segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Só ficção de papel vagabundo I


("Música Início" )
Fazia frio naquela noite no país quente onde morava. O único que me satisfazia era café. É verdade que aquele clube de strippers já estava ficando enfadonho. A diversão que eu buscava quando fui parar num palco, me esfregando em postes já havia terminado. Não tinha mais graça rir da cara dos meninos bobos, excitados e com medo de mim... Não era tão divertido como antes flertar com homens mais velhos e receber por isso. Eram quase cinco da manhã e o clube já estava vazio, eu escrevia sentada à mesinha perto do bar. Servia-me de cigarros (muitos deles), uma caneca de café, acompanhada por papéis, uma caneta e um isqueiro acesso próximo a minha letra. O clima naquele grande salão escuro era totalmente o oposto do corriqueiro, das horas de movimento. Eu gostava da agitação, da clientela que rendia bons personagens para meus contos. Queria inovação, talvez por isso tenha parado por ali. Não seria para sempre, como tudo em minha vida.
Naquela noite, saí do clube pouco antes das cinco. Caminhei pela rua de paralelepípedos ainda escura. Não estava chovendo, apesar disso, quando respirava, saía fumaça de minha boca, devido ao tempo muito gelado. Calmamente ia me aproximando do metrô quando percebi que havia um homem encasacado, pouco atrás de mim, seguindo na mesma direção. Entrei na estação e corri para pegar o trem. O homem misterioso também o fez. Passei pela porta do vagão e sentei-me no primeiro lugar que me apareceu. Não havia ninguém esperando o trem. Nem mesmo um segurança estava por lá. A única pessoa era o sonolento vendedor de tickets. O misterioso sentou-se num banco que o deixava bem de frente a mim.
Ao longo de dezessete anos nunca me aprofundei em nada. Larguei a escola com quatorze e fugi de casa. Meus pais nunca me aceitaram verdadeiramente. Sempre sofri por ser diferente do que eles esperavam que fosse. Algo me afligia. Na minha opinião, eu sofria de algum problema de saúde raro e desconhecido, que nunca foi diagnosticado pelos médicos. Desde minha infância, era introspectiva, sem amigos.
Dentro do vagão do metrô, o tal homem fumava e tinha uma barba por fazer, aparentava ter seus 50 anos. Percebi que nossos olhares se cruzaram, logo me virei para outro lado. Vi pelo canto do olho que ele permaneceu imóvel, com aquele cigarro na boca. Encostei-me no vidro e tentei relaxar. Foi quando ele retirou o cigarro e disse:
- Eu sei do que você é capaz. – Tragou e calou-se, como alguém que termina uma conversa. Não entendendo sobre o que ele falava, sem mudar de posição, com certo medo, retruquei:
- Oi? Não sei do que está falando.
Meu cérebro parecia normal, porém eu sempre passei mal, desmaiava. Eu tinha visões constantemente, assuntos futuros, que se concretizavam tempos depois. Eram como sonhos, premonições. Nunca comentei com meus pais sobre tal fato. Minha mãe nunca aceitaria que sua filhinha querida tivesse poderes mediúnicos, como cristã perfeita, ela freqüentava a missa dominical religiosamente. Assim fui embora com uma mochila, algumas roupas e papéis escritos de minha autoria.
Passei por muitos lugares, casas para desabrigados e até em um orfanato morei! Viajei pedindo carona na estrada. Nunca fui muito sociável talvez por essa minha mudança contínua de ambientes e amizades. Na verdade, nunca me adaptei a lugar ou a grupo algum, a única fiel a mim até os dias de hoje continua sendo a escrita, minha verdadeira amiga.
Desconfiada e preparada para correr assim que o trem parasse numa estação, olhei para ele, sem demonstrar meus temores. Ele por sua vez, me encarou, com olhos bem abertos e disse calmamente, como um assaltante ao abordar a vítima:
- Eu sei que você vê o futuro. Sei que pode ficar dias sem comer. Dias sem dormir. Sei que poderia fazer muito mais... - Congelei, arregalando os olhos, não consegui completar a pergunta:
- Quem é vo...? – As luzes do vagão começaram a falhar.
- Meu nome é Desmond Perth, muito prazer, Lucy. – Ele aproximou-se estendendo a mão, mais amigável. Eu a apertei, ainda um tanto quanto receosa, já emendando:
- Sr. Perth, como sabe meu no...?
- Bem digamos que eu poderia sabê-lo se quisesse, pois tal mal que te acomete também me atinge. Porém eu a visitei no seu “trabalho” (ele indicou “dois” com os dedos nas duas mãos, levantando-as numa tentativa fracassada de mostrar “aspas”), onde descobri seu nome. - Seu sotaque era estranho, como de alguém que não sabe se está falando português de Portugal ou do Brasil. Aquilo tudo me confundia cada vez mais:
- Tal mal que me acomete?- Indaguei. O metrô corria e por algum motivo a porta de nosso vagão não se abria nas estações. Desmond acendeu outro cigarro e calmamente começou a discursar:
- Sim, o que os humanos que te cercam chamam de doença é um dom. Você tem altos poderes psíquicos, não é verdade? Se souber controlá-los corretamente, sabe Ísis onde poderá chegar! – Senti um certo entusiasmo em sua voz. - Você, assim como eu, é o que nós chamamos de Jiin. Posso te ajudar a aprimorar seus dons.
- Não é permitido fumar aqui dentro. – me arrependi imediatamente após ter falado. Antes que ele pudesse responder, disse:
- Ísis? Jinn? – chacoalhei a cabeça
-Ísis, a deusa. Jiin, maior que humano e menor que Deus: nós. - Definitivamente, ele era quem precisava de ajuda. Pensei no turbilhão de informações que ele havia me dado. Com certeza, era a viagem de metrô mais animada dos últimos anos. Calei meus pensamentos quando:
- Que maravilhas são essas invenções humanas! Veja, já estamos quase do outro lado da cidade! – Ele apontava para o ‘mapinha’ das estações, impressionado.
- É... – Concordei para não apanhar. Que lunático!
- Bem, quero que ouça atentamente: Venho para te recrutar para o Chike, um centro de jovens jiins, onde todos aprendem a usar seus poderes para o bem, de forma certa. Lá é maravilhoso, pode ter certeza! - Ele sorriu, deixando transparecer uma sensação harmônica ao falar do lugar.
- Louco! Ele deve ter se drogado! – Pensei.
- Bem, é tudo tão rápido... Não sei o que dizer... – revirei os olhos.
- Diga que sim! – Desmond mostrou os dentes. Já havia apagado o cigarro.
- É que você é tão humano... Eu sou tão humana...
- Humanos? Nós? Veja, ma chérie, concentre-se e me diga se eu não já havia aparecido em algum de seus “sonhos”? – Desmond ainda vai me bater por rir de suas “aspas sempre fracassadas”. Era verdade, seu rosto era familiar, aquele metro, o clima, aquela situação também...
- Sim. Lembro-me vagamente de você.
- Como diriam os franceses, Lucy, c’est un dejá-vu. – Ele fez um biquinho para pronunciar... Eu ri. Percebendo, ele diz, desculpando-se:
-Um australiano falando francês... – Ele fez um gesto com os braços, indicando que não tinha culpa por ter nascido onde nasceu.
Isso explica o sotaque! Ignorando seu comentário, perguntei, acendendo um cigarro:
- E a minha bagagem? Como vou para lá sem nada? E onde é esse tal Chike?
- Você pode voltar depois para pegar seus pertences. Ah! Chike é um lugar desconhecido. Somente os que já foram para lá sabem como encontrá-lo. Bem, creio que já é hora de partirmos. Adoro essa máquina humana, já disse isso? Vamos? – Ele apressado era mais enrolado que de costume. Eu estava praticamente tonta.
- Vamos? Para onde? Como? Quando? – Estava perdida. O metrô havia parado e Desmond se levantou, como se fosse saltar do vagão, ele disse:
- Tente esvaziar a cachola. Eu só sei chegar a Chike desse modo. Segure minha mão. Não pense em absolutamente nada. - O trem voltou a andar, porém o Sr. Perth continuou de pé, me passava instruções como uma aeromoça antes da decolagem. Minha cabeça dava voltas, aquele ser era dos mais enrolados que já vi.
- Como não pensar em nada com tudo isso fervendo na minha mente? – Indignada perguntei, porém já não dava mais tempo. Entramos na escuridão do túnel e Desmond pegou minha mão e eu senti que saía do meu corpo...
- E você ainda elogia os metrôs... – Pensei alto antes de me desmaterializar junto a ele.
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Quando acordei, estava diante de uma gigante pirâmide que me parecia ser egípcia. O sol já estava se pondo. Abri meus olhos quando Desmond jogou água em meu rosto, de maneira desajeitada. Levantei-me e vi que alguns turistas e camelos em grupos passavam. Fazia muito calor e ainda vestia meu casaco.
- É aqui? – Perguntei àquele maluco, semicerrando os olhos contra o sol.
- Quase. Por este lado, venha. – Desmond me puxou pelo braço, enquanto eu retirava meu agasalho. Cruzamos a pirâmide, chegando do outro lado daquela imensa obra. Sempre me perguntei como haviam sido construídas aquelas formosuras – como diria o Perth sobre as invenções humanas.
- Bom, repare bem, não tenho o dia todo e você tem que saber disso quando vier sozinha: a partir daqui conte três passos. Três passos, me ouviu? – Ele parecia aflito, reparei que seu corpo, sem o casacão, era engraçado, pela presença de uma barriguinha saliente, enquanto seus braços e pernas eram finos.
- Sim. Mas eu não sei chegar até... – Tentei explicar que não saberia chegar até ali, aquele história de super poderes, era tudo muito confuso, a pirâmide...
- Não importa, concentre-se aqui: Depois dos três passos, toque nessa pedra. Nessa aqui, viu? – Ele parecia cada vez mais inseguro, como se a medida que a noite fosse chegando, ele tivesse que se apressar para me levar para o tal lugar.
- Entendi. E agora?
- Empurre-a para trás e esvazie sua mente. – De novo ele com isso de esvaziar a mente! É quase impossível esvaziar minha mente. Alguns turistas – desses de chapeuzinho de explorador e tudo - transitavam e não percebiam nosso movimento por ali. Olhei em volta e vi que eles eram como alienados, então respondi:
- Tudo bem, vazio. – Menti. Ele pegou meu braço, colocou no ‘tijolo’ indicado e disparou:
- Vazio, ham... Foco, ma cheri, pense no na... – Antes que ele pudesse completar, parei de ouvir. Senti, como num sonho, que estava fora de meu corpo, numa escuridão gradativa que vinha em minha direção... Breu.
Novamente Desmond jogou água em meu rosto e despertei:
- Você tem muito que aprender sobre desmaterialização. É muito comum, porém complicado para controlar, exige total controle da mente. – Ele colocou o indicador em minha cabeça. Eu tentava levantar, meio sem jeito, ainda tonta da viagem, disse:
- Onde estamos?
- Seja bem-vinda a Chike, ma chérie. – Ele me parecia cada vez mais desengonçado. Tinha algo de francês que eu gostava sobre o Sr. Perth. Ao dizer isso, abriu os braços, apontando para a enorme estrutura em sua frente.
Cocei a cabeça, sem entender direito, a passagem havia nos trazido para um lugar aberto, extenso, com uma construção talvez maior que a pirâmide. Dessa vez, não havia turistas ou camelos. A estrutura de pedra era construída na forma de pirâmides terraplanadas. O formato era o de vários andares construídos um sobre o outro, com o diferencial de cada andar possuir área menor que a plataforma inferior sobre a qual foi construído.
- É bonito aqui. – Elogiei. Havia um grande jardim na frente da ‘escola’. Chike era realmente maravilhoso. Passavam jovens ‘estranhos’, como mutantes, alguns voavam longe... Enquanto atravessávamos o jardim, em direção a entrada da pirâmide, Desmond desandou a falar, mesmo que eu não tivesse perguntado nada:
- Sim. É muito antigo, talvez tenha sido construído pelos sumérios, babilônios, assírios ou egípcios. Sabe-se que há muitas inscrições hieróglifos, provando que jiins são mais antigos que Jesus Cristo. – Escondi o riso, pois Sr. Perth era péssimo em história. Mas achei interessante saber que desde que o mundo é mundo, há os diferentes, assim como eu.
- Todos os jiins existentes vivem aqui? – Tentei participar do monólogo de Desmond. Aproveitei e acendi um cigarro, oferecendo um para o Sr. Perth.
- Não, não. Há muitos ‘Chikes’ espalhados pelos quatro cantos da Terra, são centros para jovens (ou não) jiins que necessitam aprender a controlar seus dons. – Balancei a cabeça, mostrando que estava entendendo. Estávamos próximos do portão principal quando Desmond se despediu:
- Bem, missão cumprida. Siga pelo corredor principal, irá encontrar os dormitórios, procure pela Dona Zhou, ela te orientará. Ainda tenho que resolver assuntos pendentes. Boa sorte, ma chérie, nos esbarramos por aí. –Um tanto quanto surpresa, tive pouco tempo para formular uma resposta a altura, que saiu assim:
- Já vai? Corredor principal, dormitórios, Dona Zhou? Tudo bem, vou me lembrar. Obrigada, Sr. Perth.
- Só Desmond, por favor. – Ele sorriu.
- Ah sim. “Des”. – Fiz o gesto correto das “aspas” e ele riu. Virou as costas e seguiu, como se fosse dar a volta na pirâmide quadrada. A noite caía. Entrei pelo grande portão onde havia a inscrição “UMI”, abaixo, sua tradução em diversas línguas, significava “vida”.
Lá dentro era como uma pirâmide egípcia moderna. Um grande salão, mal iluminado, apesar de principal. Levava a muitas portas e corredores, além das escadas. Muitos jovens cruzavam os caminhos e transitavam entre as milhões de passagens que avistei.
Deduzi que o corredor mais movimentado fosse o principal. Além disso, era amplo e iluminado por umas tochas pregadas nas paredes. Essas eram como de um templo antigo, com inscrições, desenhos rupestres. Segui o fluxo das pessoas, sem falar com ninguém. Ao final daquele imenso corredor, havia uma plaquinha escrita em hieróglifos e algumas línguas ocidentais: “dormitórios”. Em baixo da placa, bem em baixo, havia uma senhora oriental, com olhos atentos, baixa e gorda, como daquelas que só vemos em filmes. Só poderia ser a tal Dona Zhou.
Aproximei-me e logo perguntei, para evitar confusões, se era realmente ela ou eu estava equivocada. Ela respondeu, fechando as mãos, como se fosse rezar e abaixando a cabeça, num movimento contínuo:
- Sí, Sí. – Sorriu, depois voltando à posição normal, tentando me ajudar com minha mochila, disse:
- É nova você? – Sorri novamente. Eu imitei seus gestos:
- Sí, si. Dormitório...? – Apontei para as portas nas laterais. Ela depressa apontou para a direita e disse “meninos” para a esquerda: “meninas”. Como numa escola normal, alunos passavam a todo minuto. Alguns vestidos com uniformes especiais. Outros somente de roupa comum, como as dos humanos. Ainda me espanto falando dos humanos como seres diferentes de mim. Tentando me desvencilhar da Dona Zhou, para finalizar a conversa, fui dizendo:
- Bem, vou –apontei para a porta da esquerda – entrar para tomar banho, - fiz como se estivesse lavando a cabeça- trocar de roupa – segurei e puxei minha blusa, num beliscão – tudo bem?
- Sí, si. – sempre sorrindo – depois vá jantar na sala de comidas – levou as mãos coladas como uma cristã ao peito novamente. Nesse momento, uns rapazes passaram, fazendo algazarra. Eu não entendi o que exatamente faziam, mas era bem barulhento. Dona Zhou, para contê-los, se transformou numa figura mitológica através do som que saiu por sua boca, que me lembrou Xerxes:
- Acabou a bagunça! É hora do jantar! – Ela gritou com uma voz super sônica para os meninos, que saíram correndo em direção ao dormitório masculino. A dona logo voltou para mim e disse, com a maior delicadeza e singela voz:
– Qualquer coisa, me chama. Tchau. – Assustada, nunca poderia imaginar que aquela senhorinha oriental teria aquele grande e estrondoso poder. Imediatamente, num volume baixo:
- Tchau. - Me despedi meio sem graça.
Chegando a sala principal do dormitório, haviam algumas meninas sentadas às mesas, estudando, lendo, outras em notebooks e algumas sem fazer nada, sentadas num grande sofá. Uma delas brincava com um isqueiro. Outra dormia, com a boca aberta. Eu andava devagar, reparando naquelas pessoas quando:
- Olá! – Uma menina que aparentava ter a minha idade, loira, de cabelo curto espetado no ar surgiu na minha frente, deu um pulinho ao me cumprimentar.
- Oi... – disse sem o entusiasmo dela. Antes que eu pudesse dizer mais, ela:
- Sou Alicia. E você? Deve ser nova aqui, né... – Ela falava alto, como se fosse afetada por algo. Não percebi de imediato qual era seu dom. Algumas meninas pararam de fazer o que faziam para prestar atenção a nossa conversa.
- Sou Lucy. – Falei timidamente. Ela sorriu e gritou:
- Gente, dêem boas vindas a Lucy! – Alicia riu. Parecia daquele tipo de pessoa extrovertido, mas não falso. As meninas em volta gritaram coisas como:
- Me deixa estudar, Alicia!
- Uhu, Lucy!
- Alicia, cala a boca! – Somente uma pessoa não se manifestou, ela estava sentada numa cadeira no fundo da sala, de olhos bem abertos, bem delineados e nem sem mexeu quando o rebuliço foi instaurado por Alicia naquela pacífica sala. Esta não ligou para as reclamações de certas e deu de ombros. Ia começar a falar quando uma menina tímida se aproximou de mim, pegou minha mão e disse, bem baixo:
-Seja bem vinda, Lucy. – Eu balancei a cabeça e sorri. Foi ótimo ser bem recebida. Eu ia gostando cada vez mais daquele lugar. Alicia logo continuou:
- Bem, menina, vamos lá dentro guardar suas coisas. Ah! Pode me chamar de Ali, ok. - Ela riu e seguiu para a área das camas.
As paredes não eram frias como as dos corredores. Era um local aconchegante, com quadros pregados, sofás e poltronas fofinhas, estantes com livros e uma lareira no canto (apesar de não parecer ser o tipo de lugar onde se necessita de uma lareira).
Guardei minha mochila – que não continha muitos de meus pertences – num dos armários que foi indicado por Alicia. Ela me mostrou uma cama vaga, que ficava a duas camas da sua. Falou mais um pouco sobre a escola, sobre os jiins. Conversamos sobre nossos gostos na cultura humana:
- Eu amo filmes. – Ela parecia empolgada. – Daqueles violentos e engraçados, do Quentin Tarantino... – Eu ri, pois pensava que jiins não se interessassem por filmes. Fiquei meio pensativa, até que:
- E você, fazia o que até vir para cá? – Eu sorri timidamente. Até que a expansividade de Alicia era boa, não queria me sentir sozinha. Porém eu não queria falar muito de meu passado.
- Bem, eu nunca fiz nada de bom... Atualmente, era stripper, sabe? – Ali riu alto.
- Sei... – disse com um sorrisinho diabólico no rosto. – Então você é das minhas, admiro quem admite o que é.
– Vivi do jeito que quis, sem grandes conquistas, até que Desmond apareceu e me trouxe. – Sentei-me na cama. Algumas meninas apareceram na porta.
- Sem grandes conquistas? A sua liberdade de fazer o que quis definitivamente foi uma conquista, Lucy! – Ela abriu os braços, num ato de expansão. - Desmond Perth, aquele figura... – Ela riu. Alicia era do tipo de pessoa que eu admirava, exatamente pelo fato de não ser como ela. Percebi que seus cabelos ficaram num tom amarelo mais forte. Arregalei os olhos e apontei para eles, sem dizer nada. Ela então passou uma das mãos e colocou-os para cima.
As três meninas chegaram mais perto enquanto Ali explicava seus dons:
- É a eletricidade... – Uma das meninas, de aparência de nerd, terminou:
- A capacidade de absorver e posteriormente libertação de energia elétrica
- Sim, Ali é atravessada por uma corrente elétrica bem maior que a dos fios de sua rua. O tom de seus cabelos varia de acordo com a carga. – Alicia virou para ela e disse:
- Muito bem, Viola, você deve andar me estudando nas horas vagas... – Ela riu sarcasticamente. Eu fiquei parada, olhando para as meninas. Cada uma devia ter um dom misterioso. As meninas que acompanhavam Viola logo se expressaram, num coro:
- Gente! Vamos logo para o jantar! Vocês esqueceram? Hoje tem o show das “Jiitches”!
Ali deu um pulo:
- É verdade! Vamos, vamos! – Ela me empurrou para o banheiro.
- Imagino que queira tomar um banho, não? Ande rápido pra gente poder comer e ir pro show. Você tem que conhecer os meninos! – Com seu sorriso lindo e diabólico, ela fechou a porta do banheiro.
- Ok, Ali. – Eu disse em vão.
Após o banho, saí para a sala comunal do dormitório onde encontrei minhas duas novas amigas. Ali estava vestida com uma calça colada preta, estampada com “marcas de batom vermelhas”. Alicia era cool, eu não podia negar. Quando me viu, ela interrompeu a conversa que ocorria antes de minha chegada na sala.
-Luucy, hello. Vamos? – Ela riu e botou um dos braços em me volta de meu ombro. Viola então disse:
- Hoje será o dia, hein, Ali...– Ela piscou os olhos misteriosamente. Eu não quis me intrometer, entretanto Alicia foi logo me dizendo:
- Sim, Viola talvez desencalhe hoje!- Ela se dirigiu a mim, gritando e riu muito alto, debochando da amiga. Eu ri também, ainda que sem graça, pois não queria magoar a outra. Eu tentei
- Quem é o sortudo, Viola?
- Felipe! – Alicia grita antes que a menina possa me responder.- Ele é nadador, adivinha o que a Vi já me contou sobre ele? – Não entendia Alicia e esperava que ela não desandasse a falar coisas pornográficas sobre o possível namorado de Viola.
- Seus pés são alongados e envergados como se usasse um eterno pé de pato. – Alicia completou. Fiquei aliviada por ouvir um detalhe tão banal sobre o rapaz. Em meio a essa conversa, saíamos do dormitório, quando ouvi ruídos estranhos, como se alguém estivesse falando baixo na boca de meu ouvido. Eram sussurros graves, mas identifiquei-os como femininos. Parei por um minuto e cocei a cabeça. Talvez Ali tenha percebido, pois parou também.
- O que houve? – Vi perguntou.
- Nada. – respondi sem entusiasmo. Olhei em volta. Na pequena sala só havia a moça sentada numa cadeira no fundo da sala, de olhos bem abertos, bem delineados, exatamente do mesmo modo em que estava quando entrei pela primeira vez naquele dormitório. Achei estranho, mas resolvi tentar abstrair:
– Vamos? – Dei um empurrãozinho de leve nas costas das duas ao falar. Elas concordaram com a cabeça e outro assunto surgiu. Entretanto, eu não consegui me desligar totalmente do acontecido; Significava que algo aconteceria... Eu não entendi ainda aqueles poderes malucos.
Quando já estávamos fora do dormitório, tomei coragem e resolvi indagar sobre aquele criatura paralisada que havia me chamado a atenção.
- Quem era aquela sentada solitária na sala comunal? – Alicia e Viola se entreolharam.
- Ela é Isabella Van de Kamp, forte psíquica e excluída aqui dentro de Chike. – Ali logo se pronunciou. Estávamos passando por alguns corredores bem escuros e os cabelos de Alicia serviam como luminária para nos guiar.
- Ela lê mentes, por isso todos se afastam... - Vi disse arregalando os olhos, como se contasse uma historia de terror.
- É provavelmente uma lunática! – Alicia com seu sorriso diabólico e sexy riu. – Bem, não vamos ficar falando de Bella Van de Kamp, certo? Vamos nos divertir! – Ela piscou um dos olhos para mim.
-Ok.- eu disse e retribui a piscadela. – Vi, qual é o seu poder? – Tentei puxar um assunto mais interessante.
- Ah, você não vê essa carinha de nerd aqui? – Alicia apertou as bochechas de Viola e disse com voz de abobada.
- Eu possuo um alto nível de inteligência e grande capacidade para armazenamento de dados. – Viola respondeu.
- É praticamente um computador ambulante... – Alicia fez piada. Continuamos conversando e ouvindo os sarcasmos de Ali até que finalmente chegamos a um grande salão, com mesas, um típico refeitório de escola. Há muito tempo eu não freqüentava um lugar como aquele. As duas meninas se juntaram a outras pessoas, fisicamente “normais”, a não ser pelo homem musculoso, aparentemente muito forte.
Vários se aproximavam e elas me apresentavam. Incluindo Felipe, o nadador e futuro namorado de Viola, que fazia jus a beleza dos humanos-peixe. Não havia um pelo sequer em seu corpo, que era escultural. Senti as pontas de seus dedos enrugadas, como se ele tivesse acabado de sair da piscina, quando ele me cumprimentou. Além disso, ele tinha cheiro de cloro extremamente agradável.
Outros apareceram, mas não dei muita importância. Bella surgiu no fundo da sala e eu tinha a impressão de que ela me observava. Algo naquela menina-mulher me intrigava e atraía. Alicia logo resolveu me mostrar o “geral” (como ela diz) do salão de jantar. Todos tinham mesas praticamente fixas, de acordo com seus poderes e/ou atividades na escola. De um lado ficavam os ‘mentalmente perturbados’, fui incluída nesse grupo por Ali. Do outro, os ‘fisicamente diferentes, quase uns x-men’. Perto desses, almoçavam e jantavam os ‘extremamente fortes’ logo após os ‘verdadeiramente sobrenaturais’ (onde Bella sentou-se depois de passar andando lentamente, apesar de segura sobre si mesma, por todo o grande salão).
- Olha lá: a mesa dos professores. Lá esta Desmond! E aquele senhor parecido com o Nelson Mandela é o diretor de Chike. Aqueles outros todos são mestres problemáticos. – Ali, como sempre, riu.
Nisso, um rapaz que aparentava ter seus 20 anos, vestido exatamente como Travolta em Grease, apareceu em nossa mesa:
- Aliciaa, Ali, Ali! – Ele gritou e abraçou Alicia, que levantou num pulo. Eles trocaram beijos nas bochechas, como amigos íntimos e, deram risadas sem motivo obvio para quem presenciava a cena. Ela logo saiu dos braços dele e disse:
- Ah, como somos mal educados, James! Essa é Lucy, a mais nova bad girl de Chike. Ela era uma stripper, James! Stripper!– Ele logo pegou minha mão e a beijou secamente.
-Seja bem vinda. Pena que não nos conhecemos nos seus bons tempos... Brincadeira. Sou James. – Disse num tom charmoso que quase me fez derreter. Eu sorri sem graça, por não ter o que dizer. James era aquilo que pode se chamar de “pedaço de mal caminho em forma de um rapaz lindo e vintage”. Ele parecia um daqueles galãs de Hollywood dos anos 50. Foi amor a primeira vista. Alicia continuou falando, mas eu só ouvia trechos de tudo que ela vomitava.
- [...] Vamos botar fogo nesse asilo! – Ela botou a língua para fora da boca. Eu pensava que Deus definitivamente era jiin e sua forma era alto, magro, de cabelos loiros para trás, calça jeans, jaqueta de couro e All Star. Além disso, Deus era charmoso a ponto de usar óculos de armação grossa...
- Você gosta de rock, Lucy? – James estalou um dos dedos perto de meus olhos. Fiquei com medo de ter parecido uma completa idiota, nesse meio tempo em que havia ficado fora do ar. Ri, tentando descontrair e disse que sim, balançando a cabeça positivamente.
- Que bom! Terá um show de uma banda feminina hoje... – Ele era requintado, não como os homens de hoje, babacas e retardados.
- É, Ali me disse. – Ela agora conversava com Viola sobre algum assunto relacionado ao Felipe-tubarão (Apelido criado por Alicia, claro. Ela não costumava ficar muito tempo por perto dele, pois não se dava muito bem com seres aquáticos).
- Qual é o seu dom? Se você não se incomodar de falar sobre isso, claro... – James sempre tão polited.
- Bem, eu não sei ao certo... - Comecei. - É algo relacionado a dons psíquicos. – Ele sorriu:
- Espero que não vire uma louca como a famosa Isabella... – Apontou para o canto onde Bella estava. Eu tentei não me importar, nem sentir nada sobre aquele estranho ser que sempre acabava caindo em minhas conversas... Mas olhei para ela: pareceria que aqueles olhos negros tinham algo para me contar.
Nesse momento Alicia se voltou para nós dois:
- Vejo que vocês já estão se entendendo. – Sorriu. - Lucy, o James tem 50 anos de idade, sabia?
- Não. – Respondi sem entusiasmo, para não demonstrar meu total interesse pelo amigo Cult de Alicia. Por dentro eu vibrava.
-Sim, ele tem problemas de crescimento... – James olhou torto para a menina de cabelos espetados.
- Não é nada disso, Ali adora fazer esse tipo de brincadeiras. – Ele tentou se explicar num tom que só me fazia ficar mais ’feliz por ter conhecido alguém tão, tão....’ Meus pensamentos foram cortados pela explicação cientifica que Viola resolveu nos dar:
- Seu desenvolvimento é apenas mais lento. Você veio para Chike com quantos anos, James?
- Treze. Acham que eu era um completo retardado mental.
- Que máximo! – Eu disse, agora já achando que podia mostrar meu interesse. Uau, era realmente magnífico: a sabedoria de um homem velho num corpinho sexy de um homem novo.
- Bem, não é assim tão legal. Por exemplo, já tenho algumas coisas características de minha idade real, como vista cansada. – Ele apontou para os olhos por trás daqueles óculos. – Apesar disso, já vivi muitas coisas, sabe como é... - Ele mostrou aqueles dentes perfeitos. Eu sorri de volta.
- Então, todos já acabaram de comer? Vamos para o show. – Alicia interrompeu nossa troca de olhares. O salão já parecia mais vazio. James acendeu um cigarro e se levantou da mesa, dizendo:
- Nos encontramos lá fora então. Ainda tenho que me encontrar com Guy. – Ele beijou cada uma de nós e se retirou.
Enquanto eu ouvia sinos, Alicia e Viola tricotavam sobre algum assunto desconhecido por mim. Quando elas se levantaram e foram levar as bandejas para o lixo, acordei do sonho e as segui.
Saímos daquela suntuosa construção, cheia de surpresas. Lá fora, já havia aglomerados de pessoas. Andamos pelo largo jardim de Chike, conversando sobre as civilizações jiins.
- Os humanos não enxergam o que está bem diante de seus olhos! É impressionante. – Alicia constatava.
- Claro que foram jiins que construíram as pirâmides egípcias! Você acha que humanos teriam a capacidade e inteligência para tal? Ainda mais naquela época remota em que não havia essa high-tec de hoje... - Viola sempre com seu vocabulário de alunos das primeiras filas.
- Alguns dizem que todo o povo egípcio e de outras civilizações antigas, como astecas e maias eram jiins. Eles fizeram brotar impérios do nada! – Ali tentava acompanhar o ritmo da amiga nerd.
- Você não vai falar nada, Lucy? – Viola virou-se para mim.
- Ã? – Com ar de desligada, não entendi o que ela havia falado. Após ouvir a pergunta e compreendê-la, disse que ainda estava me acostumando com todas as novidades.
Logo nos aproximamos da aglomeração naquele pátio verde em volta da bela e exótica construção, especialmente à noite. O céu estava estrelado e o clima bem agradável, como num dia de verão intenso, quando venta um pouco quando o sol vai embora.
("Show das Jiitches" )
Havia uma banda composta somente por garotas tocando num palco pouco alto, perto do jardim principal. A vocalista cantava inflamada, todos gritavam, pulavam de braços levantados, como se sentissem a música. (Na verdade, alguns ali deveriam poder sentir a música). Entre versos e pulos alucinados, a bad girl de cabelo colorido abria os braços e estendendo as mãos, brotando fogo das palmas esticadas. A platéia foi ao delírio. Um rapaz cabeludo perto de mim berrou:
- Amo você, Beeeette!
A vocalista levou uma das mãos à boca e assoprou um beijo inflamado para ele. Os que estavam grudados no palco receberam algumas faíscas vindas do beijo, que foram logo apagadas por uma menina cor de geladeira, que as congelou no ar.
Talvez tenha sido naquele momento no qual percebi que ali era o meu lugar.
Decidi que sairia um pouco da multidão para tomar um ar. Avisei a Alicia, quem não ligou muito, que daria uma volta pelo verde. Caminhei um pouco até onde já podia ouvir o barulho do ar entrando em meus pulmões. De repente, comecei a ouvir aqueles ruídos estranhos novamente. As vozes se intensificavam em minha mente conforme andava.
Seria um ótimo momento para escrever: a melancolia do lugar, todos os seres que me rodeavam e, especialmente, por ser o dia mais louco de minha vida. Aprendi a escrever com uma letra quase ilegível. Pois a necessidade e vontade de esconder meus pensamentos quando eram descritos em mesas de bares ou metros, com a presença de desconhecidos ao meu lado, era grande.
Naquele momento, entretanto, era impossível me concentrar em algo que não fossem as vozes dentro de minha cabeça. Consegui dar mais alguns passos e sentei-me num banquinho próximo ao gramado. Pensei que fosse desmaiar. Sentia-me uma televisão sem antena, com aquele chiado constante.
Tentei por a mão em volta de minha cabeça e fechar os olhos, como alguém que sofre de uma enxaqueca muito forte.Quando achei que já não pudesse mais me agüentar em pé, os sons pararam. Abri os olhos e olhei ao redor. A única figura viva além de mim fora da aglomeração era Isabella Van de Kamp. Ela vinha em minha direção, olhando fixamente, como sempre, para mim.

Levantei-me, aquela mulher me dava arrepios, apesar de fascinar. Assim que me ergui, os chiados ameaçaram voltar e uma voz feminina se destacou: “Continue sentada, precisamos conversar.” Interrompi qualquer menção de movimento e olhei para Bella. Esta, que quase levitava ao andar, disse: “Você é quem eu estive esperando durante esse tempo todo aqui em Chike.”
- Como assim? – Eu ainda estava zonza, mas já não ouvi nada além da voz de Bella saindo realmente de sua boca.
-Podemos dominar o mundo.
("Bella" )
Eu ri e apertei os olhos com o polegar e o indicador da mesma mão que logo passei em meus cabelos longos e negros, com pontas desbotadas.
- Amo seus olhos. – Quando vi, já tinha dito isso para Bella. Ela sorriu e os chiados finalmente pararam de vez.
- Voltando ao assunto importante... – Encabulada, porém séria, ela virou para mim e iniciou um monólogo pelo qual pude perceber sua personalidade.
- Acabar com essa submissão jiin. Os humanos não merecem. Não devemos nos curvar; somos superiores, fato. – seus olhos brilhavam – blá blá blá, liberdade pra cá e pra lá.....
Ela falava como uma acadêmica meio desbocada, escritora alternativa, de “literatura-pop”. Suas falas me lembravam livros de bolso, baratos, de mulheres que eu lia sempre nos banquinhos de parques abandonados. Eu mesma me espelhava neles, escrevendo palavrões, vícios...
- E onde eu entro nessa historia toda? Por que eu? – Resolvi interromper a Isabella, depois de muito ouvir seus blá blá blás, que saíam por meu ouvido assim como entravam.
- Você é a peça chave. Você é poderosa. Você bloqueia seus pensamentos inconscientemente. – Claro, ela está tentando me seduzir para exterminar o mundo dos humanos ao meu lado. Bonito da sua parte, Bella.
- Ah sim... – Fiquei sem saber o que falar. – Então quer dizer que você nunca nunca ouviu nada que pensei?
- Bem, - Ela riu. – agora, por exemplo, você está pensando que sou louca. Entretanto, você gosta de mim. Talvez exatamente por isso, não é? ... - Divagou.
- Ah sim. – Meio envergonhada, respondi. Qual era a dela? Acha que vai me ganhar com esse papinho todo de ler mentes, fala sério. Bella, você caiu no meu conceito.
- Então quando damos início ao plano? – Ela adiantou-se, cortando meus pensamentos.
- Qual é o plano? – Ainda me sentia meio desconfortável com ela por perto.
- É não ter um plano. Você tem que conhecer Billy.
- Billy?
- É, o Billy. Ele deve estar ‘tietando’ essas cantoras de rock... – Fez pouco caso da banda que ainda se apresentava ao fundo, no jardim.
Conversamos até altas horas da noite. Alguns jiins parecendo bêbados passaram e não deram muita importância para aquelas duas desconhecidas, sentadas no banco. O papo entre nós fluiu, mesmo com toda minha desconfiança misturada com admiração. Eu falava com uma certa distancia de Bella, claro. Devia ser muito tarde quando o som do show acabou; não sentir o tempo passar enquanto viajava na personalidade maluca de Isabella Van de Kamp.
Quando viu que Alicia se aproximava, Bella rapidamente se despediu:
- Nós vemos por aí então.
- Já vai dormir?
- Eu não durmo. Passo as noites acordada, é a parte mais calma das 24 horas do dia. Não há quase nenhum pensamento que me alcance.
- Tá. Boa noite... – Ela se levantou e disse em meu ouvido:
- Vou pensar em você, Lucy. – Levantei uma das sobrancelhas. Bella se desmaterializou. Em seguida, Alicia sentou-se a meu lado, estava completamente bêbada.
- Ei, Ali... – Ela encostou a cabeça em meu ombro.
- Lucy, estou apaixonada pelo Filipe. – Uma pequena lágrima se formou no canto de seu olho.
- Vamos, Ali... Tá na hora de dormir. – Saí praticamente carregando Alicia no colo.
No dia seguinte, não tive notícias de Bella, mesmo que ela parasse em meus pensamentos a cada minuto. Uma obsessão tomava conta de mim, de tal modo que às vezes eu parecia uma completa retardada mental, durante as conversas com Alicia e Viola.
Uma semana inteira, cheia de aulas, aprendizagens e jiins novos. Nem um sinal de Bella. Eu começava a aprender a controlar meus pensamentos, como bloqueá-los mesmo. Ali esqueceu sua paixão bêbada e repentina pelo futuro namorado de Viola.
No fim de semana, quando a maioria dos jiins saía de Chike, eu resolvi vagar pela cidade, durante a madrugada. Andava pelas ruas. A chuva caía, por isso coloquei o capuz de meu casaco. Provavelmente, eu seria capaz de me livrar dos pingos, criando uma barreira, uma bolha que protegesse. Mas eu gostava de me sentir humana às vezes...
("Fim da parte 1" )
CONTINUA...

domingo, 6 de setembro de 2009

O rouxinol

Brigithy vivia em Lausetown na Gregória. Provavelmente você nunca ouviu falar desse lugar. Ora, é um país muito mais muito pequeno na região central da Europa. Apesar de estarmos em pleno século 21 ainda se vê vestígios de uma era medieval.
Ela ansiava pelo dia em que poderia sair daquela civilização. Desde pequena nunca se sentiu muito bem ali. Como em seu aniversário de oito anos.

“Parabéns para Brig! Viva!”, um coral formou após as velas serem apagadas. Ela olhava todos aqueles sorrisos envolta de mesa, perfeitos de mais. Ela poderia dizer que parecia um seriado dos anos 70, mas em Lausetown, não existia televisão.
Na hora de abrir os presentes, uma amiguinha, digamos assim, fez a gentileza de ajudá-la a abrir os presentes.
- Olhe Brig você ganhou uma boneca princesa oriental!
Brigithy não entendia. Aqueles eram seus presentes, porque a sua “amiga” estava abrindo. Os embrulhos não eram justamente para se ter uma surpresa?
Então, algo estranho aconteceu. Quando Brigithy começou a ficar irritada, afinal aquele era o aniversário dela. A amiga estava abriu o ultimo presente, de repente...
BOOM!
Voou papel de presente para todos os lados. A cara da amiga ficou preta e faíscas queimavam a ponta do cabelo. Todos ficaram abismados. Quem iria dar uma bomba a uma criança? Tentaram descobrir quem a tinha presenteado, e claro, ninguém se pronunciou.

Depois desse dia, muitas outras situações estranhas aconteceram. Às vezes ela estava triste, outras feliz. Sozinha ou com alguém. Mas ninguém sabia da onde viam essas coisas estranhas, ela sim.
Não sabia como exatamente funcionava, porém sabia que era ela que fazia essas coisas acontecerem. Como a chuva de pétalas quando deu o primeiro beijo debaixo de um carvalho. Ou na vez em que caiu dentro de um poço e acabou na margem do lago Peppers, a uns dois quilômetros de onde estava.
Coisas estranhas.
Brigithy queria muito sair daquele lugar, estava decidida. No seu décimo sexto aniversário atravessaria aqueles portões e nunca mais voltaria. Queria achar um lugar onde se sentiria bem. E quem sabe aprender a controlar essas coisas estranhas.

Um grande baile iria acontecer dentro de duas semanas. Todas as garotas de Lausetown que completariam dezesseis anos iriam participar dessa cerimônia no palácio central. As mães ficavam alvoroçadas. Tentavam a todo custo importar tecidos e passavam horas por trás das máquinas de costura.
A mãe de Brigithy não podia ser diferente.
- Querida acho que vou apertar um pouco aqui...
- Ai! Mãe...
- Não se mexa! Desculpe-me querida. – empurrou a cintura da filha para que ela virasse um pouco – Eu quero que este vestido fique perfeito.
- Eu sei mãe... – a voz da Brigithy não era a das mais animadoras.
Para ela aquele baile era apenas sinônimo de status, para uma garota ficar esfregando na outra o melhor vestido. Para que as mães ficassem ao fundo se gabando do tecido que conseguira e os pais da fortuna que gastaram com o seu bebezinho.
- Brig?
- Sim mãe?
- Já conseguiu um par para ir ao baile?
A mãe começou a tirar o vestido da filha, o que pode esconder a cara dela de que havia esquecido.
- Um menino?
- De preferência, né, Brigithy. – a mãe saiu com o vestido em suas mãos rindo da pergunta da filha, estava tão absorta no vestido que nem reparou na cara da filha.
- Hum...é...
Alguém bateu a porta.
- Quem é? – perguntou a mãe de Brigithy.
- O Paul madame, amigo da Brigithy.
Brigithy pulou do banquinho que estava e foi em direção a porta.
- Brigithy! – a mãe dela gritou. – Por favor, vista alguma coisa!
- Claro.
Saiu meio sem graça em busca de um robe. Nunca iria achar, já que havia esquecido em cima de sua cama. Buscou pela sala da mãe por alguma coisa, nada muito útil. A mãe dela fazia fantasias para o teatro da cidade, e ultimamente as apresentações requeriam muito brilho e purpurina.
Mais uma batida na porta.
- Ela já vai Paul!
Ela correu para trás do biombo e não encontrou nada também. Quando se olhou no espelho lembrou-se das coisas estranhas. Estava na hora de testar.
Começou a pensar no robe. Nada. Começou a pensar em onde o hobbie estaria, lembrou que estava em cima da cama, pensou nele em suas mãos. Nada. Pensou que talvez que fosse necessário falar.
- Robe? – sussurrou. – Um, dois, três, robe!
- Filha esta falando comigo?
- Hum, não mãe.
“Droga, eu só queria a porcaria do hobbie, agora!”, gritou em seus pensamentos.
Puf!
O robe estava em suas mãos. Saiu andando em quanto o colocava. Abriu a porta e encontrou com a adorável figura do Paul.
- Oi, Brig.
- Brigithy? – a mãe a chamou, obrigando a olhar para trás. – Você não me respondeu...
Brigithy olhou para o Paul e viu sua rota de escape.
- Paul.
- O que? Ai! – a mãe tinha tirado os olhos de seu trabalho acabando por espetar o dedo em um dos alfinetes.
- O que? – Paul também se manifestou.
- Ora Paul, não seja tímido. Esqueceu o que conversamos ontem?
- Hum, acho que sim. – ele realmente não estava entendendo nada.
- Paul irá comigo mãe. Ninguém melhor do que o meu melhor amigo para me acompanhar.
A mãe continuava abismada. Esperava que a filha convidasse algum primo que estivesse na faculdade da capital ou mesmo um formando do colégio masculino Flauker. Mas não. Diante dela havia um menino com roupas flageladas, de camponeses, maiores do que o corpo que a vestia, provavelmente do irmão mais velho.
- Jura Brig? – falou Paul.
- Nós não decidimos isso ontem Paul. – Brigithy trincou um sorriso e arregalou os olhos para ver se ele entendia.
- Hum... – a mãe dela voltou os olhos para o trabalho, afinal tinha que terminar logo aquele vestido. – Você tem roupa para ir Paul? – falou com um certo desdém.
Paul olhou desesperado para Brigithy. Já que realmente ele era filho de camponeses e aquela roupa era do irmão mais velho. Não tinha dinheiro para comprar tecidos, muito menos um smoking para ir a esse baile.
- Claro que tem mãe. Esqueceu a irmã dele se casou ano passado...
- Não me lembro do Paul usando um smoking. – em nenhum momento ela tirou os olhos do vestido em suas mãos com gestos habilidosos ela ia bordando o vestido.
- Mãe ele tem, ta? Beijo.
Brigithy jogou um beijo no ar e empurrou Paul para poder sair daquela sala e fechar a porta.

Brigithy foi se trocar e saiu com o Paul para andar no Bosque central. Paul a encheu de perguntas, sobre que história era aquela de que ele a acompanharia no baile.
- Você esta louca Brig?
- Não...
- Brig eu não tenho roupa para ir! – ele segurou os braços dela e deu uma leve chacoalhada para ver se colocava alguma coisa no lugar dentro daquela cabecinha.
- Eu sei, eu sei Paul! – Brigithy se desvencilhou das mãos do Paul e começou a andar em circulo. – Eu vou conseguir esse smoking para você, ok?
- Como Brig? Você não tem dinheiro, seus pais não vão pagar o smoking para mim. Não tem ninguém que vá emprestar já que a cidade toda vai estar nesse baile. Mandar fazer, só ficaria pronto com magia. Esquece Brig! Fala que para sua mãe a verdade.
- Eu não vou com nenhum primo meu metido à besta. Eu na realidade nem queria ir nesse baile. Eu quero ir embora daqui, Paul. Cansei desse mundo.
Paul levou a mão à cabeça e sentou em cima de um tronco.
- Você ainda esta com essa idéia de ir embora? – Paul olhou para ela com um olhar suplicante.
- Paul, não queira tentar mudar isso, já está certo. – Brigithy afagou o cabelo dele e deu sorriso meio forçado. – Sobre o smoking já disse, deixa comigo.
- Como?
- Só ficaria pronto com magia, certo?
- O que?
- Você que disse.
- Eu? Eu sei o que disse, mas você sabe o que esta dizendo?
- Não acredita em mim né?
- Não.
Brigithy aceitou aquilo como um desafio. Levantou e tentou repetir o que tinha feito com o robe. Virou de costas para o Paul. Ela não sabia exatamente como iria fazer, antes tinha um robe e um lugar certo onde ela estava.
“Preciso de um smoking, agora!” pensou consigo. Nada. Fechou os olhos e elevou um pouco as mãos. Paul só ficava olhando de longe, para ele a amiga havia pirado de vez.
“Por favor, magia estranha. Seja lá da onde você venha, faça acontecer. Eu preciso de um smoking”.
Um trovão fez Brigithy sobressaltar e abrir os olhos.
- Brig deixa para lá, é melhor irmos. – Paul avaliou o céu que começava a escurecer.
- Calma – Brigithy fez um sinal com a mão. – Um smoking, só um smoking. – começou a sussurrar.
- Brig...
- Só um smoking! – ela fechava os olhos e pensava com toda a sua força, Paul vestido com um smoking. – POR FAVOR! – ela abriu os braços para o céu como se fosse cair um smoking a qualquer momento, mas só veio chuva.
- Vamos, Brig!
Paul a puxou pelo braço. Ela relutava, mas o acompanhava.
- Você não entende Paul. Funcionou hoje como o robe.
- Claro Brig. – ele achou melhor não contrariar.
Já estavam chegando perto da casa, os dois totalmente ensopados devido à chuva que começava a diminuir.
Brigithy segurou o braço dele, fazendo o virar e encarar os seus olhos.
- Não me importa que vá de pijama. E quero que você vá. Eu te conheço desde que me entendo por gente, não teria pessoa melhor para me acompanhar. Por favor.
- Brig...
- Prometa!
- Eu prometo.
Os dois se abraçaram e Paul foi embora.
Brigithy ficou decepcionada por não ter conseguido. Passou a noite toda tentando fazer essa magia funcionar. Às vezes dava certo, às vezes não. Mas uma coisa era certa, o smoking não aparecia. Até que se cansou e dormiu.

A grande noite finalmente havia chegado. Brigithy já estava com o vestido cuidadosamente feito pela mãe. Como um vestido de princesa tinha varias camadas, dando um volume majestoso. O tecido era creme todo bordado com um fio dourado. O seu cabelo foi cuidadosamente preso em um coquete. Um colar, presente do pai, acompanhavam a pulseira e o anel, presente dos avós, fechando o modelito.
A família toda estava na casa dela e todos iriam juntos para o palácio central. Seus primos e primas, tios e tias, todos os parentes estavam devidamente vestidos. Sua família não era da nobreza, mas nunca passaram necessidade e sempre teve tudo o que precisavam.
Paul e Brigithy não se falaram muito até aquele dia. Ela passou a hora que ele teria que estar no palácio para entrar com ela e mais uma vez reforçou que não importava que roupa ele estivesse o importante era ele estar lá. Mesmo assim, era visível em seu rosto o nervosismo.
- Brigithy, minha neta. – a avó colocou o rosto da neta entre suas mãos e admirou cada curva em seu rosto. – Você está linda.
- Obrigada vovó. A senhora também. – deu um sorriso tentando esconder o nervosismo.
- Ah, minha neta. Gentil como sempre. Mas eu não estou tão assim, não sei onde coloquei os meus brincos acredita, vou ter que ir sem.
Brigithy já tinha treinado bastante a sua magia e conseguiu os brincos da avó sem qualquer esforço. Isso a deixava irritada, só com o Paul ela havia falhado.
- Tome vó.
- Querida! Onde achou?
- Achei...
- Vamos gente, não queremos chegar atrasados. – uma voz se elevou no murmurinho.

O palácio central estava totalmente iluminado. Carruagens se apinhavam na entrada principal. As aniversariantes tinham que entrar pelos fundos, para poder descer a escadaria principal quando seus nomes eram chamados. Assim como os seus acompanhantes, Brigithy nunca desejou tanto alguma coisa. “Paul tinha que estar ali, seja qual roupa for, ele tem que estar. Ele prometeu”.
No camarim estavam todas as meninas. Naquele ano oito meninas completavam os dezesseis anos. Uma delas era aquela amiga dos presentes. Fazia alguns anos que Brigithy não falava com ela, passou a ser cada vez mais insignificante, já que cada vez mais essa “amiga” empinava o nariz.
- Hum, belo vestido Brigithy. Tecido francês? – falou a nariz empinado.
- Não. Minha mãe pediu da capital mesmo. O seu acredito que tenha vindo... – Brigithy gesticulou com a mão esperando a outra completar.
- Rússia. O cachecol veio da Groelândia, pele de hiena. – ela alisou o pelo do animal morto em seu pescoço. – Alice... – virou as costas e foi atrás de outra vitima.
Brigithy olhava cada aniversariante. Todas estavam lindas, ate mesmo a metida da “amiga”. Olhava o brilho nos olhos de cada, realmente aquela cerimônia era especial para elas, mas para Brigithy era apenas uma formalidade. Talvez uma festa de despedida de Lausetown.
- Meninas façam uma fila.
A mestra de cerimônia veio chamar as meninas e as organizou em ordem alfabética. Brigithy seria a terceira, se a ordem não fosse pelo sobrenome, restando a ela o ultimo lugar.
Uma a uma as meninas eram chamadas. Apresentavam-se no topo da escada, o acompanhante chegava cumprimentava a nova dama e desciam a escadaria e começavam a valsar no centro do salão.
“Ele prometeu”.
A promessa do amigo foi a única coisa que a fez ter coragem de atravessar aquela cortina.
- Senhorita Lamarck, Brigithy e Osklen, Paul.
Uma salva de palmas fez a Brigithy ficar um pouco nervosa. Viu-se sozinha no topo da escada. Abaixou o rosto.
“Ele tinha prometido”.
Uma mão tocou a sua. Abriu os olhos e encarou um par de sapatos velho, muito gasto, mas limpo na medida do possível. Subiu os olhos e viu Paul com um lindo smoking novinho em folha.
- Não me pergunte como, quando fui me arrumar ele estava no armário. Alias, deveria ter uns seis lá.
Brigithy riu e os dois desceram a escada.
Enquanto dançavam a valsa, Paul a puxou para mais perto.
- Você podia ter pedido um sapato também né?
Brigithy riu mais uma vez. Tinha dado certo no final das contas, essa magia estranha.

- Vai mesmo embora?
Os dois estavam no jardim, sozinhos. Iluminados apenas com a luz que sai das janelas do grande salão.
- Vou. Paul... – ela foi calada com um toque de Paul em seus lábios. Pela primeira vez Brigithy olho ele com outros olhos. Estava tão elegante com aquele smoking, mesmo com os sapatos velhos.
- Não quero explicações. Afinal você tem a magia ao seu lado, certo?
- Talvez não exatamente do meu lado.
- Tem certeza? – Paul se afastou e deu um giro mostrando o smoking.
Brigithy riu.
- Eu ainda não sei controlar isso direito. – Brigithy olhou para as mãos como se fosse dali que a magia surgia.
Paul pegou as mãos dela e fechou-as entre as suas. Puxou para perto da boca e soprou de leve. Brigithy começou a sentir cócegas na palma das mãos. Aos poucos Paul foi libertando as mãos dela, liberando um lindo rouxinol que saiu cantando. Voou ate uma altura e explodiu em pétalas amarelas.
- Paul?
- Shiuu...

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Esperança que vêm de dentro


-Nãoo!
-Você não tem escapatória! Você sem esse seus poderes não é nada. Só uma mosquinha, fraca, que precisa procurar restos.. mhahahah..
-NÃAAAAOOOOOO!!!


-NÃOOOO!!!
Tudo parecia estar na mais perfeita calma. Os móveis não havia saído do lugar. Os quadros continuavam imóveis como sempre deveriam estar. As roupas continuavam espalhadas pelo chão, sinais de uma noitada boa. Noite boa, olho para o lado e vejo que meu amor ainda está ali, dormindo feito um anjo. Seu cabelo todo bagunçado,a cara torta e a boca aberta, poderia ser nojento se não fosse o amor da minha vida de quem eu estivesse falando. Deito a cabeça no travesseiro, antes olho para o rádio relógio na cabeceira, ainda eram 4 da manhã. Tento dormir outra vez, mas vem à tona o motivo pelo qual eu acordei abruptamente. Penso: “Que legal Lizzie, você está tendo pesadelos feito uma criancinha. É a segunda semana seguida que você anda tendo esses pesadelos e não consegue dormir direito. Suas olheiras estão tão fundas que qualquer um te confundiria com um vampiro e não apenas uma pessoa que controla as coisas com o poder da mente....”. Enquanto penso, afago os cabelos de Andrew ao meu lado. Isso fez com que ele acordasse rapidamente:
-Lizzie, o que faz acordada? Ainda é de madrugada, está escuro, volte a dor...-ele pára no meio da frase- Você está estranha, nervosa. Aconteceu alguma coisa? Deixa eu ver se consigo te animar um pouco.
Andrew é ótimo com esse seu segundo dom. Pois é, ele é incrível! Além de fazer as pessoas se acalmarem ele pode voar na velocidade da luz. Ele é uma das raras exceções, bom em duas coisas, quero dizer. A maioria que possui poderes são como eu, um dom e olhe lá. Sorte minha achar alguém como o Andrew, ele é realmente meu tesouro.
-Não é nada, Andy. Volte a dormir você. Você tem uma reunião importante na sua empresa, não quero que você fique com cara de sono.
-Ora, Liz. Você sabe que com isso não me preocupo. Tá tudo aqui- ele aponta para cabeça.- E se algo der errado lembre-se que seu irmão estará lá na minha equipe. Digamos que se eu falar algo errado eu peço pra ele, humm, voltar no tempo.
-Muito engraçado, Sr. Andrew Roberts Edwards. Prometemos a Liga não usar nossos poderes com futilidades pessoais. É para não sermos descobertos, lembra!?
-Calma, meu amor. Você tá realmente muito nervosa. Vem aqui.- ele senta-se na cama e me puxa contra seu peito. Me abraça bem forte, aos poucos toda aquela aflição vai se esvaindo de mim, dos meus pensamentos. Não demoro e pego no sono novamente.

-Você é uma fracote. Não sabe viver sem esse seu poderzinho. Quero ver você se virá sem eles, será que todos vão continuar gostando de você? Eu respondo. Não! Todos só querem saber de serem ajudados por você....

-NÃOOOOOOO!!!- lágrimas caem de meus olhos em dois jorros.
Olho atordoada. Andy não está mais aqui. Ele deixa um bilhete, junto com uma rosa vermelha:

Liz, meu amor
Desculpe não estar aí quando você acordar. Seus sonhos estão inconstantes. Pude sentir isso. Estou ficando preocupado. Quando eu voltar iremos conversar, enquanto isso.. tome conta dessa rosa.
Te amo!!
Andy.


Pego a rosa e coloco-a contra meu peito. A angústia foi diminuindo. Andy deve ter 'enfeitiçado' a flor pra que ela tirasse os sentimentos ruins até que ele chegasse. Esse seria meu amuleto do dia. Levanto e vou me arrumar. Preciso trabalhar. Faço tudo como sempre. Às vezes esqueço de que não posso usar meus poderes e só percebo depois de algum tempo. Geralmente acontece enquanto eu estou no banheiro e o café aparece pronto na mesa quando acabo. Isso quando eu não dou de cara com uma torrada voando em direção ao prato que está na mesa.
Saio no trânsito caótico da Big Apple. Não acredito que vim morar nessa cidade. Tudo é muito bonito nas primeiras semanas, mas depois de um tempo... Como eu queria o Rio de novo. Não posso reclamar, eu aceitei vir pra cá porque:
1º- Andrew mora aqui, eu precisava ficar perto dele;
2º- Todos nossos amigos também;
3º- Logo, se todos meus amigos estão aqui, a Liga também tem sua sede em New York.
Depois de horas parada, finalmente chego na editora. Essa minha vida dupla me mata, afinal, traduzir livro demora um bocado. Não existem expressões equivalentes e de vez em quando, acabo inventando umas novas, admito. O lado bom é que eu acabo lendo os livros que chegam a mim. Às vezes eu leio os outros também, dou uma escapadinha e pego o dos outros tradutores. E mais tarde ainda tenho que sair pra fazer a ronda de 1 hora pelo bairro. Ser heroína é um trabalho duro.
-Oi, Como você vai, Liz?!- é o Joey me cumprimentando de novo com aquele jeito meloso, será que ele não aprendeu depois da surra que o Andrew deu nele depois de ter me beijado de surpresa?
-Oi joey. -respondo seca, ele parece estar observando-me de cima a baixo.- Desculpa estou atrasada. Os capítulos novos do livro que eu to traduzindo chegou e esse é um daqueles autores que fala difícil.
-Bem, os italianos estão no marasmo, usam sempre as mesmas expressões, não tenho o que criar muito.. hahahah
-Ok, J. Até mais.
Saio quase correndo e faço com que as coisas na mesa dele caiam, pra ele ter que arrumar e não me seguir. Foi por uma questão de salvamento, a Liga não vai me condenar por aí. Isso não desperta nada suspeito, certo? Nada que gere desconfiança nele. Pelo menos, assim espero.
Voltei concentrada pro meu trabalho, a rosa de Andy estava na minha bolsa, numa caixinha que arranjei. Eu não me desgrudaria dela nem por um segundo nesse dia. Dormi em cima do computador, dá pra acreditar? Acordo com meu celular tocando. E dou graças a Deus, porque nesse instante minha chefe enta na minha sala. Já pensou o que ela diria se me visse dormindo sob o computador? Esse livro que eu to traduzindo tá muito chato, mocinho idiota!
-Oi Andy!- atendo com muito entusiasmo, pelo menos pra quem não está sozinha na sala, parece que demostra muito entusiamo.
-Amor, precisamos nos reunir, quando digo nós você sabe, né? NÓS.- Andy estava sério ao telefone.
-Quando agora?
-Sim, pelo visto disseram que é urgente.
-Estou indo pra aí num segundo, amor. Qual hospital mesmo? Uhumm.. Conheço. Estou a caminho.- invento uma desculpa pra sair do trabalho, aproveitando que minha chefe está na sala. -Você já não usou esse outra vez? -diz Andrew ao telefone.
-Acho que não. Senão, foi há muito tempo. O cartão do plano de saúde deve estar em casa.- eu tenho prática com essas conversas dúbias. Sou expert.
Desligo o telefone e viro-me com a minha melhor cara de preocupada.
-Sra. Lethermann, a senhora ouviu o meu telefeone provavelmente.
-Não que eu tivesse outra escolha sra. Elizabeth Edwards.
-Peço desculpas senhora. Mas meu marido.. quebrou a perna. Esse emprego dele é um pouco complicado, sabe, engenheiro, foi visitar uma obra e tropeçou no entulho e ficou com o pé preso. Acabou quebrando.-ela faz uma cara de nojo, que cruzes!- Então, tenho que passar em casa e pegar a carteirinha do plano de saúde, ele sempre esquece de carregar. Como ele é avoado, não?
-De fato, sra. Edwards. Está liberada, mas terá que compensar não se esqueça.
-Eu sei sra. Lethermman. Eu farei isso assim que possível, está bem? Agora se a senhora me der licença...- desligo o computador e saio antes que ela pudesse mudar de idéia.
Pego meu carro. E tento chagar no lugar o mais breve possível. Mas esse engarrafamento.. Consigo sair do centro, graças ao bom Deus. Vou para uma ruazinha deserta. Juro que se não tivesse meus poderes eu me cagaria de medo. As casas parecem que vão cair aos pedaços. Vou ao número 55 e ½. Sim, parece bizarro, mas é um prédio escondido, pra não dar na vista. Fica entre o 55 e o 57. Sorte maior é não ter uma alva viva passando na hora. Faço uma manobre que me deixa frente a frente com o espaço mínimo entre os dois prédios. Engato a 1, jogo pra 2 e coloco direto na 3. Piso no acelerador e a uma velocidade impressionante eu atravesso o espaço. Fazendo sumir a rua deserta.
-Olá Sra. Elizabeth. Todos aguardam pela senhora no salão principal.-diz um bondoso ancião, Seu Frederico.
-Oh, olá Fred. Todos já chegaram-me sinto envergonhada, mesmo a culpa não sendo minha odeio chegar atrasada nas reuniões.
-Todos já se encontram lá, sra.
-Obrigada.
Levanto a janela do carro e coloco meu dedo num aparelhinho que fica no lado do motorista. A maquininha faz a leitura e logo em seguida fal em sua voz robótica:
-Demonstre sua habilidade na alvo a seguir, por favor.- olho ao redor não tem nada que eu posso arremessar no alvo. Decido então 'empurrar' o alvo com força. Concentro -me e lanço uma rajada de energia em direção ao centro do alvo.- Bem- vinda sra. Elizabeth Smith Edwards. Aperte 1 se deseja ir ao estacionamento. Digite 2 se pretende ir direto ao elevador. 1.A porta a sua frente estará abrindo em 5, 4, 3, 2, 1. Portão liberado.
Esse negócio de tecnologia pode ser bom mas às vezes o processo é muito demorado. São tantos botões que precisam ser apertados que se fosse um ataque de vida ou morte todos estaríamos mortos.
A garagem é grande, com vários andares também. Uma vaga para cada funcionário. Minha vaga fica lá em cima no último andar por eu e Andrew fazermos parte de uma cargo, digamos, um pouco alto. Subo todos os andares necessário, até chegar no correto, assim que eu chego dou de cara com o Porshe prata de Andrew e a Ducati amarela de meu irmão Chase parados lado a lado. Pra completar a família, paro a minha Mercedes R170 preta junto ao Porshe.
Vou até o elevador. A recepção era o caos. Todas as secretárias corriam com telefones pendurados na orelha enquanto puxavam pastas dos arquivos, ou digitavam frenéticamente para acompanhar o ritmo da outra pessoa falando na outra linha. Subo a última escada que dá em uma sala de paredes de vidro. Todos estavam calados. Acho que Andy não quis interferir no humor do local, ele só fazia isso com pessoas próximas ou quando a situação era necessária, não interferiria nos integrantes da Liga. Eu entro na sala, todos os olhares voltaram-se para mim. Parecia o primeiro dia de aula de uma aluna nova, ou quando sem querer e, lógico sem saber, usei meus poderes em público em um dia de fúria.
-Desculpem pelo atraso. Esse trânsito.. acaba com u...
-Sente -se Elizabeth.- falou Anne a esposa do chefão.
-Desculpe Anne.-digo ficando cada vez mais encabulada.
-Podemos começar, então Anne? Sabe, estou atrasado e tinha um encontro importante...
-Ora, quieto Caleb!- Anne falou rispidamente.
Anne era a esposa do grande líder da Liga, mas não era frágil, muito menos inocente. Ela era seu braço direito também e pelo jeito que estava em pé na ponta da mesa, hoje, ela estava no comando. Ela é uma baixinha marrenta, tem o poder de mexer com a eletricidade, criar raios, energizar eletrodomésticos, essas coisas... Não seria legal brincar com ela, em seus momentos de fúria, sai de baixo.
Caleb é um Dom Juan. Adora conquistar as mulheres. Esse é o seu poder: fazer com que as pessoas o adorassem, sendo necessário apenas uma troca de olhar. Não era difícil, Caleb é um homem bonitão. Alto, braços fortes, moreno, cabelos encaracolados, e muito bem vestido. Tenho que confessar que na primeira vez que entrei nesse lugar, há cinco anos atrás, muito antes de conhecer Andrew, eu cai na armadilha dele. Mas pra minha sorte não demorou muito e Andrew entrou para a Liga e conseguiu me tirar do encanto de Caleb. Não que Caleb conquistasse por mal. É o dom dele, cresceu sendo um grande conquistador, tem um bom coração, só que não agüenta um rabo de saia. Ele não é de ninguém, é de todo mundo.
Anne continuou, então:
-Vocês foram reunidos porque..-ela parece conter a raiva- porque... Richard foi seqüestrado pelos inimigos de 4 anos atrás.
Há 4 anos atrás, foi o maior confronto de minha vida. Todos os dotados foram convocados pra lutar contra um grupo de mal feitores que estavam espalhados pelo mundo todo querendo controlar o mundo e fazer dos humanos sem poderes seus escravos. Foi nesse confronto que conheci Andy. Ele foi um dos últimos a ser recrutado. Por pouco não nos conhecemos. Mas, graças a Deus, ele chegou a tempo de entrar pra minha equipe de batalha.
-Mas como isso foi possível, Anne?- disse Eleanor, a domadora de ventos.
-Ele havia ido viajar em em congresso com os gerentes das Ligas espalhadas pelo mundo. A conferência era em Roma. E deveria ter acabado, há dias! Mas não recebemos nenhum sinal de vida dos chefes. Todas as unidades estão alarmadas. E hoje, esse vídeo chegou à nossas caixas de e-mail - Anne pega o controle remoto em cima da mesa e aperta um botão.
Imediatamente, as paredes se abrem e um telão posiciona-se atrás da chefona. Um vídeo, no estilo terrorista da Al-Qaeda, em que Richard encontra-se numa bolha, tentando com seus poderes mentais como os meus só que 20 vezes mais fortes, perfurar a camada que o mantinha preso. Mais a frente um mascarado falava em algum idioma estranho que não soube identificar. O vídeo acaba com um cronômetro gigante em vermelho.
-Nós recebemos esse vídeo nessa manhã. E incrivelmente o cronômetro não parou de rodar. Não sabemos como eles conseguiram mantê-lo funcionando. Mas já conseguimos traduzir a fala do seqüestrador. Ela pega uma folha e lê o que estava escrito.

Estamos com seu líder. Nós sabemos que não são nada sem o comando desse senhor. Entregue-nos o Coração de Esmeralda e talvez tudo termine bem.

Coração de Esmeralda. Esse termo não me é estranho...
-Coração de Esmeralda? De novo essa história... -Chase se pronuncia pela primeira vez.
-O que seria isso, senhora?- Rose, irmã de Eleanor, cujo poder é controlar o elemento água, pergunta.
-Você não estavam aqui não é mesmo?- Anne se dirige à Eleanor e as outras três irmãs, juntas elas gostam de serem chamadas de EARTH.
EARTH quer dizer Eleanor, Ângela, Rose, Tinna e Helen, juntas elas seriam os elementos da natureza. Eleanor controla o ar; Rose controla a água; Ângela, o fogo; Tinna, a terra; e Helen é meio que o, hum, condensador de tudo. Ela é a responsável por invocar um poder grande, unindo os 4 elementos. Elas são as novatas, surgiram após essa briga contra os vilões. Viviam alheias ao mundo até que os ataques mundias começaram. Viram, então, uma necessidade de se juntar a Liga e ajudar na batalha.
-Coração de Esmeralda é uma pedra muito poderosa. Segundo nossos estudos secretos, essa pedra pode tirar ou dar poderes a quem a possuir. Mas ela não gera o dom, ela o drena de alguém e o transfere a quem possuí-la.-Anne continua explicando, olhando fixo nos olhos de cada uma.
-Com licença, Anne- Andrew levanta a mão e todos passam a olhá-lo na sala.- Você afirmou que a mente por trás desse seqüestro era a mesma organização que tentou dominar o planeta há um tempo atrás, certo?
-Correto.
-Como a senhora pode ter tanta certeza? Em momento algum, pelo que eu me lembre, a organização assumiu a autoria do crime. O que a leva a crer que são eles?
-Primeiro fato, Andrew: eles detinham essa pedra. Estavam fazendo estudos nela quando invadimos o covil e apreendemos todos as possíveis ameaças. Segundo: procuramos o retrato falado desse sujeitinho que fica ao fundo manipulando a bolha de Richard. Ele está na lista de integrantes dos inimigos. Terceiro: é só uma hipótese, mas muito bem plausível, eles querem vingança. Até hoje não se sentiram completamente derrotados e os planos maléficos ainda estão na cabeça deles.
Andrew se cala, mas eu sei que naquela cabecinha ele não engoliu nada disso.
-Bem, agora vamos aos finalmente. Chamei vocês aqui com urgência porque precisamos bolar um ataque aos inimigos.
-Desculpe-me, Anne, mas eu me recuso a atacar sem provas concretas. -Andrew fala. Como eu disse, ele não engoliu muito bem aquela história. Eu seguro firme suas mãos.
-Não se preocupe, não atacaremos efetivamente. Iremos só ficar de o lho. Para que não ocorram mais vítimas. Mas se sentisse incomodado, te colocarei na missão de resgaste. É isso pessoal, vamos manter a salvo nosso chefe Richard e se possível, prender o restante dos vilões que estiverem à solta.
-Eu farei parte apenas da equipe de resgaste. Espero que isso se mantenha firmado.
-Como quiser Andrew. Bem, mais alguém faz alguma objeção?
(Love Story) -Eu faço. Quero acompanhar meu marido.- eu levanto uma das minhas mãos, a outra continua firme segurando a de Andy.
-Não precisa faze isso.-Andy sussurra no meu ouvido.
-Mas eu quero. Não vou te deixar sozinho nessa nem nunca.-eu respondo.
-Mais alguém?-silêncio-Acho que isso indica que...
-Eu, Anne- todos, inclusive eu, se viram em direção de Chase- Vou fazer companhia à minha irmã e ao meu cunhado.
-Que seja. A família toda reunida. Pela quantidade eu diria que vocês são uma equipe, mais alguém quer ser juntar à equipe pra que eles tenham um número considerável?
-Eu vou com eles.- disse Cristinne
Cristinne tem o poder de ficar invisível. Mas o que me chateia mais é que ela já teve um rolo com Andy. Eu sei que ele me ama, mas eu não sei que artimanhas essa mulher pode armar pra tentar pegar ele de volta. Um ciúmes básico. Digamos que meu sangue começou a ferver um pouco. Acho que fiz Andrew perceber, pois ela apertou forte minha mão e meu animo se acalmou, imediatamente.
-Tudo bem Cristinne. De agora em diante já basta! A equipe de resgaste já está formada. Todos os outros quero que peguem as pastas que eu lhes entregarei. Saibam que cada um terá uma missão. Esta é pessoal e intransponível. Estes acompanhem-me. Vocês..-ela olha para mim, Andy, Chase e Cristinne- me esperem aqui.
Anne sai da sala e o restante das 'pessoas' a seguem. Assim que a porta se fecha Chase explode:
-Vocês ficaram malucos?! Como podem desafiar a esposa do chefe dessa maneira?
-Nós não desfiamos ninguém, Chase. Eu estou apenas fazendo o que acho certo. Não pedi pelo apoio de ninguém aqui.-diz Andy calmamente. Parece também que ele está tentando dar serenidade a meu irmão sem um contato direto, o que segundo ele é bem mais difícil.
-Se não está satisfeito, Chase, volte para a equipe de Anne, abanando com rabinho entre as pernas.
-Você sabe que eu não vou fazer isso, Cristinne. Tenho que.. proteger minha família.
-Uooou.. pera lá maninho. Eu não te pedi proteção alguma. Você sabe muito bem que eu sei me cuidar.
-Na verdade eu fico mais tranqüilo com seu irmão aqui. Não me perdoaria se não conseguisse te proteger.- disse Andy sussurrando em meu ouvido novamente.
-Você sabe que eu não preciso de proteção.
-Quanto mais segura você estiver, melhor eu me sinto.- ele pega minha mão e a beija delicadamente.
Como é possível não amar esse homem? Pude ver rapidamente os olhos de Cristinne se desviando da cena. Parecia que doía nela.
Depois de 40 minutos, Anne abriu a porta novamente.
-Então vocês não querem ter que matar ninguém, não é mesmo? Acha que para um resgaste não haverá sacrifícios? Pois, bem, saibam que esse é um trabalho tão perigoso e homicida que o outro.
-O que eu não quero é matar inocentes. Só isso. Você sabe que, se bem planejado, todos saem ilesos. Incluindo os bandidos, que vão pra cadeia, o lugar deles-disse Andy, mas dessa vez a voz dele não parecia mais tão serena.
-Que seja, Andrew Edwards. Vocês irão para Roma, lá foi o último lugar que foram vistos. Não se esqueçam da discrição. Ninguém pode suspeitar que Richard está em perigo. Se isso vazar, vocês sabem as regras.
Aquela sensação de frio na espinha percorreu por minhas costas. Aparentemente não só na minha, pois Chase e Cristinne fizeram uma cara de que algo os desagradava e Andy, preciso dizer de novo que a tranqüilidade parece ser seu sobrenome? Acho que esse dom dele faz ele um pessoa calma.
Encerrado o assunto, depois de muitas coordenadas e táticas superficiais. Partimos cada um pra sua casa, fazer as malas. Pegaríamos o próximo vôo para a Roma. No estacionamento combinamos que todos iríamos em um carro só, o de Andy, para não ficarmos, hm, desprotegidos. E chegando lá, Cristinne pegaria alguns veículos emprestado com amigos, só para podermos nos locomover normalmente.
Chegando em casa, corremos para arrumar as malas. O que levar? Não tenho idéia. Pensa, Liz. New York, verão. Ahh, lá deve ser verão também. Enquanto eu penso, as malas estão abrindo e alguns itens de necessidades básicas flutuam em direção às malas. Algumas roupas também fazem uma auto-dobragem e se instalam na mala. Andy está procurando passaportes, documentos e essa papelada importante em viagens.
-Amor, quer que eu faça suas malas?
-Não, Liz. Pode deixar eu não vou levar muita coisa.
-Eu já fiz as minhas. Não custa nada eu fazer as suas.
-Então, está bem. Faça do jeito que você acha melhor. Só nçao esqueça daquela blusa.
-Já sei, sua blusa da sorte.
-Essa mesma.
È uma blusa que já está mais pra lá do que pra cá. Por conta do último combate com as forças do mal, a blusa ficou um pouco prejudicada, mas minha costurazinha deu um jeito. No entanto, por questão de moda, eu insisto para ele usar só por debaixo de outra blusa. Eu já falei pra ele que esse negócio de camisa é besteira. Ele rebate dizendo: “ Eu estava com essa blusa quando te vi pela primeira vez. E você está aqui agora, não está? E tudo não acabou bem? Então, pronto. Essa blusa me trouxe um grande tesouro. Quem sabe o tesouro não se multiplica? Meu investimento para o futuro.” Depois de uma frase dessas o que mais eu falaria. Fiquei calada e dei-lhe um beijo. Acho que foi um prêmio merecido.
Com todo cuidado do mundo peguei a blusa, essa eu fazia questão de usar as mãos. Se pensarmos da mesma maneira que Andrew, essa camisa também me deu sorte. Ela fez com que Andrew e eu ficássemos juntos. Ele também é meu tesouro e eu não via a hora de fazer esse tal investimento.
Quando eu peguei a camiseta, sem querer eu peguei um pacotinho, embrulhado com um papel bonito e uma fita chamativa. Era estranho porque não estava perto de nenhum aniversário, nem eu tinha comprado um presente. Guardei a blusa na mala dele e virei-me para o pacotinho, ao mesmo tempo que a mala dele fechava o zíper (ela já estava pronta). Puxo a fita e percebo uma mão me impedindo. Andy olhava nos meus olhos com muita intensidade. Eu confesso que estava confusa, mas eu não tinha nenhum tipo de sentimento que eu quisesse colocar pra fora.
-O que é isso, Andrew?
-Acho melhor você não abrir.
-Fale agora. Fiquei curiosa.
-Desde que você me prometa que poderei ficar abraçado com você até eu achar que é necessário.
-Você está me deixando preocupada.
-Apenas prometa.
-Tudo bem.
-Isso foi da Cristinne. Antes de eu pedir você me casamento eu ia dar essa anel a ela.
-Anel? Mas por que você ia...? Não!! Você ia casar com ela?
-Era essa a idéia.- meu sangue fervia. Subia dos pés a cabeça. Como eu havia prometido, ele então me abraça com força, fazendo movimentos nas mechas do meu cabelo castanho. A raiva em si não passava, mas a agressividade com que esse sentimento tomava meu corpo ficava menor. Andy é muito bom nisso, convenhamos.
-Desculpa, mas meu sangue ferve sem que eu me controle. Eu sei que isso não significa nada, que agora, você está casado comigo, com uma aliança linda no meu dedo, diga-se de passagem.- disse com um sorriso na cara.
-Eu sei que você não controla suas emoções, eu sim.- outra troca de risinhos.- Eu lembro de quando a gente brigou a primeira vez e toda a mobília e
os bibelôs flutuavam pale casa. Acho que nunca tinha usado tanto meu poder pra acalmar alguém.
-Ahh... Pára Andrew. Não seja exagerado- eu morri de vergonha e fiquei muito vermelha. Será isso possível, mesmo depois de alguns anos casados ainda sentia a mesma vergonha de como se fosse a primeira vez?
-Dessa vez eu não vou interferir. Gosto de quando você fica assim, envergonhada.- ele me balança em seu braços. A resposta à pergunta anterior é sim, é possível.
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O aeroporto JFK está lotado. Será coincidência todos querendo viajar? Sorte nossa que a Liga tem seus contatos e já estamos prontinhos pra embarcar nesse momento.
Foi uma viagem de 8 horas e 40 minutos. Os assentos estavam divididos assim: eu e Andrew nas poltronas da frente e Chase e Cristinne nas de trás. Chase não parece ter gostado de ter ficado ao lado da Cristinne. Ela não abriu a boca uma vez sequer. Minto, disse sim: “Quero água, por favor.” Chase odeia esse tipo de pessoa, amargurada. Cristinne não tirava os olhos de nós dois um minuto, eu podia sentir o olhar dela em minhas costas. Andrew parecia não se importar, como sempre. A prova definitiva de quão entediante foi a viagem foi o desabafo de Chase já na esteira rolante, na hora de pegar as malas:
-Que coisa mais irritante essa menina. Lembre-me de na volta eu sentar a milhas de distância dela, do outro lado da aeronave! Odeio pessoa que não interage! Ela não abriu a boca uma vez sequer!!
Corremos pra deixar as malas no hotel. Mas não ficamos para um descanso, apesar de 8 horas ser muito pra mim. Fomos para o QG da Liga na Itália. Antes, porém, passando na casa do conhecido da Cristinne, que nos emprestou alguns carros pra nossa locomoção na cidade. Ele deixou que escolhêssemos qualquer modelo de carro ou moto e lógico que Chase já foi direto pra seção das máquinas de duas rodas. Sério, esse garoto tem tara por motos e não sei de onde isso veio! Andy queria um carrinho discreto, mas não tinha nenhum, apenas carrões. Pegou uma Ferrari California vermelha, o oposto completo de discrição que ele desejava. Cristinne pegou uma Lamborghini prata.
Depois de muito bem servidos de veículos possantes, fomos para o QG de Roma, onde supostamente todos os líderes estavam reunidos. O quartel fica escondido numa das salas do Palazzo Chigi. Entramos com uma das identificações dadas pela Anne (ela havia dado vários ID's, carteiras de motorista, passaportes com vistos para vários lugares, entre outros documentos). Eu podia jurar que um daqueles guardas não me era estranho e não tirava os olhos da gente, mas vai ver era só impressão minha.
Num corredor repleto de portas que davam pra salas com reuniões de bastante importância, estávamos nós. Segundo a papelada que estava dentro de uma pasta entregue por Anne a porta era um sala secreto dentro de uma outra sala normal como as outras. Seria a sala de conferências número 4. Não pudemos entrar imediatamente, pois esta estava sendo utilizada pelo Primeiro- Ministro italiano para decisões urgentes.
Fomos avisado que aquele encontro acabara de começar e que duraria uns 50 minutos. Decidimos, então, dar uma volta por Roma, não queríamos ficar plantados, mofando na porta. Além de não levantarmos suspeitas. Fomos passear pelas ruas, perdemos Chase de vista ao passarmos por um grupinho de italianas, Cristinne decidiu ficar, disse que não estava com ânimo pra passeio, achou melhor ficar e avisar-nos quando a conferência tiver terminado.
Paramos no Coliseu, mas o horário de visitação estava encerrado. Discretamente, Andy me abraçou e subiu até um das janelas da estrutura. Ele teve todo o cuidado de não sermos descobertos. Ficamos sentados ali, olhando pra arena vazia. Um do lado do outro, abraçados (fazia um friozinho por estar anoitecendo, mesmo sendo verão). Andy fala depois de muito tempo desde que nós sentamos na arquibancada:(Never Think)
-Está com muito medo?
-Um pouco. Esse negócio não está me cheirando bem. Sinto que as coisas são piores do que eu imaginava antes.
-Calma, Liz.- e aquela onda de calmaria invade meu corpo de novo- Eu farei você ficar tranqüila e nada de mal irá acontecer.
-Assim espero.- abraço Andy o mais forte que eu consegui.
Nesse momento o telefone toca. Andrew atende, era Cristinne:
-A reunião vai acabar em 10 minutos. Acho que é melhor vocês voltarem logo.
-Como você sabe?
-Isso importa? Ahh.. eu me tornei invisível e entrei. Só isso, está bem? Venham logo!
Chegamos prontamente, todos nós, incrivelmente Chase também. Cristinne nos esperava do lado de fora do prédio mas ainda dentro dos portões, chegou destilando seu azedume:
-Agora, alguém me explica uma coisa? Por que precisamos esperar tanto tempo pra entrar se Chase poderia ter mexido no tempo?
-Eu não vou mexer no tempo por dois motivos essências. Primeiro: Eu preciso tocar nas pessoas pra poder mudar o tempo. Como eu faria com todos daquela reunião? Além de ter os carinhas na teleconferência em um outro lugar que eu não tenho idéia!? E segundo: eu tenho bateria curta.- responde entre dentes Chase.
-Bateria curta como assim?- continua Cristinne.
-Eu ficaria fora de ação por algum tempo, até meus poderes voltarem 100%, ou seja, quando nós realmente precisássemos eu estaria incapacitado.
-Como se você fosse ser de grande importância.
-Não subestime a necessidade de Chase aqui, Cristinne.- minha voz saiui mais calma do que eu mesma esperava. Será Andy novamente?
-Vamos encerrar com isso e entrar de uma vez, ok?- Andy se intrometeu.
Todos seguimos por aquele corredor de novo e dessa vez entramos na sala sem ninguém que pudesse atrapalhar. A passagem pra nossa sala de segurança ficava na parede atrás da grande TV usada pra grandes conferências. E o botão ficava embaixo do poste da bandeira americana. Sério, qual é a fixação dos norte-americanos com bandeiras? Elas estão por todos os lugares!
A parede soltou umas fumacinhas e abriu, logo depois a vozinha mecânica igual ao lá do QG central da Liga falou em um italiano fluente:
-Reconhecimento de poderes. Por favor, pressionem o polegar contra a o sensor aqui. Suas identificações serão confirmadas e a porta se abrirá para apenas um de cada vez.- Cristinne falava italiano fluentemente e traduziu simultaneamente.
O primeiro a se pôr à frente da leitora foi Andrew, um susto pra mim. Eu não gosto quando ele se prontifica assim, apesar de achar louvável. Passou sem problemas. Era minha vez, mas só porque eu tinha me metido na frente de Chase, ele cambaleou pra trás, porém ficou firme rapidamente. O meu demorou um pouco, bateu um desespero depois que a vozinha falou:
-Essa á ultima tentativa. Em caso de falha, a destruição da sala é certa.
Andrew já estava lá, eu nunca tinha entrado, não sabia se existiam saídas de emergência pra esses casos. Minhas mãos suavam frio, calafrios subiam e desciam pela minha espinha, alguns objetos ziguezagueavam (isso sempre acontece em momentos de nervosismos:
-Calma, mana.- Chase falou tentando me reconfortar. Ele não era Andy, logo foi um esforço em vão, mas não tiro os créditos dele.
Coloquei os dedos vagarosamente no sensor e rezei baixinho. Os anjos ouviram meu chamado e a porta abriu, finalmente. Pude ver do outro lado Andrew com um sorriso de orelha a orelha. Saio correndo pra abraçá-lo e deixá-lo me acalmar como sempre fazia. Alguns segundos depois Chase aparece e, em seguida, Cristinne. Estávamos prontos pra começar a investigação.
A sala estava um pouco escura devido a algumas lâmpadas que parecia terem sido quebradas. Olhando melhor, não apenas as lâmpadas, mas tudo parecia meio quebrado. A mesa estava revirada; no computador faltavam peças no teclado; os quadros com reportagens sobre as atuações heróicas ou estavam no chão ou estavam tortos e com vidros quebrados ainda na parede.
-Parece que passou um furação por aqui!- Chase pareceu perceber o mesmo que eu. Tudo estava na maior bagunça!
-Será que alguém invadiu esse lugar?- indaga Cristinne.
-Não tem como- eu digo- a trava de segurança parece não ter sido violada. Tirando aqui dentro, o resto parece estar como antes.
-Vamos dar uma olhada em tudo. Não deixemos de observar cada canto dessa sala.- Andrew falou firmemente.
Começamos a olhar tudo: debaixo dos móveis, dentro dos quadros, tentamos, inclusive religar o computador pra mexermos nos arquivos e acessar as gravações que ficava sendo monitorada 24 horas por dia. Nada.
-Isso está impossível! A bagunça só atrapalha!- Cristinne resmungou.
Ninguém retrucou. Todos ficaram calados, contudo sem parar de olhar. Aproximei-me de uma parede ao fundo do computador. Tinha um fio dourado e outro prateado saindo da quina. Eu acabei puxando ambos, sem consultar ninguém antes usei tosa a força. Tudo começou a tremer.
- O que você fez, Elizabeth?- grita Cristinne.
-Só puxei duas cordinhas que saíam do canto.
-Você não deveria ter feito isso, meu amor.- fala Andy num tom de prudência- Mas não adianta chorar o leite derramado.
-Eu sei. Desculpe, eu não tomei os...- e o chão se abre onde eu estou.
Caio num buraco, num túnel metalizado e escorregadio que me leva pra um lugar desconhecido. O caminho parece longo e eu descia cada vez mais rápido. Eu andava treinando pra movimentar pessoas e não só objetos. Mas ainda estava muito fraca nisso. Eu conseguia me estabilizar no ar, mas não teria forças pra me fazer subir todo o caminho de novo, eu certamente cairia na metade do caminho de volta. Além do mais, eu não conseguia enxergar o início do túnel. Ouvia murmúrios e nada mais. Por isso me deixe seguir o caminho e ver onde dava.
Caí de bunda num estofado e estava tudo escuro. Não dava pra ver nem um palmo a minha frente. Ouço passos e vejo vultos, não escuto mais nada. Minha cabeça dói loucamente.
ANDREW
-Liz!! Lizzie!!!- eu grito com muita força.
Ia me jogar em direção ao buraco quando uma mão me impediu. Chase me agarra e me tira de perto do buraco.
-Mas o que você está fazendo?- tento me livrar dele.
-Eu não posso deixar você fazer isso. É arriscado demais!. Vamso ter calma e arma um plano pra resgatá-la com segurança.
-Você nem sabe se ela está machucada no final desse buraco ou se ela está nas mãos de alguém! Não podemos deixá-la aí.- ainda me debatia muito.
-Deixe ele ir, Chase. Ele tem razão vai ver que Elizabeth está machucada no final do túnel. Temos que ter certeza de onde isso vai dar. Solte-o.
Chase me larga com a cara fechada, que eu trato logo de mudar pra pelo menos um sorrisinho.
-Ora Andrew, pare de usar seu poder! Vai logo atrás da minha irmã!
Eu não preciso ouvir duas vezes. Me jogo no buraco. Vou voando, já que eu não sei quando nem onde é mais seguro. Espero não ser tarde demais.
Minha cabeça lateja num bater descompassado, sentia meu sangue pulsando pelo galo gigante que se formava na minha cabeça. Só depois percebi que estava estirada no chão frio, sob uma luz incandescente branca que doía meus olhos. Onde eu estava? Não conseguia me manter sentada, parecia que tinham arrancado toda minha energia de uma só vez. Com certo esforço eu me mantive de pé apoiada no vidro da redoma que me cercava.
Tentei enxergar alguma coisa, mas aquela luz realmente estava me incomodando muito. Fiz um esforço tamanho, mas parece que valeu a pena. Pude identificar outras redomas e algumas pessoas com suas mãos e pés presos numa parede, alguns guardas monitorando alguma coisa e comendo rosquinhas. Até que uma pessoa chamou minha atenção, ela tentava chamar um dos guardas:
-Eii.. meu filho por favor, será que você poderia...?
-AAHH.. cale a boca velho!- ele aperta um botão e a redoma do senhor começa a brilhar e ele a urrar de dor. Pessoas más!
Os outros prisioneiros que não estavam adormecidos fecharam os olhos pra não encararem a cena forte.
Eu tentei usar meus poderes pra fazer com que a mão do cara saísse do botão, porém nada aconteceu e só fez me sentir mais fraca. Caio no chão frio novamente. Meu olhos não querem abrir, estão muito cansados. Tudo apaga de novo.

CONTINUA NO PRÓXIMO EPISÓDIO...

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Amitié, friendship, amicizia, freundschaft: Amizade.



Ane

Já era tarde da noite quando eu recebi a ligação de Arabella. Fiquei feliz quando ela se identificou, pois já fazia um bom tempo que eu não tinha noticias. Todavia, quando ela especificou o porque da ligação, minha felicidade se esvaiu.
- Elein me ligou. – ela disse. – Está precisando que nós nos reunamos urgentemente porque alguma coisa estranha está acontecendo. Não quis me dar detalhes por telefone.
Então acabamos marcando essa reunião pra onde estamos indo nesse exato momento. Eu e René, digo. René Charles, meu namorado René. O francês com quem eu acabei me envolvendo quando resolvi fixar moradia na França de vez. Aquela coisa toda de mochilão pela Europa já tinha me cansado. E além do mais é a França, minha queria França! Terra adotada por meu querido Johnny Depp.
Não posso reclamar muito quando a localidade dessa reunião, já que tudo que nós temos que fazer é andar alguns bairros. Foi chegada a conclusão que a França é o ponto mais próximo entre os quatro países onde nós quatro estamos morando: Itália, França, Alemanha e Inglaterra. Então, beleza. É até bom que seja rápido, porque estar nesse carro com René está me matando aos poucos. É difícil ficar num espaço tão pequeno quanto o de um C3 Puriel quando você está brigada com o motorista.
Mais uma daquelas nossas brigas clássicas. Pra falar a verdade, eu nem lembro mais como começou, só lembro que de repente ele estava berrando em francês comigo, com aqueles olhos azuis cinzentos mais esbugalhados que os olhos de Arabella e eu berrando em português com ele, muito irritada. No fim de toda a discussão eu tento mandar um Ana memorare nele, para apagar todas as lembranças da briga, mas ele está bloqueando meus poderes, o que gera ainda mais discussão. É assim que estamos quando o telefone toca e Bella nos convoca.
Então o rádio está tocando alguma coisa da moda, eu estou divagando na bela paisagem francesa e René está concentrado em dirigir o mais rápido possível pela ampla estrada. Não para que nós saibamos o que está afligindo Elein, mas porque ele não agüenta mais ter que dividir esse carro comigo e com o enorme silêncio.

Elle

Digo que foi uma surpresa quando Ane ligou. Fazia tempo que não ouvia noticias de minha amiga metida a louquinha. Estava assistindo Lost com Harry, totalmente confortável sobre seus ombros largos e coberta pela minha coberta verde preferida, quando o telefone interrompeu.
Ela me disse que Elein havia telefonado para Bella, que havia telefonado para Ane, que havia telefonado para ela, falando que ­­precisava de uma reunião urgente. Harry não ficou muito feliz com essa nossa viagem inesperada, mas ele entende quando eu digo que se trata de um caso de vida ou morte. Mesmo que eu não saiba exatamente do que se trata.
Então, saímos cedo no dia da combinada reunião, porque ainda tínhamos que dirigir até Folkestone, de onde poderíamos mandar o Volvo pra Calais, na França.
Acabamos de entrar no volvo novamente, indo em direção a Paris, onde vamos encontrar as meninas. Harry não está muito feliz com o fato de ter de dirigir mais um pouco, mas eu sempre posso usar meus poderes de persuasão em cima dele. Ele não consegue negar nada quando eu uso meus potentes olhos brilhantes e puxadinhos.
- Harry, não me diga que você está usando sua visão de raio-x! – eu reclamo, ao ver que ele está com aqueles olhos de esmeralda apertados olhando para frente, enquanto estamos parados num pequeno congestionamento.
- Só quero ver que merda está acontecendo lá na frente pra estar tudo congestionado dessa forma. – meu namorado diz, seu sotaque inglês extremamente sensual ainda faz meu coração disparar. – Ah, a polícia está fazendo uma vistoria em alguns caros. Que droga!
- Não me diga que você não está com os documentos em ordem, Harry! – eu o encaro, meus olhos se estreitam.
- Mas que droga, Elle, pare de usar essa porcaria desses seus poderes em mim! – ele responde, indignado. – Eu sei que eles estão aqui em algum lugar.
Eu bato com minha mão na cabeça, irritada. Olha só, se eu não tivesse esse dom da persuasão e não pudesse dar umas piscadelas pra fazer os policiais esquecerem sobre os documentos do carro, estaríamos em maus lençóis e atrasados para a reunião. Harry não sabe a sorte que tem, ham.

Arabella

Quase deixei o controle despencar de seu translado realizado através da minha telecinese quando Stefano me chamou, dizendo que Elein estava no telefone e queria falar comigo. Não tinha noticias dela há muito tempo. Agradeci ao meu namorado e num piscar de olhos me teletransportei para a biblioteca de nossa casa. Quer dizer, biblioteca parcial. Ainda tinha aquela enorme mesa de sinuca no meio do quarto e aquele frigobar escondido entre os livros. Foi minha concessão quando vim morar na casa de Step: que ele transformasse a sala de jogos em uma biblioteca. O que ele fez, parcialmente.
- Arabella, preciso de ajuda! – Elein disse, no nosso bom e velho português, tensa. – Precisamos reunir todas as meninas de novo. Urgente.
- Mas o que aconteceu?
- Não dá pra falar por telefone. Não quero correr o risco de que alguém ouça, nunca se sabe onde estão escutas nesse lugar. – ela disse. – Enfim, o quanto mais breve possível. Você pode avisar as garotas?
- Claro! – eu digo, meio alarmada. – Semana que vem em Paris?
- Semana que vem em Paris. – ela concorda. – Duas horas da tarde, em ponto.
Logo depois eu recebo uma sms com o nome do hotel onde devemos nos encontrar, e com uma googlada rápida eu encontro o endereço.
Isso explica então porque eu estou na garupa de uma moto por tanto tempo. Provavelmente seria mais prático pegar um avião ou até mesmo um trem para percorrer esses mil quilômetros. Ou eu poderia teletransportar-nos. Mas Step não deixou, disse daquele jeito dele:
- E quando a gente chegar lá e precisar se locomover? Vai ficar nos teletransportando toda hora, não acha que será no mínimo suspeito?
Então, tá.
Provavelmente eu teria peitado e enchido o saco se fosse outro motoqueiro, mas é de Step que estamos falando. Então eu juro que realmente não me incomodo.
Quer dizer, se a gente praticamente não parasse, daria 15 horas de viagem. Mas acabamos aumentando para dois dias, com paradas e pernoites nesses hotéis de estrada. Menos cansativo e mais interessante. Bem mais interessante.
É uma facilidade quando seu namorado tem o dom de entender todas as línguas existentes no mundo e se comunicar com elas, mesmo que nunca tenha as ouvido antes. Ajuda bastante quando você precisa se hospedar num hotel bem no meio da Suíça, com aqueles caras estranhos do outro lado do balcão falando uma língua bizarra pra você (alemão, presumo, já que se fosse italiano ou francês eu entenderia). Mas então Step vira e responde todo classudo na mesma língua bizarra, ficando totalmente irresistível, diga-se de passagem. Tão irresistível que eu me distraio e deixo cair a única mochila que estava carregando nos meus pés.
E, como eu sou tão incrivelmente sortuda, alguma coisa arranha lindamente o peito do meu pé exposto pela minha sandália baixa e ele começa a sangrar.
- Ah, droga. – eu reclamo.
Step pega a chave e olha para mim, depois para meu pé.
- Ai Bella, de novo? – ele reclama da minha falta de coordenação.
Eu só mando meu olhar flamejante na direção dele, enquanto andamos até o quarto. Quando ele finalmente abre e nós dois entramos, fala apontando para meu pé sangrento:
- Subsisto loco rememdium!
Então, como esperado, o sangue escorrido volta limpo para dentro da ferida e ela se fecha em segundos, sem nem deixar uma cicatriz.
- Muito obrigada. – eu digo sorrindo.

Elein

Ralf tenta me convencer que tudo está bem pela milésima vez.
- Nós chegamos um dia antes do combinado, Elein. – é o que ele diz, quando estamos os dois sentados sobre o capô do Audi preto dele.
- Eu sei, mas estou nervosa. – respondo. – Espero que ninguém se atrase.
Ele me diz que não vão, passando o braço pelos meus ombros. O sol está se pondo em Paris, começa a ficar frio.
Ralf faz uso da sua super velocidade para pegar um casaco para mim no quarto do nosso hotel, sem que ninguém nem perceba que ele saiu do meu lado por algum momento.
- Porque eu não prevejo o futuro, ham? – eu reclamo pra ele. – Se eu visse o futuro, poderia saber se elas já estão chegando!
- Quer parar, El? – ele usa meu apelido, mesmo que só ele me chame assim. – O dom da clarisciência é um dom lindo, e se você não tivesse ele nunca saberia de toda essa confusão, pra inicio de conversa.
Ralf. O sempre metódico e de raciocínio lógico Ralf.
- Porque você tem de estar sempre certo?
Ele ri. Aquele som gostoso. Sua mão que não esta agarrando meus ombros, segura minha mão com firmeza. O sol termina de se pôr.
O pôr do sol mais bonito que já vi em minha vida, não tenho dúvidas. O namorado mais bonito que já tive em minha vida, não tenho dúvidas. Finalmente depois de meses de luto por conta do meu primeiro e até então único namorado idiota e sem coração, me apaixonei de novo. Por aquele estudante intercambista alemão da universidade: Ralf.
E nessas horas eu penso que todo mundo estava certo sobre duas coisas:
a) quando diziam que eu precisava aprender inglês (e eu realmente precisei, ou então nunca conseguiria me comunicar com ele);
b) que um dia eu iria achar alguém que me completasse, que me deixasse feliz e que me fizesse acreditar de novo no amor.
Ralf!
- Pena que eu não posso controlar o tempo! – reclamo de novo. – Se eu pudesse controlar o tempo, poderia fazer elas...
- Elein, cala a boca. – ele diz, pra depois me beijar sobre aquele lindo pôr do sol francês.

Ane

Encostamos o carro no hotel em que combinamos de nos encontrar, próximo a praça da república: Hotel du Grand Prieuré. Saímos dele, procurando por qualquer uma das garotas. René reclama alguma coisa, mas eu ignoro porque ele ainda não me pediu desculpas e nós ainda não estamos nos falando.
Entramos no hotel, duas estrelas. René cumprimenta o cara da porta com um olá, eu não digo nada. Carregamos nossa pequena bagagem para dentro. Ele pede um quarto duplo, o cara pergunta se temos reserva, ele diz que não, o cara faz uma cara feia e pergunta por quanto tempo vamos ficar, ele me olha interrogativo.
- Nous ne savons pas encore. – arrisco dizer para o recepcionista, afinal francês é minha segunda língua, apesar da minha fluência ser muito maior em inglês.
Então o francês simpático do outro lado sorri pra mim e responde que tudo bem se não soubermos ainda, que é pra nós pagarmos só no fim da estadia, então.
J’aime la France!
Então eu resolvo arriscar de novo e perguntar se uma senhorita Elein Seavon se encontra hospedada. Ao que ele responde que “oui oui”, tem uma senhorita Elein Seavon hospedada num quarto duplo com um rapaz chamado Ralf Süskind. René levanta as sobrancelhas pra mim, enquanto eu penso no que acabei de ouvir. Da mesma forma que é bem improvável que exista outra Elein Seavon no mundo, também é bem improvável que a minha Elein Seavon esteja hospedada com um cara chamado Ralf sabe lá Deus mais o que.
- Chambre 234. – ele responde, quando René pergunta em qual quarto ela está.
René termina de fazer o registro, colocando-o no nome dele: Chevalier. Não que eu esteja reclamando, mas também não é algo que me deixe extremamente contente. Mas enfim, ele é o homem do casal no fim das contas.
Então nós dois agradecemos e subimos em direção ao nosso Chambre 237. Deixamos toda a nossa bagagem lá e logo saímos para bater na porta do Chambre 234.
Elein abre a porta, vestida com seu conhecido robe de bolinhas.
- Ane! – ela diz, visivelmente feliz, me abraçando. – Que bom que você chegou!
- Ah, que saudade! – eu digo fitando seu rosto alegre.
Não a via tão alegre desde que o idiota do ex namorado dela terminou com ela lá pro meio do nosso último ano da escola.
- Esse aqui é René. – eu digo, em inglês dessa vez.
- Olá. – René a cumprimenta com dois beijos na bochecha, considerando-a praticamente família.
Ela me manda um daqueles olhares que diz “ai meu Deus, Ane! De onde surgiu esse cara?!”.
- Prazer em conhece-lo. – ela responde ao olá, ainda em inglês. - Ah, esse é Ralf.
Então vindo de trás da porta, aparece uma pessoa razoavelmente alta e totalmente loira com dois olhos tão azuis, que só posso comparar ao céu sem nuvens brasileiro.
- Ouvi muito de você. – ele diz, me dando um aperto de mão bem forte.
- Bem, eu espero. – respondo, olhando para Elein.
- Com certeza bem. – ele diz, cumprimentando agora René.
- Onde estão as outras meninas? – Elein pergunta, em português.
- Não sei. – respondo, também na nossa língua nativa. – Elle deve estar pra chegar. Arabella deve demorar mais um pouco, Roma não é tão perto de Paris assim.
Ela assente. Nossos namorados estão entretidos falando sobre futebol, uma pequena discussão sobre o vencedor da Eurocopa do ano passado. Homens.
- Então, quer me contar o porque dessa reunião? – pergunto.
- Prefiro esperar todo mundo chegar. E prefiro que seja fora desse hotel. – ela responde. – Vamos sair e esperar o resto das meninas lá fora.

Elle

Avisto Elein, Ane e dois rapazes não identificados à distancia. Elas acenam de volta, quando eu abro a janela para fazer o mesmo. Rapidamente, Harry estaciona o volvo do lado de um citroen, que por sua vez, está do lado de um Audi. Hum...
Assim que eu coloco os pés para fora, as duas meninas vem me abraçar. Elas estão lindas, poderosas, absolutas! Estava com tantas saudades!
Então começa uma onda de apresentações. René, namorado de Ane, um francês de média estatura e olhos cinzentos me cumprimenta simpaticamente com dois beijos na bochecha e Ralf, namorado de Elein, me dá um forte aperto de mão.
Eu olho de René para Ane por alguns segundos, antes de dizer em português, para que os meninos não entendessem:
- Ane, ele é a cara daquele nosso professor de filosofia por quem você tinha um crush! – rio. – Não é filho dele ou algo assim, é?
Ela ri também.
- Deixe de besteira. – é o que diz.
Então deixo de ser mal educada e apresento Harry as meninas. Ele é extremamente agradável, sorrindo enquanto beija a mão das minhas amigas (ele não pode deixar de ser cavalheiro nem um minuto, meu Deus) e aperta a mão dos namorados delas.
Eles três se vêem envolvidos numa conversa sobre futebol. Parece que estão achando realmente interessante que sejam cada um de uma nacionalidade diferente e por isso é legal discutir sobre as seleções e quantas copas do mundo que cada um tem.
- Caramba, estamos bem, não é mesmo? – eu digo para elas, olhando para os três conversando.
- Estou tão feliz com Ralf, gente. – Elein diz, meio sonhadora.
- Dá pra notar. – Ane diz. – Aliás, vocês duas estão praticamente andando pelas nuvens.
- Ah sim, porque René não te deixa nem um pouquinho feliz, não é mesmo? – pergunto, sarcástica.
- Eu poderia até responder a essa pergunta, mas então teria que apagar a memória de vocês sobre esse aspecto e isso não seria muito interessante, se quer saber. – ela responde, sorrindo.
- Não se atreva, mocinha. – Elein responde, rindo também.
Nós três olhamos para nossos namorados de novo.
- Sabe, não podemos ficar dando muito na cara nossos dons. – eu digo. – Quer dizer, eu não queria dizer nada, mas Harry tem dons também, então ele não vai achar estranho o fato de nós podermos fazer o que fazemos, mas e quanto a René e Ralf?
As duas riram. Depois se encararam por estarem rindo.
- Ralf também tem um dom!
- Meu Deus, René também!
Nós três rimos da estranha coincidência.
- Onde vocês acharam eles, no bar dos esquisitos bonitões? – Ane pergunta, ainda rindo.
- Não. – eu respondo. – É aquela velha estória de predestinação.

Arabella

Certo, então nós perdemos um pouco a hora. Desculpa se o hotel da Suíça era tão acolhedor e tinha um chocolate tão delicioso e uma banheira de hidromassagem no quarto! Pois digo que a culpa do atraso é de Stefano que ficou me distraindo com todo aquele charme e seus mia bella.
Mas quando nós finalmente conseguimos achar a rua certa, não é difícil achar o hotel. Até porque, espiando por cima dos ombros grandes de Step, eu vejo Elein, Elle e mais dois caras. Stefano pára a Harley ao lado de um lindo volvo prata. Eu desço rapidamente, arrancando meu capacete.
- Bella! – as três gritam em uníssono, quando me reconhecem.
- Oi, lindas! – eu digo, feliz por reencontra-las.
Step está terminando de tirar as nossas outras bolsas do compartimento e colocar os capacetes no lugar. Carregando algumas sacolas, ele se põe ao meu lado, ridiculamente alto comparado a elas.
- Esse é o Stefano. – eu digo em inglês, pra que ele não se sinta excluído.
- Olá. – elas respondem, enquanto ele fica incerto se as cumprimenta com um aperto de mão ou um beijo no rosto. Acaba optando pelo aperto de mão.
- Ciao. – é o que ele responde, num italiano pelo qual eu babo muito.
Depois as três me lançam um olhar peculiar e rimos.
Sou apresentada a Ralf e René, namorados de Elein e Ane. Não poderiam ser mais a cara delas, diga-se de passagem. Elle começa a dizer alguma coisa sobre seu namorado estar fazendo check-in, mas então alguém diz “hey, pretty” logo atrás dela e ela me apresenta Harry. O que não poderia ser mais a cara dela também. Os três garotos se juntam pra conversar, Step continua parado do meu lado.
- Estou tão feliz que estejamos todas aqui! – eu digo. – Desculpa pelo atraso.
- O importante é que você chegou. – Elein responde.
- É, - Ane concorda. – vá logo fazer seu check-in, porque eu estou doida pra saber qual é o motivo dessa reunião.
- Com certeza. – Elle concorda, meio apreensiva.
Eu também concordo. Step pega minha mão e nós dois entramos no hotel a fim de pegar um quarto. Quando passamos pelo grupo de namorados das minhas amigas, ouço algum deles dizer num inglês meio enrolado “Oh droga, agora temos um italiano vencedor de 4 copas do mundo no grupo. Chega de falar de futebol”. O que eu presumi só poder ser Ralf, o alemão. Já que a Alemanha tem apenas três copas do mundo e Inglaterra e França apenas uma. Step dá um daqueles seus sorrisinhos tortos para mim, então eu sei que ele também ouviu.
- Os namorados de suas amigas também tem dons sobrenaturais? – ele meio que murmura pra mim.
- Não sei. – murmuro de volta.
Em segundos já temos um quarto. Novamente, as vantagens de ter um namorado que fale todas as línguas. Em segundos também, já guardamos todas as coisas no nosso quarto (mesmo que meu teletransporte não tenha nada haver com isso) e então nós saímos para encontrar os três casais.

Elein

Dou um suspiro tranqüilo quando vejo Bella retornar dizendo que já resolveu tudo no check in. Mal acredito que elas estão todas aqui. Juntas novamente.
- Pra onde vamos? – Elle indaga.
- Não estou muito certa. – eu respondo. – Queria que fossemos pra uma espécie de café, ou algo assim. Que não esteja totalmente vazio, mas também não esteja totalmente cheio.
- Há um café aqui perto. – Ane palpita. – Que não é extremamente freqüentado, mas também não é vazio demais.
- É realmente perto. – René concorda, ao meu lado. – Dá pra ir andando.
- Então vamos até lá. – Elein dá uma de líder, e nós todos começamos a andar.
Stefano e Arabella são os primeiros, apesar de não fazerem idéia pra onde estão indo. Eles dois não se largam nem um segundo. É meio bonitinho de se ver, até.
Eu, Elle e Ane estamos pouco atrás deles. Estamos meio abobalhadas de felicidade por estarmos todas reunidas. Harry, Ralf e René estão vindo, nessa ordem, atrás de nós. Passamos pela praça da liberdade e então René faz um assobio e todos param.
- É aqui. – ele aponta para a rua transversal a que nós estamos.
Nos encaminhamos na direção apontada. Então Arabella solta seu namorado, com um giro que deveria ser delicado, mas se tratando de Arabella é um pouco estabanado. Step encolhe os ombros, parecendo pela primeira vez um cara que não tem mais de dois metros de altura. Nossa amiga se mete bem no meio de nós, sorrindo daquele jeito bobo que ela sorri só quando está apaixonada. Ou falando do Zac Efron. É, acho que certas coisas nunca mudam.
Ela engata numa conversa sobre como Stefano é maravilhoso, o cara que ela sonhou a vida inteira e todo blábláblá que eu sinto pelo Ralf. Solta também que Step também tem poderes, o que é tranqüilizador sobre essa maluquice toda. Tudo que nós não precisávamos é de um ser humano totalmente normal no nosso circo de horrores.
- Estou tão feliz de estamos aqui. – ela diz. – Tudo bem que as circunstancias podiam ser melhores, mas se uma calamidade tem que acontecer para que nós fiquemos juntas, que aconteça. Sei que a gente consegue dar um jeito.
Elle e Ane concordam, meio que compartilhando do mesmo sorriso bobo. Eu acabo me vendo balançar a cabeça também. Por mais ruim que a situação seja, olhar nós quatro juntas (e mais quatro ramificações) me faz crer que vai dar tudo certo.

Ane

É lógico que Arabella apareceria com um italiano! Se eu tenho um francês (em teoria, já que ele ainda não me pediu desculpas), Elle tem um inglês e Elein tem um alemão, é ÓBVIO que Bella teria fisgado um italiano.
E deixe-me dizer que ele não podia ser mais o mocinho dos sonhos dela. Aquelas maçãs do rosto meio altas que dão a ele um traço aristocrático que só eram um pouco prejudicados por um nariz meio grande demais (pra mim. Porque até onde eu me lembro, Arabella acha narizes grandes a coisa mais sexy do mundo). Tez bem clara, com olhos incrivelmente verdes em contraste com o cabelo castanho brilhante.
Mas, enfim, a quem eu estou querendo enganar? René também não é exatamente fora do contexto do que eu sempre pedi a Deus. Sabe, daquele jeito meio “ah tá, tanto faz”, que adora fumar um cigarro sozinho na escada de incêndio quando brigamos e que sempre dá uma de Paul pra cima de mim - quando eu dou uma de Holly pra cima dele - tendo mais uma de minhas crises e gritando que eu não sei o que estou fazendo engaiolada. “Eu não quero te por numa jaula, eu quero te amar!”. Coisa que ele faz. Oh sim. Perfeitamente bem.
Exceto quando ele fica com esse cenho fechado me olhando do outro lado da mesa. Mas que droga, já passou um tempão desde a nossa briga! Porque ele não vem me pedir desculpas?
- Baron de Argnhac, s'il vous plaît. – ele diz, sem tirar a expressão sisuda. Depois acrescenta um de nossos pratos preferidos no pedido.
Depois me encara de novo. Seus olhos cintilam, me incitando a me arremessar contra ele e dizer “Ok, me ponha numa jaula, eu não estou nem aí. Vamos nos casar, ter 20 cachorros e um time de futebol inteiro”.
O que eu me arrependo de ter pensado cinco segundos depois, até ele piscar aqueles olhos de novo.
Elle sussurra alguma coisa pra Harry e ele pede alguma coisa estranha do cardápio, meio que enrolando a língua pra dizer o nome. Ralf pergunta a Elein o que ela vai querer, ao que ela responde ‘ah, o que você quiser tá bom’. Stefano e Arabella estão rindo de alguma coisa não identificada, pouco antes dele fazer o pedido em francês, como se fosse nativo.
Ok, está escorrendo mel dessa mesa.
- E aí, Elein? – eu tento esquecer do meu namorado besta. – Qual é o motivo especial disso tudo?
De repente o rosto dela se endurece. Nem Ralf com os braços em volta de seus ombros consegue anima-la.
- São eles de novo. – ela diz, quase inaudível.
- Que eles? – o namorado da Arabella pergunta.
Bella levanta a mão na direção dos lábios dele, mandando-o ficar quieto. Ele dá uma mordida. Ela ri. Puft.
Mel. Mel. Mel.
- DEAR. – Elein diz. Seu tom pesado, como se estivesse doendo dizer isso.
- Eles de novo? – Elle pergunta, no mesmo tom.
- Eles de novo. – ela responde. – Só que parece agora eles tem mais uma integrante.
Dear!
Nosso Dear que de querido não tem nada.
Ah, merda... Dear.
FEAR!

Elle

DEAR.
Não dá pra acreditar que são eles de novo. Eu achei que tudo estava acabado quando nos encontramos pela ultima vez. Parecia que o grupo estava mesmo disposto a se dissolver e parar com essa coisa idiota de tentar se rebelar contra os humanos sem dons.
Sim, os humanos sem dons são assassinos, mas vingar a vida dos com dons que morreram na mesma moeda não é nem de longe uma boa idéia.
E olha que não é preciso ser muito inteligente pra saber disso. Mas eles realmente se superam na mediocridade de pensamentos.
Até porque o que você pode esperar de um grupo de pessoas do mal que se chama DEAR, sério? E que tem esse nome por causa de seus integrantes: Dhananjay, Edfu, Audra e Ramón.
- Como você sabe que são.. hm, eles? – Ane pergunta.
- Clarisciência. Essa coisa pode ser bem difícil de controlar. – ela responde, dando de ombros. – Só esbarrei com uma velha amiga na rua e sem querer me vi lendo o passado dela.
Ah é, a clarisciência. Aquele poder bem louco que faz Elein ter visões sobre o passado de pessoas e objetos. Bem me lembro que no início ela ficava louca porque era “forçada” a ver coisas que não queria, como de onde surgiram as carteiras da escola e coisas assim. Parece que agora as coisas estão bem mais controladas.
- E o que você leu? – Harry perguntou, se inclinando na mesa, me levando junto dele por causa de nossas mãos entrelaçadas.
E então eu percebo que todos os quatro meninos estão inclinados sobre a mesa. Todos eles tem os olhos brilhando como se estivessem ouvindo a narração da final da copa do mundo. Só Ralf tem uma pequena ruga de dúvida no meio de sua testa. É de se esperar que eles estejam mais animados do que nós: não sabem onde estão se metendo.
- Eu li que DEAR está recrutando pessoas em todos os cinco continentes. – Elein diz. – Tem um líder em cada um deles. Por isso que agora são cinco principais, e não só quatro como antes.
Levo minha mão a cabeça, num gesto de inicio de desespero. Respiro fundo, conto até dez.
- E agora esses cinco estão recrutando todos os humanos com dons possíveis para se voltar contra os humanos sem dons, ainda procurando vingança pela chacina que aconteceu aquele tempo todo atrás. – Elein continua.
- Mas eu achei que esse desejo de vingança tinha sumido! – Bella meio que perde o ar. – Qual é o problema com o coração dessas pessoas?
Eu juro que eu acho que ela vai chorar. Sabe como é essa menina...
- Não sumiu. – Elein interrompe. – Parece que cresceu, já que agora eles estão realmente conseguindo um numero considerável de adeptos. Até essa minha amiga estava considerando seguir a idéia deles.
- Mas como eles divulgam isso direito? – Ane parece estupefata. – É apenas um para um continente inteiro!
- Não me pergunte. – Elein dá de ombros. – Mas parece que essa nova membra, uma tal de Sophie, que cuida da Oceania tem um dom especial que ajuda nisso.
- Qual? – o namorado de Bella pergunta.
- Não sei, não estava claro no passado de minha amiga. – ela dá de ombros. – Só sei que precisamos fazer alguma coisa.

Arabella

“Arabella, minha querida, você sabe que eu detestaria ter te desperdiçar um talento como você de uma forma boba como esta. No entanto, também sabe que não estou numa posição de escolha. Quem está é você.”
Com aflição, lembro-me que não conseguia nem vê-lo, escorada num canto da ampla sala, sentindo toda minha força ser levada por Dhananjay.
“Pense bem... De qualquer forma você nunca vai ver suas amigas, seus parentes ou algo assim de novo. Você só tem de escolher entre continuar viva ou terminar sua contribuição para esse planeta dessa forma terrível.”
Eu me debatia contra a parede, minhas costas quase já tocavam o chão. Sabia que estava perdida se algo milagroso não acontecesse.
“Vou te dar o tempo de um cigarro para pensar. Essa decisão não deveria ser muito difícil, você sabe: morrer ou trabalhar pra gente? Fala sério, nós não somos tão ruins assim. Aposto que você se daria muito bem com Audra e que nós dois formaríamos um lindo casal.”
Então ele puxou um cigarro do maço da sua calça e acendeu. Despreocupadamente, o fumou lentamente, ainda me mantendo debaixo de seu poder bizarro.
“Eu sei que você não gosta do nosso idealismo.” Ele disse, entre uma baforada e outra. “Mas você não passou o que nós passamos. Sua família está bem em algum lugar do mundo que eu desconheço, vivendo uma vida normal de pessoas sem poderes. Eu e o resto do grupo, tivemos o desprazer de ter toda a família assassinada só porque eram diferentes.”
E então aquele sorrisinho de escárnio tomou conta do seu rosto.
“Mas você não sabe o que é isso, e por isso não entende porque essa vingança. Só pense como nós por um segundo, Bell. A vida como você conhece sendo destruída porque você não é um humano sem graça. Sem casa e sem família, tudo que você consegue pensar é em vingar a morte das pessoas que você mais amava no mundo.”
Pela primeira vez, eu consegui força pra dizer alguma coisa:
“Não é assim que se consegue as coisas.”
A falta de ar aumentou repentinamente quando ele lançou seu olhar apertado na minha direção.
“Diplomacia não funciona. Morte funciona. Ou você acha que em algum momento essa organização secreta e maldita que desgraçou a vida de tanta gente pensou em fazer diplomacia? De jeito nenhum. Usaram a morte. Eles sabem que a morte funciona. E nós também sabemos.”
Não descia pela minha garganta, mas não havia como revidar. Eu estava me sentindo forte por ainda não ter desmaiado. O cigarro dele chegava ao fim e naquele momento, eu podia jurar, minha vida também.
“Aqueles porcos malditos. Bells, eu não entendo porque você não acata de uma vez nossa causa. O próximo alvo deles pode ser você, não entende? Pode ser suas amiguinhas. Pode ser qualquer um que tenha sido premiado com esse nosso dom.”
Eu quis reclamar, explicar que mesmo assim, formar outra associação secreta nada ia adiantar, mas eu não conseguia nem mexer meus olhos.
“Nós é que devíamos estar dominando esse planeta, entende? Não deveríamos estar fugindo para não morrer ou para não nos tornarmos instrumento do governo, escravos. Nós somos superiores a todos eles. Não devemos ser forçados a fingir sermos humanos normais. Devemos ter o direto de ser o que somos.”
Então ele se irritou, jogou o cigarro no chão e pisou com uma delicadeza estranha na pontinha ainda incandescente dele.
“Bom, e aí?” Ele perguntou, e eu me senti um pouco mais forte. “Decidiu o que vai fazer do seu futuro? Eu espero que meu discurso tenha algum efeito, de verdade, porque eu detesto falar a toa.”
“Ah Jay” Eu ri. “Sinto muito, mas seu discurso jamais será útil. Gostaria que você ouvisse os meus”
E aí teve toda aquele desenrolar de fatos, que acabou com a derrota de FEAR e o nosso suposto pacto de paz. Mesmo que eu tenha lido naqueles olhos castanhos e estreitos de Jay que paz não estava nos seus planos futuros.

Elein

Ralf volta de sabe lá deus onde com uma caneta. Eu abro o guardanapo a nossa frente, pronta para fazer o nosso plano maléfico.
Ou nem tão maléfico assim.
Não demora muito pra nós termos uma espécie de plano, baseado em pontos naturais e turísticos dos cinco continentes. É um pouco difícil, porque nós somos 8, pra sermos divididos em cinco partes. No fim acabamos com três duplas (Arabella e Harry, Ane e Stephano e René e eu) e com Elle e Ralf lutando sozinhos.
Todos ficaram em silêncio enquanto eu mandava uma mensagem de e-mail (usando o blackberry) para cada integrante do grupo deles (usando informações que li na mente de minha amiga) perguntando sobre “informações” do plano deles, e se o integrante se importaria de encontrar o remetente do e-mail para esclarecimento de duvidas e filiação. Não restaram dúvidas de que era bem claro que eles iam responder com um sim animado: conhecíamos as peças.
O e-mail ficou mais ou menos assim:
Olá Jay,
Ouvi dizer sobre o plano de vingança de vocês e fiquei realmente interessada. Sinto na pele tudo que os humanos sem graça fizeram com a minha família e comigo mesma e por isso queria ter a chance de me vingar.
Gostaria de me encontrar com você o quanto antes para que possa me filiar o mais rápido possível! Quando você pode? Estou de férias na China no momento, se importaria de me encontrar em algum lugar por aqui? Tipo, sei lá, a muralha da China?
Grata,
Kimberly Gutenberg.

Claro que há as pequenas adaptações. Mudanças de nomes de destinatários e remetentes e de lugares. Mas a base é, mais ou menos, esta.
Ficou estipulado que Arabella e Harry vão ficar com a América, travando uma luta no Grand Canyon contra o representante do continente (Ramón e sua elasticidade); Ralf ficará com a Oceania e a Opera de Sidney (Sophie e seu poder desconhecido); René e eu tomaremos a África e as pirâmides (com Edfu e sua alteração de aspecto). Ane e Step ficarão com a Ásia e a muralha da China (e o temido e nojento Jay com sua absorção de força) e Ellen com a torre Eiffel simbolizando a Europa (e Audra e a sua intangibilidade). Separados, obviamente, por talentos e poderes.
Quando estamos caminhando de volta para o hotel, estou um pouco nervosa. Mesmo com o braço de Ralf me segurando de forma tão terna, meu coração está batendo com rapidez. Eu nunca desejei mais poder prever o futuro ou algo que pudesse nos manter longe disso. Não que haja essa escolha agora: tarde demais.
O blackberry toca no caminho. A primeira resposta que chega é a de Ramon. Ainda não chegamos ao hotel quando quem responde é Edfu e Audra. Estamos no saguão quando a tal Sophie dá o ar das graças. O último a responder é Jay. Todas as respostas são positivas, como eu esperava. E melhor ainda: todas as reuniões foram marcadas para o mesmo dia: depois de amanhã.
Se bem que, isso é meio estranho. Será que eles já sacaram que tem uma artimanha por trás disso tudo e vão estar esperando com uma emboscada?
Bom, só Deus sabe. Qual é a outra opção? Temos que arriscar.
Pelo menos estamos juntas, e isso me tranqüiliza. O fato deu saber que a gente já conseguiu uma vez, e estávamos em número menor. Agora, em número consideravelmente maior, talvez nem seja tão difícil assim...
Ah tá, a quem estou querendo enganar? Provavelmente vai ser pior do que a primeira vez.

Ane

Estou tão exausta quando voltamos para o hotel! Assim que fecho a porta atrás de nós, René some.
- Você vai mesmo continuar com essa briga idiota? – eu pergunto para o nada, jogando meus sapatos para longe.
- Não é idiota. – ele responde, sua voz vem da direção do banheiro. – É importante pra mim. Sabe, às vezes eu me sinto a mulher da relação.
Eu rio, enquanto vou trocando minha roupa por uma linda roupitcha de dormir.
- René, pelo amor de Deus. – eu reclamo. – Amanhã a gente já vai ter de viajar de novo, cada um para um lugar e eu estou super cansada! Não me canse psicologicamente também, por favor.
Tudo que eu tenho em resposta é um grande silencio fúnebre. Murmuro um monte de reclamações em português pelo fato de René ser tão cabeça dura e no que diz respeito a ter que encontrar aquela piranha Audra de novo!
Porque, é claro, o começo da nossa historia com DEAR tinha que vir por meu intermédio. Eu estava na Lituânia, em uma ‘noite das garotas’ num bar qualquer. Foi quando eu conheci Audra, totalmente bêbada, que me contava (uma completa desconhecida!) com animação sobre o grupo “super divertido” para o qual ela entrou e que iria ajuda-la a se vingar daqueles que mataram sua família. Os olhos dela brilhavam azuis, enquanto ela contava todos os detalhes do plano maléfico de matar-humanos-normais para uma garota (eu!) que ela não fazia idéia se era premiada com dons ou não. Mas ela estava bêbada, e eu pensei que ela não podia significar problemas. Provavelmente, pensei, era só mais uma das loucas que eu encontrei em toda a minha viagem.
Aham, tá.
No dia seguinte aquela louca conseguiu me encontrar! Não me pergunte como, porque quem tem o dom da clarividência aqui sou eu. Ela me incitou a entrar para o grupo, uma vez que eu sabia do que – em teoria – deveria ser segredo. Como se eu tivesse culpa dela ter uma boca enorme e bêbada! É claro que eu dei um jeito de cair fora, mas a partir de então estávamos no jogo.
Estávamos no jogo porque o que eu tinha achado ser uma alucinação de uma bêbada era extremamente real e podia trazer problemas catastróficos se alguém não tomasse medidas drásticas. E esse “alguém” seriamos nós quatro. Mas é claro que eu não fazia idéia de onde estava nos metendo. Subestimando o grupo tão amado por Audra. Mesmo com todo o plano meticuloso ainda tínhamos uma desvantagem numérica. Sem falar que eles tinham seus poderes sobrenaturais super desenvolvidos e uma sede terrível por vingança.
Só Deus sabe como conseguimos vencer. Acho que foi uma coisa muito mais tática do que física, já que nossos poderes são muito mais mentais. Quer dizer, não dá pra ferir alguém cujo dom especial é a clarividência.
Jogo meu corpo cansado na cama, louca para tirar todos esses pensamentos de minha cabeça. Todavia, bato com minhas costas em algo volumoso, comprido e duro, que faz OUCH.
- RENÉ CHARLES! – eu grito, indignada.
Ele rola para o lado, se tornando visível de novo. Nós dois começamos a discutir novamente, daquele jeito de sempre. Eu odeio quando ele faz isso de ficar invisível. E odeio ainda mais quando ele pega o meu lado da cama! Ele gritando num francês rudimentar comigo e eu o xingando em português. É uma discussão ridícula, porque nós dois estamos deitados lado a lado na cama, morrendo de preguiça de nos mexermos. Depois de algum tempo, eu nem me lembro mais com exatidão porque a gente está discutindo. Quando ele grita e eu revido, nenhum de nós dois está realmente escutando alguma coisa, e a discussão nunca chega ao fim. Até que alguém cede.
- Ah Ane, parece que a gente só sabe brigar o tempo todo! – é ele quem cede, dizendo num tom de inglês meloso. E olha que eu nem estou controlando a mente dele. Até porque eu aposto que ele está bloqueando os meus poderes. Como sempre.
- Parece que só sabemos fazer isso mesmo. – eu cruzo meus braços, meio indignada.
- Porque então, a cada briga eu amo mais e mais de você? – René murmura pra mim, seus olhos lascivos à baixa iluminação do quarto.
Eu me vejo sorrir sem querer.
- Como diriam vocês, franceses, c’est la vie.
Ele ri, jogando a cabeça pra trás e balançando os cabelos sem ter essa intenção. Então ele diz:
- Como você vai se virar amanhã sem mim?
- Amorzinho querido, eu me virei por anos sem você. – é o que eu respondo. – A questão é como você vai ficar sem mim.
- Vai ser difícil, mas eu vou dar meu jeito. – ele responde sorrindo. – E depois quando ganharmos, precisamos de uma comemoração especial.
- Como você sabe que vamos ganharmos? – eu pergunto, encarando-o.
- Tenho certeza. Seria até capaz de comemorar antecipadamente... – ele diz no meu pescoço.
Então ele apaga o abajur na mesinha de cabeceira e nós nos concentramos em coisas mais interessantes.
Err, quer dizer, em dormir. É claro.

Ellen

A tensão no rosto de Harry é totalmente visível. Aqueles seus olhos tão verdes e tão lindos adquiriram um permanente ar de assustado. Eu não entendo o motivo, pois até onde eu sei, antes de me conhecer, Harry “trabalhou” em diversos grupos de uso de poderes. Ou seja, é de se esperar que ele já esteja mais do que acostumado com essa coisa toda. Mais do que eu estou, pelo menos.
Mas, incrivelmente, parece que eu estou mais tranqüila do que ele.
- Harry, o que aconteceu? – eu acabo perguntando quando chegamos ao quarto.
- O que? – ele parece alarmado com minha repentina quebra de silencio. – Ah, nada...
Só que eu o conheço bem demais para saber que isso tudo no rosto dele está bem longe de ser nada.
- Ha-ar-ry. – eu chamo com impaciência. – Vai falando agora, a não ser que você queira que eu pisque para te convencer.
- Tá bom, El. – ele reage com rapidez, meio que implorando para que eu mantenha meu dom longe dele. – Eu te explico, mas é bem idiota.
- Oh amor, nada que está te preocupando pode ser idiota. – eu garanto, segurando suas mãos.
- Você sabe que eu já me meti em um milhão de conflitos sobrenaturais antes de te conhecer. E apesar de ter saído vencedor na maior parte deles, cada um foi traumático de alguma forma. – ele começa a explicar, num tom baixo, como se não quisesse assumir. – Eu perdi muitos amigos, companheiros... Eu vi muitos deles se ferrarem bem na minha frente e eu não pude fazer nada para impedir. – suspira, levando suas mãos ao meu rosto. – Ah, Elle...
- Mas Harry, - eu interrompo, exasperada. – esse é exatamente o motivo desse conflito: evitar novos e bem piores.
- Eu estou com medo. É essa a verdade. – é a vez dele me interromper. Seus olhos mais brilhantes que uma recém polida pedra de jade. – Tenho medo de sofrer mais uma baixa. A baixa da pessoa que está sendo a mais importante da minha vida, my love. Você. Eu não quero te perder.
Ele praticamente sussurra essa ultima parte. Eu realmente tenho que me controlar para não agarrar o pescoço dele e chorar dizendo que também tenho medo de perde-lo. Só que eu tive que me manter calma, enquanto piscava meus olhos da melhor e mais disfarçada maneira possível, enquanto digo:
- Vai dar tudo certo.
É claro que ele acredita piamente. Eu sei que ele sempre fica reclamando quando eu uso meus poderes nele, mas qual é a outra alternativa? Eu não quero deixa-lo perceber que eu tenho tanto receio quanto ele. É mais fácil e menos doloroso que ele realmente ache que o fim vai ser nossa vitória sem perdas. E isso o que eu também realmente quero acreditar.

Arabella

O clima no quarto está extremamente tenso, mesmo que nós não estejamos falando nada. É notável que estamos preocupados com o futuro próximo. Eu aviso a Stefano que vou tomar banho enquanto ele está tirando os mocassins. Estranho quando ele não vem com nenhuma brincadeirinha do tipo “quer ajuda para esfregar?”. É, as coisas estão realmente estranhas.
Enquanto tiro toda a sujeira da estrada debaixo d’água, fico tentando me convencer de que um conflito é mesmo o mais adequado a se fazer. Não há outra escolha, há? Deixar aqueles malucos prosseguirem com o plano de vingança E de dominação mundial? Não, obrigada.
Estou estranhamente me tremendo quando volto para o quarto com meu pijama de pingüins. E o quarto não está nem um pouquinho frio na verdade, apesar de Step estar soterrado até o pescoço debaixo da coberta brega. Ele bate na cama ao seu lado, pedindo para que eu me junte a ele. É bem claro que ele não precisa pedir duas vezes. Seu braço quente me envolve, puxando-me para mais perto dele, enquanto beija meu rosto.
- Oh, tchuco. – eu murmuro, me aconchegando.
Ele gargalha, me carregando junto, devido ao fato deu estar apoiada nele. Aí se levanta um pouco, para me encarar melhor, prendendo-me sobre seus braços.
- Você é a tchuca da minha vida. – ele diz num tom quase melodioso, colocando uma conotação extremamente italiana em thuca, quase como se estivesse falando Mamma Mia.
Meus olhos se enchem de lágrimas por um momento com essa afirmação fofética. Tão significativo saber que Step me considera a tchuca que marcou a vida dele para sempre. Juro que se eu já não estivesse totalmente apaixonada por ele, eu ficaria mais ainda.
- Ah tchuquesa, não é justo você dizer essas coisas tão lindas. – eu me arrumo melhor na cama, para encarar com clareza seu rosto.
- Eu não sei se vou ter a chance de dizer isso outro dia, mia Bella. – seus olhos brilham de uma maneira muito estranha.
- Não fale isso nem brincando! – eu levanto minha mão para tocar seus lábios.
- Pior que não é brincadeira. – ele responde contra meus dedos.
- Step, se você não quer participar do conflito, não vá...
- Arabella... – ele censura, usando meu nome inteiro e não um dos meus inúmeros apelidos. É um assunto sério, então. – Eu vou para onde você for.
Mesmo que isso não seja inteiramente verdade, já que eu vou pra China e ele vai pros EUA, é uma coisa totalmente linda de se ouvir.
- Você não é só a tchuca da minha vida. – ele retifica. – Você é o amor dela também.
Coração na boca. Só isso. Simples assim.
De repente eu me vejo querendo mandar tudo as favas e correr para Veneza com Step. Casar no meio do Carnaval veneziano e ter Arthur, Henrique e Bernardo em suas versões de nomes italianas. Todo meu idealismo indo embora por uma simples (e linda!) afirmação. Zac, tampe os ouvidos!
- Você é o amor da minha também. – respondo, me recompondo.
Nós dois sorrimos como duas criancinhas envergonhadas. Só que ele não é nem um pouco envergonhado quando parte para cima de mim com um de seus beijos...
Faço uma nota mental para pedir proteção aos céus para ele. E para as meninas. E para os namorados delas. E, se der, pra mim também....
Ai cacete, acho mais fácil pedir por um milagre.

Ellein

Ralf está meio que animado com essa coisa toda de luta. Faz cinco minutos que nos deitamos e eu juro que ele não para de falar em como vai “quebrar a cara dos ridículos que traumatizaram a garota dele”. Sendo a garota dele euzinha aqui.
Foi super lindo ouvir isso das primeiras cinqüenta vezes que ele disse isso. Agora, deixe-me dizer, está ficando meio chato e repetitivo. Especialmente quando você tem que dormir para estar descansada o bastante para uma batalha e tudo mais.
- Ralf, fofinho, eu SEI que você vai mesmo quebrar a cara deles. – eu murmuro no escuro, perto do que eu acredito ser o ouvido dele. – Mas você pode ficar quietinho? A gente precisa dormir.
- Eu não estou com sono. – ele fala, me lembrando uma criancinha. – Acho que eu estou meio elétrico com essa emoção toda.
Com uma leitura rápida da mente dele, eu reparo que elétrico não é uma palavra certeira. Está mais para louco com aquele bando de informação conflitante e tensão.
- Você deve estar sofrendo de algum tipo de distúrbio do sono. – eu palpito. – Sabe, segundo uma pesquisa britânica, 87,5% das pessoas do mundo contemporâneo tem problemas com o sono e isso se deve, principalmente, aos níveis de estresse aos quais somos submetidos Eu estava estudando sobre uma mulher que...
- Não dê uma de antropóloga pra cima de mim, El. – ele me interrompe, rindo. - Você não tem idéia de como fica atraente quando usa esse tom intelectual.
- Falou o futuro mestre em Antropologia Social. Eu sou só uma mera aspirante ao que você já é! – eu interrompo. – Já pensou quão bonitinho vai ser quando te chamarem? Ralf Süskind, mestre em Antropologia Social! Acho que preciso me esforçar, meu amor... Pra chegar aos seus, sei lá, pés?
- Quer parar de bobeira, mein lieber Schatz? – ele usa as palavrinhas lindas para meu amor em alemão. – Você já é perfeita desse jeitinho.
- Oin, pare de ser fofinho! – murmuro, totalmente apaixonada. – Precisamos dormir!
- Canta pra mim? – ele pede. – Eu sempre durmo mais rápido quando você canta. Mas tem que ser em português! É tão gostoso, parece uma sereia.
Eu concordo, mesmo com umas reclamações sobre não ser a melhor cantora do mundo, ao que ele responde que é claro que eu sou. Então, como todos podem ver, o amor além de cego também é surdo.
- Meu caminho é cada manhã, não procure saber onde estou. Meu destino não é de ninguém e eu não deixo meus passos no chão. Se você não entende, não vê. Se não me vê não entende. Não procure saber onde estou, se o meu jeito te surpreende... Se meu corpo virasse sol, se minha mente virasse sol.. Mas só chove, chove e chove.
Ele parece mesmo um bebê em larga escala, ressonando com aquele sorrisinho pequeno no canto de boca.
- Se um dia eu pudesse ver, meu passado inteiro. E fizesse parar de chover, nos primeiros erros.
Eu não sei porque foi essa musica sugestiva que pulou na minha mente. Com essa coisa toda de ver o passado. Eu posso ver o passado. O de todo mundo, menos o meu próprio. Do meu próprio eu só tenho as lembranças que um ser humano normal guarda.
- Meu corpo viraria sol, minha mente viraria sol. Mas só chove e chove. Chove e chove.
Ralf dorme em segundos e quem fica com insônia sou eu. De repente toda a calmaria vai embora e só sobra o ressonar tranqüilo dele. Vou observar a cidade luz dormindo, enquanto tento acalmar meu coração e arrumar meus pensamentos.
Sem sucesso.

Fim da Primeira Parte