal, Jeff fugiu de uma prisão na Itália. Não sabemos exatamente aonde ele foi, mas e se ele continuou por lá? Escondido?

-Ao mesmo tempo, deixá-lo aqui sem cuidado especializado... – D estava ponderada, os sentidos aguçaram – Estaremos muito longe. E só Deus sabe por quantos países passaremos, ou quanto tempo estaremos fora. Você não acha que ir à Itália seria bom pra ele? Ficar perto dos primos. Além de ser uma forma de distração pros três. Estaremos todos fora. Só não sugeriria isso à Nina, porque provavelmente Matt não gostaria da ideia do filho longe.

-Perfeitamente compreensível. – Adam falava enquanto olhava para um porta-retrato na sala. Na foto, todos reunidos: D, Adam e Bruno; C, Bernardo, Arthur e Henrique; Nina, Matt e Luti; R, John e Catarina; e May, Leo, Clarice e Layla. Ele sempre achou que formavam uma grande família de amizade, mesmo o mero detalhe de Bernardo e Adam serem primos. – Tudo bem, levamos ele para ficar com os primos.

Bruno desceu com uma mochila cheia e toda deformada pela quantidade de brinquedos que tinha dentro dela. Estava pesada e o menino recebeu uma bronca por ter tentado carregar tanto peso sozinho.

-Ih, esqueci meu jogo novo de Fight Ultimater Club IV! – ele subiu as escadas novamente.

-Não me pergunte como, mas isso me lembrou de que precisamos falar com I. Queria uns brinquedinhos novos também. – D pisca seus olhos puxados. Tática de convencimento número 1.

Adam revira os olhos e faz cara de sofrimento, até que por fim diz:

-Ok! Mas não reclame se eu colocar coisas que você não goste. Pensarei em ME agradar. – ele lança um sorriso malicioso, aquele que faz D derreter.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

"Too many people living in a secret world ..." (Parte 3)

C e Bernardo não perderam tempo e foram direto para o complexo de segurança. O novo delegado parecia muito chateado com a presença deles. Ele estava tentando reestabelecer a seriedade do lugar e se achava completamente capaz de resolver o caso de fuga sozinho. Mesmo a contragosto, ele os levou direto para as celas, agora, vazias.


-Aqui está a cela de Jeffrey Hoggins. – disse o delegado.

-Ele tinha algum companheiro de cela? – Bernardo perguntando enquanto olhava os cantos minuciosamente.

-Claro, que não! Essa é a ala individual. – o delegado pareceu mais insultado ainda.

-Mas, ele tinha algum tipo de contato com os outros presos? – C estava do lado oposto, procurando embaixo dos lençóis e travesseiro.

-Bem, de acordo com o registro do oficial que ocupava o cargo anteriormente, ele não poderia ter contato com ninguém que não fosse da polícia. Mas depois do primeiro ano aqui, parece que ele apresentou um bom comportamento.

-Isso é um ABSURDO! Ele não poderia ter sua pena amenizada. Ele planejou destruir o mundo. DESTRUIR! – C explodiu.

-Olha, madame, não tenho nada a ver com isso. A má gestão não foi minha – ele se aproxima e fala em um tom mais baixo, só para Bernardo e C escutarem – Dizem por aí que o Sr. Hoggins ajudou o antigo delegado a colocar ordem por aqui.

-Como assim? – eles perguntaram também com um cochicho.

-Alguns presos eram problemáticos e estavam criando confusão praticamente todos os dias. O Sr. Hoggins sugeriu um esquema diferente por aqui, uma psicologia estratégica que fez os detentos ficarem pianinho – o casal ouvia a tudo atentamente, sem dar um pio, o delegado continuou: - Os carcereiros disseram que a diferente era gritante e que as coisas ficaram extremamente boas.

-Muito bem, senhor. Será que poderíamos dar mais uma olhada nas outras celas? – perguntou Bernardo.

-Ah, e também espero que não se incomode de estarmos coletando evidências.

-Fiquem à vontade – C e Bernardo olharam para ele com o semblante de quem espera serem deixados sozinhos - Eu esperarei por vocês no corredor – ele completou a frase e se retirou, em passos lerdos, tentando observar ao máximo os dois agentes.

Assim que não se via mais o rastro do gordinho delegado, eles voltaram a analisar a cela.

-Isso é melhor do que eu imaginava para um preso – começou Bernardo.

-Olhe, todas essas coisas! - C apontou para o que parecia ser uma escrivaninha, com cartas e embalagens abertas.

-Ele recebia visitas?

-Bom, se eu entendi o esquema do antigo gestor, Jeff não deveria, mas tinha certas regalias. Por quê?

-Essas coisas... – Bernardo mexia dentro das caixas abertas, algumas lembranças e embalagens de comida vazias – Não se tem isso por aqui. Geralmente, você recebe os “brinquedinhos” de quem vem de fora.

-Ele também tinha revistas e vários livros. – C olhava dentro de outra caixa – Não posso dizer que ele tinha mau gosto. Ei, isso parece um recibo. E isso um número escrito, mas logo depois rabiscado por cima. Vamos pegar isso para analisar no laboratório.

Depois de mais um pente fino na cela de Jeff, o casal decidiu que era hora de conferir as outras celas dos fugitivos.

-Vejo, um padrão aqui – observa C - Olha como tudo é tão impecável. Não parece nada com as celas comuns pelas quais passamos ainda pouco no corredor.

-Elas parecem mais... arrumadas? – Bernardo também passa a observar de maneira mais crítica. – Veja, mais caixas com os mesmo produtos.

-Definitivamente, Jeff não estava pagando seus pecados por aqui. Hey, essas duas revistas! Elas estavam em todas as 4 celas. – C puxa as revistas que estavam jogadas debaixo da cama. A capa dizia: Bora Bora, os 5 melhores resorts de luxo para não se fazer nada além de sombra e água fresca. – Bernardo, acho que temos nosso próximo destino.



**

Nina voltara para casa. Sua primeira providência foi fazer as malas. Em meio à bagunça que estava seu quarto - com todas as portas dos armários abertas, roupas jogadas de maneira que cobriam a cadeira da penteadeira e a cama -, Matt entra e se assusta com a reviravolta que acontecera no seu quarto.

-Uou!

-Desculpe, amor. Mas são aquelas emergências. – ela lhe lança um olhar de extrema seriedade nos pontos certos da frase.

Matt faz um pequeno muxoxo:

-Logo, hoje que tinha preparado uma surpresa? –ele abraça a mulher fazendo-a largar duas calças jeans no chão.

“Foco, Nina” - pensou ela – “Droga, porque essas partes nunca são fáceis, mesmo depois de anos de prática?”

-Você sabe que esse meu trabalho é imprevisível. – ela tentou evitar o contato com os olhos de cachorro com o rabo entre as pernas de Matt.

-Ei, achei que você não poderia me contar nada sobre esse seu “trabalho” – ele fez as aspas com os dedos – E aquela história de multa e/ou morte iminente? – ele abre um sorrisinho malicioso.

-Depois de quase 10 anos de casados você ainda faz essa piada, sério mesmo? – Nina tentou fazer um ar de indiferença, mas era difícil. Quase uma década depois ela ainda não tinha criado imunidade aos joguinhos emocionais que Matt fazia.

-Brincadeiras à parte – Matt voltara à maturidade que lhe pertencia -, nunca sei o quê dizer em situações como essas: “não vá” ou “só volte quando bater muito bem nos vilões”.

Nina apertou Matt em um abraço de cumplicidade. Era incrível o que aquele cidadão comum tinha enfrentado em sua vida conjugal. É certo que desde que os dois casaram Nina não saía muito para suas longas missões, mas uma vez ou outra ela se viu obrigada a largar Matt e Luti em casa e sair correndo mundo a fora caçando caras maus. Ela não poderia reclamar, Matt era um companheiro maravilhoso, nunca perguntou diretamente o que ela fazia nas horas vagas quando não ajudava a tomar conta do restaurante ou dos problemas digitais dos amigos. Contudo, ele não era nenhum idiota, entendia as pistas que Nina deixava subentendidas.

O abraço tornara-se um beijo carinhoso. Luti entra no cômodo bem nessa hora:

-Eu diria get a room, mas seria ridículo.

-LUTI! – os pais falaram em reprovação – Podemos não te obrigar a nos chamar de senhor e senhora, mas com certeza queremos respeito, ouviu bem? – Matt tenta colocar limite.

-Aonde você aprende essas coisas? – Nina perguntou. – É na televisão, não é?

-Não, na vida. – Luti responde despreocupado, mas percebendo uma nova cara fechada dos pais completa – Mesmo assim, me desculpem.

O menino nota pela primeira vez as roupas espalhadas pelo quarto. E pergunta empolgado:

-Vamos viajar?!!

-Eu, sim. Você, não. – como o clima tinha sido quebrado completamente, ela volta ao dobramento de peças de roupa.

-Isso não é justo!! Por quê, mãe?

-Porque não estamos de férias. Muito menos o senhor, que está com notas muito ruins em Matemática e eu ainda não o vi chegar perto dos cadernos. Estou indo resolver uns problemas que apareceram de última hora. Não tenho data certa para voltar.

Matt estava de novo com um ar contrariado e dessa vez teve Luti como parceiro para a cara de cachorro abandonado.

-Vocês dois não tem jeito. Olha, prometo que quando eu voltar, teremos aquelas férias que vocês queriam desde o ano passado, ok? – os dois abriram um sorriso mais animador. Ela sabia lidar com seus meninos.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

"Too many people living in a secret world While they play mothers and fathers" (Parte 2)

R pilotava o barco, rodando o leme de uma maneira meio aleatória, fazendo o barco inclinar de uma lado para o outro. Sua mente estava longe, tentava lembra qual fora sua última missão, tentando lembrar como executar aquele golpe que tinha aprendido num filme antigo.... Seu fluxo de pensamentos é disperso por um cutucão na costela:


-Ai, Catarina!

-Você está fazendo aquela coisa chata com o barco de novo, de mexer de um lado pro outro, mãe.

-Desculpe, foi sem querer.

-Como você quer que eu termine de ver a maratona de Woody Allen se eu não consigo ficar parada na frente da TV?

R dá um leve sorriso – orgulho, sabe -, mas ela tenta disfarçar, porque ela adora quando sua filha se finge de séria. Não adiantou todas as tentativas de deixá-la cool, macacão AC/DC and all that stuff. John acabou se tornando aquele pai careta que adora mimar sua pequena. R ficou meio desapontada com a revelação, mas para aliviar o lado dele, John também foi pego de surpresa. Nunca tinha imaginado que muitos dos seus conceitos iam mudar a partir do momento que pegasse no colo aquela coisa miúda que ele e R haviam gerado, mesmo que por acidente. “Filhos? Acho que não saberia lidar com crianças”, respondia ele a todos que perguntavam sobre o passo seguinte ao casamento.

Catarina volta para dentro meio saltitando, era uma criança afinal. Mas em menos de 5 minutos ela está de volta à cabine, ofegante:

-Mãe? Tem alguma coisa errada com a TV...

-O que você fez?

-Por que você sempre me acusa?

-Como se eu não conhecesse suas travessuras...

-Dessa vez não fui eu! Ela tá apitando e piscando numa luz vermelha!

R entendera antes mesmo de chegar à sala de vídeo. Chegou a hora de matar as saudades da aventura.



**

C estava se aventurando na cozinha. Nas raras vezes que tentou, o resultado de sua pasta tinha sido bom. Mas, naquele momento, fazia sua especialidade: a palha italiana. Esse era um pedido, quase uma intimação de seus filhos, Arthur e o aniversariante, Henrique. Arthur tem 8 anos e 11 meses e Henrique é 9 meses mais novo. C e Bernardo não esperavam que a recuperação pós-parto fosse tão rápida. Eles imaginavam que as coisas só voltariam ao normal depois de 8 semanas. Isso não é considerado um erro de cálculos, seria mais uma brincadeira da natureza.

Bernardo estava montando o jardim. A festa, que deveria ser surpresa – mas acabou sendo descoberta pelos meninos -, estava praticamente pronta. As bolas presas às árvores, a mesa cheia de docinhos deliciosos encomendados diretamente do Brasil - “como esse povo vive sem brigadeiro?”, pergunta-se C -, um bolo com formato de moto e brincadeiras espalhadas por todos os lados. Logo os amiguinhos estariam chegando e correndo pelos cantos.

May e Leo foram os primeiros a chegar. Afinal, moravam ali do lado. C identificou a chegada de May graças ao barulho das discussões entre Clarice e Layla com Arthur e Henrique. Os pais não apartariam mais essas brigas. No final eles sempre se entendiam. D, Adam e Bruno não apareceriam. Bruno estava numa semana conturbada de provas e afazeres e Adam tinha acabado de voltar de uma missão longa, mas com certeza eles chegariam à Itália para o final de semana, mini-férias em família antecipadas.

C não acreditava que com os pensamentos tão feministas que sempre tiveram, suas vidas fora do escritório seriam resumidas a família, enquanto a parte de combater o mal ficaria com os homens. Ela ainda não achava isso certo.

-Ciao, sorella. Come sta la pagli? - May entra na cozinha.

-Oh, ciao. Ah, bem normal...

-As meninas não vêm, não é?

-Não. R até disse que tentaria, mas, devido a mudança de ventos do Atlântico Norte, a viagem atrasou. Algo do tipo. Enfim...

-Que pena. Estava com saudades de nós todas juntas...

-Como está o escritório? - C tentava conversar amenidades do cotidiano. Mesmo que amenidades naquele ramo não sejam exatamente uma coisa normal aos olhos dos outros.

-Muita burocracia e muita gente que não sabe receber ordens. Ou seja, o de sempre. Sabe, eu sinto falta de algumas missões.

-Oh, não me diga...

-Ridícula.

-Todas nós, fidanzata. - C e May soltaram um longo suspiro.

Arthur e Clarice entraram correndo pela cozinha:

-Mãe!! - os dois gritaram – Tem alguma coisa muito errada com a lâmpada da biblioteca!

Elas se entreolharam um pouco tensas e correram para o andar de cima. Encontraram com Bernardo no meio do caminho. Leo tinha ficado tentando manter as crianças afastadas, uma tarefa e tanto. Os três chegaram à grande biblioteca iluminada com uma luz vermelho piscante. Os três saíram correndo. A festa estava temporariamente suspensa.



**

Nina e D estavam sentadas na sala azul de reuniões, lá onde tudo – inclusive a decoração – era em tons variados de ciano. Elas aguardavam as instruções da possível missão que vinha por aí:

 O que você acha que é? - D olhava preocupada para a televisão desligada.

 Não sei. Mas, com certeza para nos chamarem, deve ser algo sério demais para os novatos fazerem.

 Posso confessar uma coisa? Estava sentido falta disso: essa emoção. Ansiedade, essa parte boa de descobrir que tem algo errado e tentar de tudo para consertar. Colocar o bandido na cadeia e ainda ter a sensação de trabalho cumprido e de que...

 O mundo está salvo, pelo menos, por enquanto. - Nina completou com um leve sorriso no rosto – Sim, você tem razão estou morrendo de saudades disso também.

 Espero que isso não seja aquela coisa estranha de pessoas com o mesmo nome....

 Pode apostar que não. - C interrompe a conversa aparecendo na tela de LED da sala – Isso é coisa de espiãs internacionais que não se cansam de ação.

May aparece logo em seguida na tela compartilhada. Bernardo abre outro quadradinho na tela. Então, só ficaria faltando R, pois Adam acabara de entrar na sala e abrindo mais um quadrado próprio.

-Já que estamos todos aqui, será que não dava pra gente já saber do que se trata? - D falou.

-Calma, mulher. Estou baixando as instruções aqui ainda. E sabe como é essa coisa de fuso horário mundial. Nem sei ainda de onde o alerta vermelho veio! - May tentava colocar panos quentes. Ela sai por uns instantes da parte visual da câmera e volta com uma cara não muito contente. Não se esperaria menos.

May se enquadra novamente e começa a falar:

-Parece, que temos um probleminha com a prisão de segurança máxima. Jeff fugiu, junto com outros 4 presos.

-O quê?! - Todos estavam processando a informação.

-Éééé... Isso mesmo, foi na madrugada de ontem pra hoje. Mas os guardas só se deram conta na revista da manhã, antes do banho de sol. Preciso arranjar gente pra treinar melhor essas pessoas. - May soltou o desabafo como uma conclusão.

-Qual o perfil dos novos comparsas? - perguntou Adam.

-Hum, dos mais variados: temos um cientista, um engenheiro mecânico, um montador de bombas e artefatos explosivos, um hacker e, claro, um ex-espião internacional de alta patente. Preciso dizer que todos tem o adjetivo malucos-psicóticos atribuído em suas fichas?

-Acho que todos nós teremos que ter cuidado redobrado. - falou D – Jeff não parece ser o tipo de pessoa que deixa as coisas de lado.

-Temos que analisar as condições de fuga. - C pegou um bloquinho e começou a fazer anotações fora de ordem – Acho que deveríamos checar a penitenciária e ver se descobrimos alguma pista de aonde ele pode ter ido. Sabe, checar recortes de revista, livros, páginas de jornal... Tenho certeza que se ele conseguiu fugir deve ter recebido ajuda externa e uma colaboração interna. Desculpe, May – ela acrescentou no final.

-Bom, não vou levar pro pessoal, mas pode apostar que umas cabeças vão rolar por lá. - May tentou falar de maneira simpática.

-Mesmo sem nenhuma prova concreta, eu acredito que ele vêm planejando isso há tempos – diz Nina – Pensem comigo: depois de quase 10 anos preso, só fugir agora? Não faz sentido.

-E desde quando cabeça de bandido tem lógica? - Bernardo diz em tom jocoso. - Me parece que essa foi a melhor chance que ele teve nos últimos anos. Ele simplesmente foi lá e conseguiu.

Ninguém voltou a falar, mas isso não significava que era a opinião geral.

-Então ficamos assim: C e Bernardo vão para a penitenciária dar uma olhada nas coisas e começara investigação; D, Nina e Adam venham para cá imediatamente para podermos termos uma base e uma equipe completa; Provavelmente, R está a caminho; e quando tivermos mais informações agiremos o mais rápido possível. Não se esqueçam que se chamaram a gente com tanta urgência, é porque somos bons. Vamos mostrar que mesmo com alguns anos a mais ainda podemos partir pra ação!

Todos confirmaram as palavras de May com um leve aceno de cabeça e desligaram.

Ia ser difícil deixar as crianças afastadas por tanto tempo, mas já estava na hora de cortar o cordão.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

"Too many people living in a secret world While they play mothers and fathers"

O despertador toca às 6 da manhã. D o coloca no modo soneca e volta-se para o vulto coberto pela colcha até o pescoço. Adam dormia feito uma pedra como sempre. Ela percebe que tem outra pequena montanha coberta entre o marido e ela.


-Bruno, o que você está fazendo aqui? - D sussurra.

O garoto apenas balança a cabeça de maneira afirmativa, nada a ver com a pergunta. D desiste e volta a fechar os olhos. Nesse pequeno intervalo ela tem um sonho conturbado. Muita confusão, pessoas correndo, outras sendo mortas. Tudo era caótico, mas silencioso. Era como assistir a um filme de terror mudo e sem a trilha sonora ao fundo. O despertador toca novamente.

Ela senta na cama num ato impulsivo de agir. Volta a analisar o quarto, que não demostra perigo algum. “Foi só outro pesadelo”, pensou. Ela se espreguiçou e pôs-se para fora da cama, recomeçando sua rotina.

-Bruno, filho, tá na hora de levantar.

O menino repete os mesmo gestos da pergunta anterior. D usa sua cartada:

-Você pode ficar jogando videogame até a hora de sair. Começando agora.

Meio tonto, ele se dirige ao banheiro e em poucos minutos já se pode ouvir o barulho das configurações do jogo no andar de baixo.

-Vai ser difícil acabar com o vício dele por esse jogo desse jeito. - Adam balbucia palavras que pareciam dizer isso.

-Você o viciou, não ponha a culpa pra cima de mim. Eu apenas não quero que ele se atrase e incrivelmente, ele fica pronto antes de todo mundo só pra ter mais tempo jogando.

-Qualunque...

-Como foi ontem? Chegou muito tarde?

-Sacal - Adam fica mais acordado – Isso me lembra que eu encontrei Bruno dormindo no sofá quando eu cheguei.

-Isso explica porquê ele estava aqui. - D sabia que Adam era volúvel às chantagens emocionais de Bruno.

-Eu não consegui deixá-lo no quarto dele. Ele ficava me bombardeando com perguntas que eu não sabia a resposta e isso começou a me preocupar, temos que combinar melhor as histórias. Da última vez ele suspeitou de alguma coisa, tenho certeza.

-Eu disse o de sempre: “Papai foi fazer uma viagem de emergência resolver problemas da empresa e não tem hora para voltar”.

-Acho que isso não cola mais. O garoto tem quase 8 anos, não é tão fácil enrolar.

-Eu que o diga. - D dá um pequeno beijo em Adam – Enquanto não resolvemos o assunto, volte a dormir. Hoje você vai levar Bruno para o Campeonato de Futebol de tarde. Depois ele tem prova de chinês. NÃO se atrase.

D já está devidamente vestida para trabalhar em seu emprego comum. Desde que ficara grávida, ela não entrava firme em uma missão com as outras meninas. O chamado da natureza tocou quase simultaneamente para todas elas. As diferenças foram de meses, chegando ao máximo de um ano. Todas decidiram que as grandes missões conjuntas – que costumavam levar grande parte do tempo, ficando meses longe– estariam temporariamente fora de questão, entrariam numa licença maternidade por tempo integral. Como nenhuma conseguia ficar parada por completo, elas seguiram com suas carreiras alternativas ainda no Esquadrão de Defesa Mundial (EDM), naquelas que não envolviam trabalho de campo na espionagem mundial. Já fazia um ano que D não entrava em NENHUM tipo de tarefa de espionagem (sozinha ou em equipe), seu corpo tinha uma comichão.

Descendo as escadas, D avista o filho pulando de um lado para o outro, literalmente dentro do jogo. Pode ser coisa de mãe que gosta de lamber a cria, mas ela parou no meio do caminho para analisar a criança. Bruno tinha alguns traços do pai, porém era inegável a forte genética oriental da mãe, os olhos amendoados eram a maior prova disso. Aquela teoria de que meninos puxam à mãe e meninas puxam ao pai parecia se aplicar naquele contexto. Apesar de D ter torcido para Bruno ter algum gene recessivo e ter os olhos levemente claros, a Biologia seguiu seu curso e o gene dominante dominou.

A mensagem de seu celular trouxe D de volta à realidade, estavam levemente atrasados.

-Bruno, está na hora. Vamos embora.

-Ahhh, mãe. To no final da fase 47, falta só acabar com esses monstros aqui. Quando eu chegar no 48 eu juro que paro!

-Não temos tempo pra isso, filho. - D pega o joystick em forma de arma e atira sem dó nem piedade nos vilões de mentirinha. O menino olha embasbacado para a agilidade com que D acaba com todos, sem deixar passar um se quer. Até que o nível acaba e o jogo registra um novo recorde de pontuação. - Pronto. Pegue sua mochila e vamos, AGORA.

-Como você fez isso, mãe?

-Sorte de principiante?

D e Bruno estão no carro, a caminho da escola e, em seguida, escritório. O garoto ainda calado, tentando entender o que tinha acontecido naquele jogo.

Na porta do colégio, D dá seu avisos habituais:

-Se comporte. Não invente ideias. Ah, e não se esqueça do campeonato de futebol e da prova mais tarde. Seu pai vai buscar e levar você em todas essas tarefas.

Bruno revira os olhos, cansado de saber de sua agenda, e sai.

D se preparava para dar a partida no carro, para enfim ir para seu trabalho, quando uma luz vermelha no painel acende. Ela não piscava há muito tempo. Aquilo era um sinal de que estava na hora dela finalmente tirar a poeira e voltar a kick some asses.


**

Nina estava sentada no chão do sótão, arrumando uma pilha de caixas velhas. Na verdade, ela estava procurando uns documentos para o restaurante, mas acabou se vendo presa com a bagunça. Até que, no meio de uma daquelas caixas, ela acha a caixa que Matt sabia que não deveria e Luti jamais iria mexer. Num rompante, o ar de nostalgia tomou conta de Nina. Ela decidiu abrir a caixa.

Dentro, muitos DVD's e CD's com o backup de seu computador inteiro, com as informações de antigas missões – fichas dos bandidos, esquemas táticos das missões, entre outros conteúdos sigilosos -, algumas peças de disfarces de missões inesquecíveis (onde o mico fora tão grande que até deveriam ser esquecidas).

O momento de lembranças foi interrompido por Luti que chamava do andar de baixo. Nina rapidamente colocou as coisas de volta na caixa e a empurrava para trás das outras, tentando escondê-la temporariamente. Em vão. O cabelo castanho e ondulado começa a aparecer pelo buraco, em poucos segundos, os olhos escuros procuravam pela mãe. Nina se assustou com a chegada silenciosa do menino. Ela lançou seu olhar de reprovação para ele, que sorriu simplesmente com os olhos, que agora estavam meio cor de mel com os raios de sol que adentravam pela janelinha.

-Luti, o quê eu disse para você?

-”Nunca subir no sótão”?

-Exatamente, e o quê você acabou de fazer?

-Mãe, dá um tempo. Eu tinha 2 anos quando você disse isso. Já sou grande.

-Um gigante de 8 anos. - Nina ironiza.

-Então, você não vai se importar se eu disser que o telefone está fazendo um barulho estranho e está piscando feito um doido. Até tentei tirar da tomada, mas não adiantou não...

Nina arregala os olhos e desce correndo para ver ela mesma, não sem antes esperar que Luti saísse e ficasse longe daqueles arquivos. Ao chegar na sala, o alarme vermelho ressoava pela casa inteira.

-Luti, vai pro Restaurante com seu pai. E fica lá com ele, enquanto eu tento resolver isso, ok?

-Mas...

-Agora.

-Vocês adultos andam cada dia mais estressados, viu.

Luti sai e Nina corre para trocar de roupa e sair. Ela pega o carro e segue um caminho que não toma há muito tempo. Tinha aquela sensação de “será que estou na direção certa?”. Seus velhos instintos secretos não falharam, ela chegou ao seu destino.

continua...

You're so lucky I'm around - Parte 12 (final)


 - Que tal alguma coisa dos Strokes? – ela perguntou. Os pés cruzados em cima de um puff no meio dos dois. – Acho que eles tem uma batida legal para um comercial, não?
- Não acho que o que a gente precise seja de uma “batida legal” – ele respondeu, dando um gole no seu café.
E lá estavam os dois, sentados no canto de uma cafeteria famosa, próxima ao escritório. Estavam cansados, discutindo a mesma coisa há mais de meia hora, sem conseguir uma resolução. D. já tinha sugerido Green Day e Kings Of Leon. Eduardo tinha retrucado com Coldplay e Foo Fighters. Nada resolvido.
- A gente precisa do que, então, Eduardo? – D. perguntou sacudindo um pouco seu copo de café.
- Não quero que nosso comercial acabe com cara de comercial por causa da música que a gente colocar nele. A chave da propaganda é essa, você não acha? Ela não ter cara de propaganda? Ela ter essa pegada mais dramática, mais sentimental, mais próxima do telespectador? – ele perguntou, de repente cheio de gás.  – Ou você gosta daqueles comerciais ridículos de super-mercado?
D. abaixou o rosto para rir.  Não queria que ele pensasse que era o motivo da risada, quando na verdade estava lembrando do dia que contou para as amigas que tinha pavor de acabar frustrada na carreira, trabalhando com comerciais de supermercado, “que não precisam de nada, só de um cara gritando e uma animação muito mal feita no pior programa de animação que existe”.
- Você tem razão. – ela levantou a cabeça para responder. – Talvez devêssemos escolher alguma coisa dos Beatles.
- Não. – ele respondeu de imediato. – Beatles não.
- Por que não? As músicas deles são permeadas desse sentimentalismo que você está procurando. Aliás, acho que uma menos conhecida deles talvez fosse a melhor idéia. Que tal alguma coisa como I’ll be back.
- Não estamos querendo dar um ar de exterminador do futuro, né? “I’ll be back é tenso”.
- Deixa de ser idiota. A música é ótima, tem um rítimo bom e acho que a letra combina com o comercial. É sobre uma pessoa apaixonada, que tem medo de ter o coração partido de novo. E tem uma parte que diz assim “If you break my heart I’ll go, but I’ll be back again”.
- Que você acha que se encaixa na parte que a mulher briga com o homem e pega o carro dele, e sai de casa mas encontra com ele logo na primeira parada no posto?
D. assentiu. O comercial era sobre um novo programa para lembrar do dia que deve-se colocar combustível, calculado via as distancias percorridas pelo carro e pelas informações captadas. Ele é instalado no veículo e as informações recebidas por celular, computador ou qualquer outro tipo de aparelho eletrônico registrado. No comercial, os dois brigam, a mulher sai de casa, pega o carro na garagem e sai dirigindo. O marido ri marotamente, abrindo o celular e olhando uma mensagem antiga que avisava da falta de gasolina “o carro só poderá rodar mais X quilômetros”. A cena corta para a mulher, andando até o posto de gasolina e gritando para o frentista que está sem gasolina há uns 50 metros dali. É quando ela vê o marido vindo na sua direção, com uma garrafa pet cheia de gasolina e um sorriso no rosto. E aí entram as letras sobre o produto e o narrador falando algo engraçadinho.
- E você não acha? “but I’ll be back again” e tal!
- Não... Beatles não. Que tal The Who? – ele trás a velha discussão a tona.
D. não tem absolutamente nada contra The Who. Tem até um cd ou outro da banda. Mas acha insuportável essa mania que Eduardo tem de tratar The Who como a banda mais maravilhosa de todos os tempos, quando ela poderia nomear no mínimo 15 bandas mais maravilhosas que The Who, inclusive The Beatles.
- The Who? Sério?
- É. Aliás, eu tenho uma idéia ótima. Peraí. – ele disse, puxando o celular do bolso. – Eu acho que tenho essa música aqui em algum lugar. Aham, achei. Ouça.
Então ele aperta o play no aparelho e os dois chegam mais perto um do outro e mais perto do aparelho, que ele leva para ficar entre os ouvidos dos dois.
D. escutou atentamente, enquanto sentia a respiração de Eduardo novamente esquentar sua nuca. Escutou com mais atenção ainda a parte que dizia “when tragedy befalls you, don’t let it drag you down. Love can cure all your problems, you’re so lucky I’m around”. Tentou mesmo se manter indiferente e evitar pensar que além daquela música servir para o comercial, “love can cure all your problems, inclusive a falta de gasolina”, ela também servia para a vida dela. D. tinha esse lado da vida meio incompleto mesmo. Confuso, problemático. As coisas estavam dando certo, mas sempre muito pesadas. Sempre com muita necessidade de fugas esporádicas, de falar com as amigas, de respirar fundo e desejar estar numa daquelas ilhotas da Grécia sobre as quais escreveu para a revista. E as duas últimas semanas haviam sido mais leves... E D. sabia porque. Porque tinha alguém pra compartilhar o peso. Para alegrar o dia. Uma das únicas coisas que a fez levantar feliz todo dia, como ele já havia sido em outros dias, num outro tempo... Por mais que ela tenha tentado fugir disso...  “Let my love open the door to your heart”.
Eduardo já tinha ouvido aquela música um milhão de vezes, mas aquela vez em especial o deixou inquieto. Especialmente os primeiros versos “When people keep repeating, that you’ll never fall in love. When  everybody keeps retreating but you can’t seem to get enough”. Arriscou um olhar discreto para D, que parecia concentrada em ouvir a letra da música. As duas semanas tinham passado mais rápido do que ele planejava, não sendo nem um pouco longas como ele havia previsto. Eles se deram bem. Bem demais. Duas semanas simplesmente não era tempo suficiente pra ter certeza, mas Eduardo não achava e sim sabia que D. tinha alguma coisa de diferente. E ele queria descobrir direito o que era. Ele precisava descobrir direito o que era. Simplesmente porque agora não fazia mais sentido as pessoas falarem “you’ll never fall in love”, porque agora ele sabia que era mentira. Desejou ter sido mais amigo de D. no pequeno periodo que eles passaram juntos. “Let my love open the door to your heart”.
A música terminou, mas nenhum dos dois se mexeu. O refrão ressoando na cabeça. Ele queria dizer alguma coisa, mas não conseguia. Apavorada com as revelações da música mas especialmente como a idéia de ter que apagar Eduardo da mente novamente, coisa que ela já havia feito anos atrás quando eles pararam de estudar juntos, D. juntou toda coragem do seu corpo e fingiu que o café era vinho. Então disse:
- Você acha que há alguma possibilidade da gente se ver algum dia depois que terminarmos esse trabalho?
Foi o mais perto de um convite para sair que ela conseguiu chegar.
- Talvez a Joana nos coloque para trabalhar juntos novamente. – ele respondeu, puxando o celular para perto novamente.
- Não. – ela interrompeu. – Eu quero dizer informalmente. Acha que há possibilidade?
Ele levantou os olhos do aparelho para encara-la. Ela piscava os olhos nervosamente esperando uma resposta com as bochechas levemente rosadas.
- Há. Há sim. – ele respondeu. – Alta.
Então se inclinou para beijá-la.

FIM.