quarta-feira, 17 de junho de 2009

Aí vem a história de um furacão



Podia reclamar, invejando a felicidade dos outros a sua volta. Podia exprimir seu sentimento de descaso somente porque não tinha um ombro no qual poderia se aninhar neste dia tão especial. Outra possibilidade era ficar em casa e esquecer todas as relações amorosas conturbadas e seus finais piores ainda. Porém, ela saiu de casa e foi bombardeada por beijos apaixonados em público, por chocolates em forma de coração, anéis com inscrições pessoais, comemorações de gente extremamente feliz, ursinhos de pelúcia, flores, muitas flores, uma atmosfera vermelha, melosa, que a dava mais nojo que qualquer outra coisa.
Anita chegou a seu destino, depois de uma caminhada debaixo de chuva. Um apartamento num pequeno prédio, sem elevador, no terceiro andar, no qual, as escadas já estavam habituadas a sentir o pisar da menina. Ao subir, sempre contando os degraus, sabia exatamente quantos faltavam pra chegar ao apartamento 303 tão esperado. Ao abrir a porta, o mesmo cheiro característico, o mesmo, literalmente, pulo do gato, já bem conhecido por Anita. Enquanto acariciava ‘Max’, o gato preto de olhos verdes, ela olhava em volta e reparava os mínimos detalhes daquele pequeno apartamento de que tanto gostava: o All Star em cima no sofá, este propriamente dito, maior testemunha dos bons tempos que ela passou ali, os milhões de CDs interessantes, a antiga vitrola, os filmes Cult, a estante com seus livros de variados assuntos, os quadros pelas paredes, as folhas com algumas anotações perto do telefone, o cheiro de cigarro vindo da varanda, as roupas espalhadas, com perfume tão querido por ela, o violão jogado e, do que ela particularmente mais gostava uma fotografia, em preto e branco, do Dylan, presa à parede, ao lado da estante. “Lembrei porque me apaixonei por ele.” – ela pensou.
Ele em questão, o dono do apartamento, era seu professor de historia, um homem mais velho, mais vivido e ‘cheio de histórias’, como Anita gostava de dizer. Suas aulas eram extremamente interessantes, devido a sua paixão pelo assunto. Além de professor, ele era músico e apaixonado por bons filmes, livros, músicas, por cultura. O envolvimento entre eles foi inevitável, os olhares secretos, indiscretos, tímidos e traiçoeiros durante as aulas, os beijos proibidos na sala dos professores vazia, as idas da menina a sua casa às escondidas, quando supostamente estaria estudando na casa da uma amiga, fizeram desta relação eternamente memorável.
Anita admirava o jeito como Bruno, seu respeitável professor dentro da sala de aula, enxergava a vida, por toda sua própria filosofia. Ele era, como ela mesma diria, um ‘coroa sexy’. Um senhor quarentão de média estatura, com um peitoral que um dia já foi bem definido, com blusas sobrepostas, calça jeans, cabelos curtos, sempre para traz, all stars de todos os tipos e dois grandes olhos azuis para completar.
- Eu poderia ser preso por isso, sabia? – dizia Bruno à Anita, constantemente em seus encontros, que eram à base de músicas antigas, leituras interpretativas, teatrais, que, quase sempre, acabavam no sofá.
- Amor não tem idade. O melhor amor que existe é aquele que acontece de repente, o qual surge sem que nos avise que está chegando, um amor que deixa marcas, que nos ilude e nos faz bobos. E eu-te-amo. – Anita sabia como fazer discursos em prol do ‘amor livre’, sem distinção de idade, até mesmo de sexo.
- Quero ver você explicar isso ao juiz, quando eu tiver no banco de réus, acusado de pedofilia... Seus pais olhariam com reprovação... Em todos os jornais estaria lá, estampado pra quem quisesse ver: ‘Professor, mais velho, com aluna de dezessete anos. Eles dizem que o amor está acima de tudo, mas ele ficará uns bons tempos na cadeia. – Brincava ele.
- Ah, eu te amo, olhos-de-Bette-Davis”. – Completava, acariciando os cabelos negros e encaracolados dela.
Poucas pessoas tinham conhecimento sobre essa, hum, aventura amorosa dos dois. Certo dia, após os simulados da escola, Bruno preparou uma jantar meio fora de hora, pois o horário de Anita era um tanto diferente, pela disponibilidade e paciência de seus pais, que desconheciam o tal amado da filha. Durante o jantar, à luz de velas, Bruno entregou um anel à menina. Diga-se de passagem, ele sabia como ninguém, preparar um clima romântico. Anita divergia daquele mesmo e velho costume de mulheres que derretem ao receber propostas de casamento, alianças. Ela não acreditava em “pedidos”, acreditava em ações. Apesar disso, ficou muito entusiasmada, pois Bruno disse que aquele era um anel da sorte, sabendo que a garota amava simbolismo, coisas com significados eternos.

("Mania de você" )

Ele finalizou com a interpretação de um CD velho, de capa rasgada:
-"Meu bem, você me dá água na boca. Vestindo fantasias, tirando a roupa, molhada de suor de tanto a gente se beijar, de tanto imaginar loucuras. Mania de você..."
Anita não levava nada a sério mesmo:
- "Nada melhor do que não fazer nada, só pra deitar e rolar com você..." HAHAHAHA – ela riu, puxando-o para o sofá.
- Isso não é coisa que se fale, MEU BEM. – Eles se beijaram.
Os dois acordavam, na maioria das vezes, com Max miando, querendo comida. Santo Max, pois sempre já passava das nove da noite.
Esses relatos íntimos não são totalmente fiéis, porque, constantemente, havia discussões entre eles. Nem tudo era um mar de rosas na relação dos dois, Anita não suportava a visão política de Bruno e era capaz até de nunca chamar o gato de Max, com medo de confundi-lo com o Marx. Ela insistia que era por causa do ‘gato sem nome’ de seu filme preferido, mas Bruno desconfiava que suas convicções políticas a impedissem de proferir tal nome. Além da política, eles gostavam de divergir suas opiniões sobre filmes – ‘Chaplin ou Keaton?’ - e música – ‘Hendrix ou Clapton?’. Mas nada disso afetava realmente a química entre aluna e professor.
Ao admirar todo aquele apartamento, talvez por uma última vez, Anita tentou memorizar aquelas paredes, móveis, cheiros para sempre. Ela pegou Max no colo e foi até o quarto, onde havia um homem que a chamava:
- Encontramos essa agenda, onde você é citada diversas vezes, por isso te telefonei. Espero não ter criado problemas com seus pais. – Ele, educadamente, explicou.
- Sem problemas. - Ela pegou a agenda, que mais parecia um diário e sentou-se na cama para ler:

“... Não que eu queria reviver minha juventude através dela. Fico pensando se sou muito velho para amar. Esse amor sem medida, sem motivo, como ela mesma gosta de definir... Ela, o meu amor, a sonhadora rebelde, que me faz ‘tourner la tetê’.”

O homem, o policial que havia ligado para o celular de Anita, saiu do quarto dizendo que ia tomar um café no barzinho da esquina. Eram nove da manhã, o estômago da menina roncava e ela lia as frases escritas com a letra característica de seu amado.
Ela riu quando viu a infinidade de expressões em outras línguas presentes nos escritos de Bruno. Até mesmo de algumas que não sabia o significado, imaginava o que ele queria dizer. Prosseguiu:

“MY GIRL: I got sunshine, on a cloudy day. When it's cold outside, I got the month of May”

("My girl" )

Embaixo, havia algo parecido com uma lista de afazeres:
“#Fazer Levar M. ao veterinário. #Comprar cordas para o violão. #Marcar dentista. #Fazer Anita não fumar (tanto!) [palavra grifada] quando estiver comigo. #Ligar para o fulano....”

Ela lembrou de um momento entre os dois, no sofá (pra variar). Eles fumavam e ouviam antigos LPs dos Stones.

- Você é só rock ‘n’ roll, mas eu gosto. – Disse Anita, fazendo charme, com um sorriso difícil de resistir.
- Você é MY girl. – Ele respondeu, cantando boa parte da letra da música. Bruno dançava, fazendo todos os uuh, ieiê, ooh da música, cheio de ‘gingado’.
Os olhos de Anita pararam de processar as palavras escritas e as memórias congelaram quando uma pequena lágrima se formou. Max, percebendo o momento, pulou na cama e esfregou-se na menina, miando, como se quisesse consolá-la.
- Ele deve estar bem, não é, gato?... Acho que você vai ter que ir para minha casa hoje. - Acariciou a cabeça do gato.
A menina guardou o diário em sua bolsa transpassada, vasculhou as estantes, a procura de memórias, pegou alguns CDs e um livro, além de uma única foto dos dois que havia naquele apartamento inteiro. Ela deixou a lágrima escorrer e deitou-se no sofá, acompanhada por Max. Sua cabeça girava, os pensamentos eram nebulosos, uma tristeza invadia sua alma, parecia que toda a felicidade havia voado, se libertado, fugido com uma mochila nas costas, como a própria Anita gostaria de fazer um dia...
A chuva lá fora continuava. No sofá, permaneceram a menina e o gato, juntos, como se estivessem juntando forças contra algo. As lembranças não paravam de passar, como filmes, dentro da mente dela.
- Por que você pinta as unhas de escuro assim? – Bruno indagou certa vez.
- Você quer realmente saber?
- Claro.
- Ok. Porque assim não parecem sujas.
- Ah, mais uma saída cosmética que você inventa. Eu pensei que fosse para parecer roqueira.
- Entenda como quiser. – A menina respondeu rindo.

("Hurricane" )

Os dois passavam horas ouvindo músicas, com olhares fixados na parede, ao retrato de Dylan. Certo dia:
- Nós somos juntos um “hurricane”, né? - Bruno, repetindo as palavras de Dylan, classificava os dois como um furacão. Anita nunca entendeu muito bem o que aquilo significava, mas gostava da idéia de ser tal catástrofe natural.
- Sim. – Ela sorriu. – Nós somos um “hurricane.” – Respondeu, fazendo o gesto de ‘aspas’ com os dedos, ao dizer hurricane.
- E o amor platônico? – Ela perguntou, quando estavam vendo um filme tão desinteressante, que deu para eles discutirem, conversarem até que acabassem desistindo de vê-lo.
-Bom, o amor platônico... – Ele começou sua resposta. – Amor platônico é aquele que não se concretiza. Não que Platão não amasse. Ele amava, mas, por suas idéias, de uma utopia... O nome do amor idealizador acabou homenageando-o.
Ela sorriu sozinha, quando lembrou de Bruno falando do amor de Platão. Tentava não lembrar do momento do susto, do desejo de morrer e se enterrar ao lado do amado. Ao ouvir a notícia, os sons emudeceram, as imagens pararam, parecia que a Terra havia interrompido sua rotação. Pensou que nunca mais veria Max ou aquele apartamento que tanto lhe agradava, ela chorou escondido, no banheiro do colégio, sem nenhum aparente motivo, sem que ninguém entendesse seus olhos inchados e nariz vermelho. ‘Meu mundo caiu.’ – ela pensou.
Pensou que morreria de dor, pensou em quão irônico era o amor, é um ser que fica ali, ao nosso lado, só para ver exatamente quando estamos prestes a sermos felizes para sempre, aí tiram toda nossa felicidade. Pensou que, se destino realmente existia, que puta destino era esse, que fizera isso com ela? Porque, naquele momento, justamente o SEU coroa-sexy estava dentro de seu carro, quando veio aquele caminhão, em plena luz do dia, sem chuva, sem nada? Disseram que fora trágico, por um minuto, ele se salvaria... A cabeça dela estava a mil. Por sessenta segundos, ele se salvaria! Sessenta segundos!
Foi tudo tão rápido. A felicidade dos dois havia sido algo quase instantâneo, durou pouco. Os momentos de prazer, absolutos, comparados ao desconsolo atual da menina. Quando ficavam sem dizer palavra alguma, ouvindo músicas que sempre irão remeter ao apartamento com Bruno, Anita e o gato. Ou, raros dias, nos quais o ‘músico amador’, como ele mesmo se classificava, resolvia tocar seu violão para a menina. Ela, particularmente, amava sua MPB misturada com jazz e folk. Anita não sabia onde se apoiar neste momento tão complicado, a perda de forma tão rápida doía demais. “Deus? Destino? Vida? Respostas, cadê?” Seu coração não havia recebido uma mensagem: “Desculpe, coração, mas daqui a uns dias, seu grande amor não estará mais por aqui. Contente-se. Grata, a gerência.”
A campainha tocou, era o policial:
- Trouxe um croissant e um chocolate quente para você. - Anita, recuperando-se, pegou lanche embalado ‘para viagem’ e sentou-se numa poltrona para tomar seu café da manhã.
- Obrigada – Disse ela em voz baixa. - Espero que essa visita fique entre nós – Falou timidamente para o homem alto, que, sem jeito, ficou olhando a antiga coleção de LPs de Bruno.
- Anita, eu soube tudo que aconteceu com o Senhor Bruno, sou detetive, e discrição é a minha profissão. – Ela encarava-o com uma feição apreensiva. - Eu e meu parceiro encontramos a agenda e deduzimos que a menina Anita era você. A polícia só se envolveu no caso pela falta de herdeiros, familiares do moço. Você não deve se preocupar com nada.
- Obrigada.
- Sei o que você deve estar passando. Pode confiar em mim. – O ‘bom’ detetive sentou-se ao lado de Anita.
- Muito obrigada, senhor...?
- Seixas, igual ao do Raul – Ele sorriu, estendendo a mão para cumprimentá-la.
Anita continuou sua filmagem memorial dentro do apartamento de Bruno. Hora ou outra, o detetive lhe fazia perguntas um tanto indiscretas.
- Então, você sabe algo sobre o passado do Senhor Bruno? – Quis saber. Ela nunca havia parado para pensar nisso, muito menos perguntado alguma coisa a Bruno. O fato era que o passado de Bruno não a interessava.
- Não, nunca falamos do passado – Ela respondeu.
Os detetives descobriram que Bruno havia sido casado durante cinco anos, após o divórcio, de um casamento que não havia gerado filhos, nunca mais havia visto sua mulher. Porém, Seixas preferiu omitir essas informações pelo bem da garota.
Depois de fazer algumas anotações em seu caderninho, o detetive resolveu ir embora e deixou Anita ficar no apartamento, com a condição de que ela batesse a porta quando fosse embora e tentasse esquecer aquilo tudo. Quando ele, já de guarda-chuva na mão, ia abrindo a porta, a menina perguntou o que fariam do gato, querendo saber se ela mesma poderia levá-lo consigo.
- Não vai ser problema em dizer que o pobre gato fugiu quando a equipe de investigação entrou no apartamento. – Anita sorriu diante da resposta do homem.
- Qual é mesmo o nome dele? – Ele quis saber.
- Gato, o nome dele é ‘gato’.
-Ah sim. Que criativo.- O homem sorriu ironicamente.
-Tchau, Anita, sorte. – Ele acenou, sorrindo, bateu a porta do apartamento. Ela acenou de volta e sentou-se no sofá.
Foi o suficiente para que as memórias voltassem. Ela estranhou não estar com medo, aflita, por estar sozinha na casa de alguém que recentemente partira. Olhou em volta e se lembrou do sorriso de Bruno, tentando focalizar tudo que era presente nele de que ela mais gostava. Acabou adormecendo, ao lado de Max, no sofá.
Ela dormiu tão profundamente que até sonhou. Estava nas nuvens, possuía assas, como um pássaro e podia movimentar-se livremente, por qualquer estrela, de qualquer constelação, de qualquer planeta, de qualquer galáxia. Bruno vinha em sua direção, ele também voava.
- Nós somos um furacão.- Ele disse com o mesmo sorriso costumeiro e apaixonado estampado em seu rosto.
Assim que a ultima palavra saiu da boca de Bruno, Anita acordou, num susto, suada e sem saber o que pensar. Ela tinha visto seu querido, nitidamente, como se ele estivesse ali, vivo novamente, ao seu lado. As lágrimas começaram a jorrar.
Ninguém nunca havia mexido com a menina desse jeito. Ninguém nunca fora tão carinhoso e compreensivo. Ninguém nunca compartilhou tantos gostos e dividiu tantas discussões. Ninguém nunca havia sido aquele furacão, capaz de mover as montanhas de sua alma. Ninguém nunca havia feito dela uma parte desse furacão. Era extremamente bom, provocava uma falta de ar repentina, um embaraço na visão, um aperto no coração e, aquelas benditas borboletas no estômago. Bruno não havia deixado nada alem do gato preto de olhos verdes e o coração partido de Anita.
Ela ainda passou um tempo no apartamento. Recolheu alguns pertences de Bruno e guardou-os em sua bolsa. Apanhou uma das camisas de manga comprida, pertencentes ao amado e a vestiu, por cima, pôs seu casaco grande, de capuz, pegou um dos all stars do professor e o enfiou no pé, apesar de sobrar boa parte do tênis. Por último, pegou Marx no colo, deu uma última olhada pelo apartamento, apagou as luzes e bateu a porta.
Honestamente, não era romântica e não apelava ao sentimentalismo quando necessitava expressar sentimentalidades. Porém, Anita, ao andar pela rua molhada, fugindo dos pingos gelados da chuva, tentando proteger o gato, embaixo de seu casaco, sentindo os pés sob as meias encharcadas, ao nascer da tarde, começavam a surgir os primeiros casais, ela via aquele universo vermelho e melado, ou melhor, molhado, recordou-se DELE, de seus belos e pálidos olhos azuis.

("Pale Blue Eyes" )

Somente depois, entendeu a dimensão da poesia que fora proferida por Bruno, para designar a ligação entre os dois. A paixão era mesmo um furacão.
Ela desejava partir, para tornar-se livre, para possuir algo melhor que liberdade, algo desconhecido pelos vivos. Queria compartilhá-lo com seu amado eterno. Tinha plena consciência de que nunca mais amaria na vida. De que ninguém era bom o suficiente para substituir Bruno.
Talvez ela se tornasse uma velha solteirona, com um gato sem nome e cheia de tatuagens. Era só mais um, dos muitos dias dos namorados que passaria sozinha.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Roller Coaster


obs: Antes de começar, um aviso: Os links fazem parte da 'trilha sonora', ou seja, não precisa ver o vídeo, basta deixá-lo tocar e entrar no clima.


Todo santo dia, ao acordar, espreguiço-me na cama e vou dar um bom-dia ao amanhecer da minha janela(http://www.youtube.com/watch?v=wkEeNpWMvgk&feature=related ). Muitas vezes não são realmente sinceros, afinal não é todo dia que levanto com o pé direito. De repente, num desses meus dia de cão, abro a janela pra sussurrar algo parecido com um desejo de bom-dia. Justamente por não ser o que estava querendo fazer naquele momento, minha cara era uma das piores que já tinha visto diante de um espelho. Mesmo assim, resolvi logo dar minha saudação ao sol e acabar de vez com meu ritual.
Paro em frente a janela ainda fechada, lentamente vou abrindo as cortinas de algodão com detalhes rosas bem infantis. Não é por menos, cresci naquela casa pequena localizada numa cidade menor ainda onde a atração da cidade é ver o circo passar. Os primeiros raios de sol entravam em meu quarto, batia na cama ainda toda desarrumada, refletia no espelho o qual eu acabara de olhar que por sua vez mandava um feixe de luz para cima de mim. Escancaro as cortinas e empurro a janela com força pra fora. Ao fazer esse movimento eu nunca olho antes pra ver se tem alguém passando pelo caminho( é uma cidade pequena [dãã..] ). Até hoje não sei se o fato de eu ter aberto distraidamente minha janela como sempre faço foi bom ou ruim. Graças ao meu jeitinho atabalhoado de ser, ou seja, tropeçar no meu próprio pé, cair sem motivo aparente, bater em objetos inanimados, eu conheci o Paulo.
Sim, é o que você deve estar pensando. Eu abri a janela enquanto ele passava. Nesse momento ainda eramos completamente estranhos e minha vontade de me esconder crescia a cada segundo, junto com o rubor das minhas bochechas (sério, eu parecia um camarão!!) que crescia na medida em que eu levantava os olhos para checar meu alvo. A partir desse momento é que tudo começou:
-Aaaiii!!
-Ai meu Deus!! o que foi isso? Droga!! Eu te machuquei? Ahh não!! Sua cabeça, tá saindo sangue!
-Não, calma. Vai ficar tudo bem, foi um cortesinho de nada.
-Não, eu preciso concertar a burrada que eu fiz! Um minuto que vou pegar o band-aid e os remedinhos pra cortes e arranhões. Já volto!!
-É sério, não pr...-eu já tinha saído do meu quarto e ido ao banheiro pegar os primeiros socorros.
-Pronto. Vamos ver como está este corte.. huumm é parece que não foi tão fundo (graças a deus!!).
Enquanto eu passava todos os remédios em que eu lia anti-séptico na caixinha, ocorreu-me que ele estava ainda do lado de fora e eu pendurada quase pulando a janela pra poder cuidar dele. Confesso que não era feio, mas nem sabia o nome da pessoa. Comecei minhas investigações sutis.
-Beem.. eu nem sei o que falar direito, desculpa eu devia ter olhado antes de abrir a janela com força. (minha cara de santa é infalível, nem minha mãe que me conhece desde que nasci reconhece quando é charminho ou é verdade).
-Não, a culpa não foi toda sua, eu também deveria ter olhado pra cima ao invés de andar com a cara pro chão.
-Ok, vamos começar do zero. Oi eu sou Maria Eduarda, e você é..?
-Paulo.
-Então, Paulo, o que você estava fazendo passando pela minha janela a essa hora da manhã?
-Bem, na verdade...(ele olha o relógio) É 12:05, acho que já estamos de tarde.
-O quê??!! - Pulei da cadeira que eu tinha sentado pra cuidar dos cortes na cabeça do Paulo. Olhei o relógio. Tinha alguns minutos de diferença, mas basicamente já estávamos a tarde.
-Nossa o que aconteceu?-perguntou ele- Todos merecemos acordar tarde algum dia, ainda mais nas férias.
Ele deve me achar uma maluca. Desviei o olhar do relógio e do dele também, acabei me deparando com o espelho de novo. Aí sim, eu quase tive uma síncope. O que é o meu cabelo? Nossa, eu diria que é uma obra de arte modernista, sem forma. Voltei a olhar pro Paulo. Agora eu não sabia mais onde enfiar a cara. Tinha me esquecido completamente da minha cara assim que eu acordei.
-Acabei. Acho que já pode ir- ao mesmo tempo que eu queria que aquele garoto, ex-novo estranho, saísse pra eu poder pelo menos me arrumar decentemente, eu queria que ele ficasse pra gente conversar melhor, conhecer. Sabe, acho que tá rolando um clima aqui. Ele olha no relógio de novo e diz:
-Pra falar a verdade, eu não tenho hora marcada. Podemos conversar mais um pouco.- entrei mais uma vez naquele mix de sentimentos que me tornam a pessoa mais indecisa do mundo. Não podia mais demorar pra responder, ou senão ele pensa que sou uma autista que não responde.
-Seria ótimo conversarmos mais -Ele abre um sorriso (OMG)- Mas antes(eu voltando a razão) acho melhor eu me arrumar. Vamos dar uma volta na pracinha que tal?
-Por mim está ótimo.
-Perfeito! Vou me arrumar e volto a 20 minutos, ok? Me espere na porta, tem banquinho e tudo no jardim, pode sentar lá se quiser.
-Fechado.
Fechei a janela e sai voada pro banheiro. Tomei uma ducha. E coloquei uma roupa que eu adoro: um jeans e uma camiseta branca básica com chinelo de dedo. Só pra não ficar básico demais coloquei um broche na blusa e uma faixa no cabelo. Sai e lá estava ele sentado no banco do jardim. Se tivesse uma máquina, esse seria um momento que eu guardaria com carinho. Fomos à pracinha. Ele me contou pra onde estava indo quando eu acidentalmente o machuquei. Depois veio uma decepção, ele não mora na cidade, só tá passando as férias aqui e vai voltar pra casa nos próximos 15 dias. Ele mora na cidade grande que fica a mais ou menos 50000Km daqui!! Tentei disfarçar minha infelicidade com a notícia, porém acho que não deu muito certo.
-O que foi agora?- perguntou ele.
-Nada, é que... eu gostei de você. Sabe, quem diria que eu ia bater num estranho com minha janela e que eu ia gostar de tê-lo como amigo...
-Só como amigo? -fiquei chocada! Menino que vai direto ao ponto. Gostei.
-Bem... huumm..... é .. nãoo..sim.. aiiii não sei. To confusa. É porque, sabe, você é um recente conhecido. Mas como eu disse, gostei da sua companhia e... ai não sei, não sei, não sei...
-Entendo.. -fez uma carinha de decepção.
Ao ver essa carinha triste não resisti. Não sei o que deu em mim, voei pra cima dele e tasquei-lhe um mega beijo. Foi uma coisa linda! A partir daí começamos a namorar. Dane- se que ele voltaria pra casa dali a alguns dias, prometi a mim mesma que iria aproveitar cada segundo os instantes que eu passaria com ele.
Duas semanas depois...
-Eu prometo que vou te ligar, e vou te mandar um scrap toda vez que eu conseguir entrar no computador
-Você jura?? - Eu já estava em prantos, a maquiagem toda borrada, completamente fraca.
-Já não prometi a você?
-Eu seeei... mas... eu.. vou.... sentir... muita ....falta..-soluçando horrores.
-Eu prometo que não vou deixar você esquecer de mim tão fácil.
E assim ele entrou no carro, me dando um último beijo demoradérrimo antes. E o carro partiu. Fiquei um caco nos dias que seguiram, minhas amigas tentando me reanimar. Entrava no computador todo o dia e ficava ligado 24 hrs. Nos dois primeiros meses, ele cumpriu o que havia prometido. Depois, passaram -se mais dois meses e só nos falávamos de vez em quando. Resolvi fazer uma surpresa a ele no dia dos namorados: visitá-lo na cidade dele. Tinha o endereço e tudo, pois eu o obriguei a escrever pra mim no meu bloquinho antes que ele partisse, sabe como é, melhor prevenir do que remediar, vai que a internet aqui em casa cai, sabe, cidadezinha tem dessas coisas.
Arranjei um jeito dos meus pais me levarem, e fui de carro pra cidade do meu namoradinho. No carro pra distrair resolvi fazer aqueles joguinhos de viagem, deu certo na primeira meia hora, mas depois perdeu a graça e todos nos calamos. Peguei então meu Ipod que eu havia ganho de aniversário, coloquei na lista com as músicas que o Paulo gostava (http://www.youtube.com/watch?v=6L1aYHU2iBo ) acabei dormindo. Acordei quando paramos pra abastecer e aproveitar pra ir no banheiro. Não demoramos, voltamos ao carro e logo recomeçamos o caminho rumo a metrópole. Mais algumas horas passaram e eu ainda continuava ouvindo minhas músicas (http://www.youtube.com/watch?v=FbQLQEYDIuo&feature=related ) . Muitas horas depois paramos pra dormir, partiríamos cedinho pela manhã. Dormi que nem uma pedra, tava morta por ficar sentada no banco de um Corsa duas portas por tanto tempo. Amanheceu e lá fomos nós pela estrada a fora. Finalmente após mais algumas horinhas chegamos a cidade. Nunca tinha saído do meu pequeno município. Óbvio que eu já tinha ido visitar alguns lugares, mas nada que passasse o primeiro quilometro.
Já era noite quando chegamos na cidade grande (nossaa.. que caipira falando!). Da janela do carro as luzes dos prédios e anúncios batiam em minha roupa. A cada esquina um barulho diferente, música saindo por todos os lados (ou era hip-hop, ou pagode ou funk). Sentia-me um pouco confusa com tudo aquilo. Por termos chegado tarde, decidimos que só encontraria o Paulo amanhã de manhã. Paramos num hotel, não era nada chique, mas tinha uma aparência agradável, aconchegante.
Na manhã seguinte, levantei com as galinhas e acordei meus pais juntos. Coitados estavam cansados, mas eu estava tão ansiosa que mal podia esperar pra fazer a surpresa pro Paulo. O dia dos namorados é numa segunda e já foi muito eu conseguir arrastar meus pais até aqui, só nesse final de semana! Haja sacrifício, perdi meu tempo extra todo, a partir de hoje ele será ocupado por tarefas domésticas. Eu não reclamo totalmente, afinal faço isso pra ver o Paulo.
Era umas nove horas da manhã quando lembro de ter saído do hotel. Eu estava super nervosa. Fiz até uma listinha pra não esquecer nada:
Presente;
Bombons;
Cartãozinho;
Endereço;
Bolsa;
Carteira, de preferencia com o dinheiro e a identidade dentro;
Cabeça, mas essa só não esqueço porque tá grudada no pescoço.
Peguei essas coisinhas básicas e saí. Rodamos um pouco pela cidade, pra mim é rodar porque não conhecia nada, meu pai sempre vem pra cá a trabalho. Encostou o carro e pude ver da janela a fachada do prédio. Os portões eram altos e largos, as grades na cor marfim e mais pra dentro uma grande porta de vidro. Desci do carro completamente bamba, mas fingi um sorriso de “tá tudo bem” pro meus pais e pedi pra eles esperarem na esquina, não queria ver eles por perto caso o Paulo aparecesse e me tascasse um daqueles beijos.
Fui passando portão por portão. Eu só entrei porque eu tinha falado com a mãe dele, dona Mônica, enquanto estava ainda no quarto do hotel. Subi até o apartamento, olhando muito atenta às placas e números que passavam. Pensei seriamente que iria me perder lá dentro. Graças a Deus cheguei a salva. Toquei a campainha. Abre uma moça vestida de empregada, com avental e coque na cabeça. Ouço uma voz lá atrás: “ Pode deixar entrar, Valdete! Deve ser a namoradinha do Paulinho!” Se não fosse o tom maternal com que ela havia pronunciado essa frase, eu teria tirado satisfações com ela pelo “namoradinha”.
Entro. A sala toda muito elegante. Diria que exatamente igual a revista de decoração que eu tinha visto no médico outro dia. Os móveis impecáveis brilhavam. Carpetes brancos e felpudos, móveis alguns de madeira, outros de vidro. A mesa de jantar parecia caber umas 10 pessoas, todos os pés dourados. O lustre era grande e parecia uma cascata de luzes caindo, muitos quadros pendurados na parede. Enquanto eu ainda vislumbrava a sala (detalhe: era apenas a sala!), uma mulher loira sai de um dos corredores. Com um bluetooth na orelha falando com alguém em francês, ou foi isso pelo menos que eu entendi antes dela vir me cumprimentar:
-Ohh.. Olá jovem! Você deve ser.. Ana.. não, Maria... Clara?
-Hãaa... não, quase. Eu sou Maria Eduarda, prazer conhecê -la, Sra. Cranforth.- ainda estava um pouco envergonhada pela confusão de nomes, mas me mantive composta e fui dar os dois beijinhos de praxe.
-Bem querida, Paulinho estava aqui a segundo... Ele deve ter ido pro Play- pensei comigo mesma: “ele não estaria muito grandinho pra ir pro Play?”, mas logo depois ela continuou- Hoje é a festinha de uma amiguinha dele de infância, Marcinha.
Tinha me esquecido completamente dessa menina. Toda vez que o Paulinho tocava no assunto eu tinha uma das minhas crises de ciúmes. Como o tempo era curto, ele nem falava no nome dela toda hora. Segundo ele, pra não perdemos nosso tempo precioso com minha ciumeira...
Do pouco que ele conseguiu me contar era que ela é amiga dele desde os tempos de criança, viviam juntos, até tiveram um namorico de criança, mas não passou daquilo (foi aí que o ataque começou). Agora, já não mais tão pequenos e inocentes, eles são realmente amigos (foi o que ele disse, contudo meu sexto sentido gritou nessa hora).
Quebrei o silêncio ainda sem graça:
-Ahh.. então a senhora me desculpe. Eu volto outra hora, uma em que ele esteja disponível.- fui andando em direção à porta.
-Não, Maria Clara! Espere!- não a interrompi, fiquei sem graça de corrigir meu nome- Como eu disse ele deve estar no play. Pegue o elevador e vá até lá. Não tem erro, está escrito P no painel dos botões. Se algum segurança lhe parar diga que vai na festa da cobertura 3500 e diga que a Cecília Elizabeth Cranforth a liberou.- ela me entregou um crachá. Um crachá!! Nunca fui a uma festa onde precisasse apresentar um crachá no lugar de um convite! Gente, rica é outra história.
-Ahh sim.. obrigada, Dona Cecília- estendi a mão e peguei o “convite” ainda com a cara mais envergonhada possível.
-Que isso menina. E sem a parte do Dona por favor.
-Claro. Obrigada mais uma vez.-já estava perto da porta, mas antes mesmo de eu levantar a mão pra girar a maçaneta já estava Valdete com ela aberta e sorrindo gentilmente para mim. Retribui com um sorriso, nada além do que eu poderia fazer.
Peguei o elevador novamente. Apertei o botão conforme d. Cecília indicou. Chegando no Play, ouço a música tocando. Mas ainda era manhã, então provavelmente esse seria o ensaio antes da festa, testando equipamentos, som, luz, essas coisas. Apresentei o crachá e me deixaram passar. Porém todos me olhavam com uma cara muito estranha, como se eu viesse de outro mundo. Fui procurando Paulo. Perguntei à várias pessoas e ninguém havia o visto. Até que uma alma caridosa me indicou o caminho onde o teria visto pela ultima vez. Segui tranqüilamente,achei um pouco escondido e tal, mas como tudo aquilo era diferente pra mim, deixei pra lá e segui em busca dele. Chego a um canto escondido e um pouco escuro. Estava com minhas surpresinhas na mão(deve ser por isso todos me olhavam torto). Deparo- me com um casal se beijando. Um pouco cedo pra já estarem no amasso, a festa nem começou! Mas peraí... eu conheço aquele cabelo e aquela roupa e aquele sinal no pescoço... Não! Não! Não pode ser! Gritei:
-PAULO!!! - o menino se vira assustado e parecia jogar a menina longe.
-Duda! Não espera! Duda! Eu explico! Não é nada disso que você tá pensando! ESPERA!!- não adiantava, eu já tinha tacado tudo no chão e saído correndo.
Corri, corri e corri. Enfim, cheguei ao hall do elevador, mas não queria que ele me alcançasse. Resolvi ir pela escada mesmo. O Play ficava num andar alto. Não lembro quantos lances de escada eu desci, sei que teve uma hora que eu cansei e sentei no canto. Meus olhos cheios d'água, jorros saíam deles e nada os faziam parar. Perdi meu tempo vindo a essa porcaria de cidade, fiz meus pais pagarem hotel, gasolina, e os outros custos de uma viagem e pra quê? Á toa. Aii que burra que eu sou!!! É claro que ele tinha me esquecido. Ou pior, eu fui só a diversãozinha das férias dele. Burraburraburraburra..!!!
Passei um bom tempo naquela escada. Depois disso saí e fui até à esquina em que meus pais estavam esperando. Pelo visto minha cara, não estava nada boa, pois minha mãe levou um baita susto quando me viu no lado da janela dela. Ante que eles começassem o mundareu de perguntas disse:
-Sem nenhum tipo de interrogação, por favor. Me pronuncio quando eu estiver pronto pra tocar no assunto.- eles fecharam a boca.
Partimos de volta, eles fizeram o quê eu havia pedido, não falaram duranta a viagem, não comigo pelo menos. Chegamos em minha cidade e gastamos o mesmo tempo que na ida. Fui direto pro meu quarto. Me deparo com a janela, a causadora de todo esse sofrimento. Tinha vontade de quebrá-la, mas pensando duas vezes, vi que não valia a pena ficar sem uma janela no meu quarto.
Passei dias na fossa. Aquele tinha sido o meu primeiro e último dia dos namorados. Prometi isso a mim mesma. Nada de garotos que me façam sofrer. Dia dos namorados está abolido do meu calendário. EU ODEIO DIA DOS NAMORADOS!! Droga de dia!! Foi nesse dia que meu planos com meu grande e único amor foram pelo ralo, como um papel facilmente rasgável!(http://www.youtube.com/watch?v=mdkvsHxv1mw )
Falando em papel, foi isso que eu fiz com a maioria das fotos que estavam penduradas pelo meu quarto, rasguei. E também apaguei a pasta com as fotos dele do meu computador, mas eu tinha um CD com elas guardadas, só que eu não sei onde eu enfiei isso. Quando eu achar pode apostar que todo o conteúdo dele será apagado. Nenhuma lembrança dolorosa vai existir. O tempo fará com que a ferida se feche. Deixei ordens expressas que nada relativo a ele chegue até mim. Não atendi nenhum dos telefonemas que ele me fez, nem abri nenhuma das cartas que ele mandou. Joguei todas pra debaixo da cama, e aí de quem as mostrassem pra mim de novo!
http://www.youtube.com/watch?v=iBhH1x543tM
Mais ou menos um ano depois, em janeiro do ano seguinte....
Vai fazer um ano que conheci Paulo. Aproximadamente nessa hora, nessa mesma janela minha vida amorosa iria descobrir o ápice e o declínio em menos de um semestre. É difícil lembrar desses momentos. Tento esquecê-los, pois sei que se permanecerem posso sucumbir e voltar a falar com ele. Durante todo o ano passado ele tentou manter algum tipo de comunicação comigo. Cortei todos da melhor forma que eu pude. Já tem mais ou menos uma semana que não vem nenhum recado dele. Assim é melhor, sofro menos.
Depois do Dia pra Esquecer (o aquele fatídico dia) eu me tranquei por semanas em casa, não saía para nada. Chorava, ouvia música de fossa e quase não falava com ninguém, apenas o básico. Meus amigos e parentes tentaram me reanimar. Em vão. Finjo pra eles que eu dei a volta por cima, mas quando fico sozinha volto ao meu estado de inércia.
Quando fico assim costumo colocar pra fora os sentimentos e escrever no meu caderninho secreto. È secreto porque não deixo ninguém ler, nele contém os poemas, contos, histórias e outros escritos que expõem minha fraquezas, todos os pontos frágeis. Taí, vou escrever um agora...
Corações ao vento
Sentimentos não deviam existir de maneira abstrata. Deveriam ser todos coloridos, assim seriam mais fáceis de identificar. Mais fácil seria manuseá-los, modificá-los. Alcançá-los. Bastaria estender a mão para...
Droga a campainha! Odeio ter que interromper um desses meus momentos criativos. Do jeito que eu sou é capaz da idéia principal fugir da minha cabeça. Outra coisa que eu odeio é ter que ir atender a porta quando eu estou sozinha em casa. Nunca se sabe quem bate, mesmo nessa cidade minúscula. Estou toda mal vestida, mas dane- se quem mandou tocar na casa de uma menina em frangalhos? Se for besteira aviso logo, vou manda r plantar batatas. Procuro as chaves. Onde será que elas se meteram? Eu nunca as acho quando preciso....Achei! A campainha insistente e irritante continua soando, eu grito:
-Já vai!!!!- Abro a porta. E surpresaaa!!
-O...o..o...ooii.-Paulo diz com uma voz mais gaga do que eu quando falei com ele no primeiro dia.
- O quê faz aqui?!!- falo incrédula.
- Vim falar com você pessoalmente, já que não responde às minhas cartas e nem atende aos meus telefonemas. Não vim antes porque ainda tinha esperanças de resolver isso antes de eu ter que tomar medidas drásticas.
- Drásticas? Vir até aqui você considera como medida drástica?- falo mais incrédula ainda.
- Não. Não é isso você entendeu mal de novo!!
- Agora eu sou a burra? ai.. Paulo dá pra ir direto ao ponto?
- Precisamos conversar. E sem reclamar você me deve isso pelo menos.
- Eu não te devo nada. Mas como eu sou muito boazinha eu falo com você. Pode ser daqui apouco pelo menos? Vou trocar de roupa e você me espera na pracinha, ok?
- Por já está ótimo! Tamos recomeçando bem- ele fala com uma pontinha de esperança na voz.
-Puuuft... Não afirme que isso já é um recomeço, pode ser apenas o arremate, o fianl um pouco mais acabado, melhor trabalhado. - fechei a porta antes da resposta dele à essa minha frase seca.
Arrumei-me, sem muitos exageros, afinal não quero que ele pense que isso tudo é só pra ele. Mas estranhamente não me enfeito tanto desde o Dia pra Esquecer. Recomposta, vou ao encontro dele. Na pracinha todos me olham. Será que pareço um E.T.? Será que tem algo verde na minha cara? F*** esses fofoqueiros. Avisto Paulo. Vou lentamente na direção dele. Esse olhares estão realmente me incomodando...
-Paulo, podemos sair da pracinha? Vamos que viraremos a noticia da região por algum tempo se não sairmos daqui.
-Tá. Tudo bem, pra onde então?
-Eu já sei. Me siga- eu não gosto de mostrar esse lugar a ninguém, é como se eu tivesse ciúmes e fosse só meu.
Passei por todos os obstáculos até o caminho (quem disse que seria fácil?). Finalmente chegamos. Meu lugar preferido. Sinceramente não tem nada de diferente. É um campo aberto, grama alta, uma única árvore florida no meio da vasta imensidão de mato. O que torna isso especial nem eu sei ao certo, eu sempre corria pra cá quando eu estava triste, trazia meu caderninho de escritos e começava a escrever coisas sem sentido, ou coisas até muito complexas pra minha idade. Minto, na verdade o que o lugar tinha de bonito eram os dias ensolarados, os raios batiam e o ambiente mudava.
Conduzi Paulo até a árvore e sentei. Óbvio que sendo eu, quase caí de cara no chão enquanto atravessava o campo, e ele me segurou (por que ele, Meu Deus?!). Sentei no lugar de sempre, onde até tem uma marquinha feita por mim, ele me acompanhou, não havia aberto a boca pra falar nada até então:
-Nossa! Aqui é realmente muito especial.- ele teve sorte, hoje fazia um dia lindo de sol, de seu azul com pouquinhas nuvens.
-Pois é.. é aqui que eu ficava quando era criança. Uma coisa estranha que já faz uns 4 anos que eu não venho pra cá e pode apostar que as coisas não mudaram por aqui...-momento nostalgia bateu em mim e a mesma sensação de quando eu era pequena apareceu.
-Duda, desculpa estragar esse seu momento, mas eu realmente quero falar com você- eu tinha esquecido completamente o REAL motivo da minha vinda a esse lugar hoje.
-Sim, agora sou toda ouvidos e sem nenhum olhar das fofoqueiras de plantão escondido entre as frestas das janelas.
-Já faz muito tempo que eu venho tentando falar com você de alguma maneira, mas você não respondia a sequer um...
-olha Paulo, eu fiquei, ou melhor, ainda estou muito magoada com você. Eu havia me despencado daqui pra sua cidade, tinha planejado uma surpresa, não digo grande, mas com bastante sentimento. E quando eu chego lá vejo você aos beijos com uma garota, que suponho que seja a tal Marcinha, sendo que a festa ainda nem tinha começado!
-Se você tivesse me deixado falar eu explicaria..
-Explicar o quê se eu vi tudo? Um gesto vale mais do que mil palavras.
-Você realmente crê nesse ditado?
-Creio.
Ele se cala por um tempo. Parecia estar pensado em algo que o deixava muito nervoso. Eu me mantive séria. Minha cara ajudava, não sei o que era minha cara sem olheiras desde aquele dia. De repente ele se levanta. Ajeita-se. Em seguida ajoelha-se na minha frente, depois tira uma caixinha do bolso e a oferece a mim. Exatamente como um pedido de casamento dos filmes. A diferença é que ele não falou nada, estava mudo e parecia estar acanhado, com um sorrisinho de canto de boca que eu adorava.
-Paulo, o que é isso?- me levanto assustada.
-Uuuumuuumu ummumum -ele fingia estar com a boca lacrada.
-Deixa de besteira, fala! O que é essa cena?
-Ué? Você não disse que gestos valiam mais que palavras? Então, esses gestos te dizem o que?
-Casamento, mas obviamente não é isso que você quer fazer e...
-Quem disse?
-O que?
-Bem, eu não diria que poderíamos casar agora. Afinal somos menores, por pouco tempo, mas somos menores. Mas um namoro firme, sim. Nós podemos ter, assim, quando estivermos prontos, um plano já fixo, um esquema já organizado ....
-Pera, pera, pera... -eu não to acreditando- como você pode pensar em alguma coisa desse tipo? A gente nem tá mais namorando e você acha que eu vou perdoar assim?
-Como assim não estamos mais namorando? Pra mim a gente ainda tava... - inacreditável, fiquei pasma e pelo visto minha expressão demonstrou isso pois ele fez uma cara de espanto maior do que todas as minhas.
-Você bateu a cabeça ou algo assim durante esses meses?
-Hãã?
-Você realmente achou que permaneceríamos juntos depois da SUA pulada de cerca?
-Mas eu não fiz nada!
-Vai insistir nessa história?
-Duda, presta atenção. Eu não fiz nada. Eu estava justamente dizendo pra Marcinha que não poderíamos ficar juntos. Ela insistia e eu não agüentava mais, eu cheguei ao ponto de gritar com ela! Pode perguntar a qualquer um que estava lá antes.
-Eu perguntei pra todos se alguém havia lhe visto e ninguém sabia onde você estava! Só uma pessoa que me respondeu quando eu já estava na direção certa! Foi aí que eu achei o seu cantinho secreto- falei com sarcasmo.
-Não meu cantinho secreto, é que como eu disse, estava gritando e minha mãe que passou lá antes falou que não queria escândalos porque os empregados comentam e isso pode cair na boca dessas revistas de fofoca e blábláblá..
-Você também nunca me contou que era rico.
-Isso importava?
-É claro que não!! Mas se você não me contou isso como eu vou saber que você não está mentindo? Outra coisa, se você é inocente como diz, por que não veio antes esclarecer isso, deixou passar quase um ano pra falar?
-Eu tentei, mas minha mãe não queria que eu viesse pra cá. Ela me mandou obrigado pra um colégio interno, foi uma tragédia lá em casa. Meu pai não sabia que eu tava fora, ele tava viajando e não foi informado de nada, eu não conseguia falar com ele.. Enfim, foi uma falta total de informação, se ele soubesse o que minha mãe tava fazendo ele jamais teria deixado...
-Isso é sério?
-Meu Deus! O que eu faço pra fazer você acreditar? Ah.. já sei! Olhe isso.- ele tirou um bloquinho pautado do bolos e me entregou.
Estava escrito nele vários horários. Aulas de tudo que é tipo, fora uma parte dedicada aos castigos submetidos. Ao fechar o caderninho podia ser visto o emblema, era do colégio mais caro do país e famoso pelo caráter rigoroso. Estava com os olhos marejados, eu não acredito que desconfiei dele.
-Aíi.. me desculpa, eu realmente estou morrendo de vergonha. Desculpa por ter desconfiado de você.. eu não.... sei.... onde enfiar a cara... -tentei esconder meu rosto com a mão mas ela foi contida pelas do Paulo.
-Não se preocupe, eu faria da mesma maneira, acharia estranho se alguém viesse contando uma história tão cheia de confusões e mal entendidos como essa.
-Sem querer ser chata, bem, essa história da Marcinha, ainda não está clara pra mim..
-Pois é, acabei desviando do assunto- nossos olhares não se encontravam durante a conversa, mas dessa vez foi sem querer e foi inevitável que meu coração não acelerasse por aqueles olhos verdes que mais pareciam duas pedras de esmeralda de tanto que brilhavam- Bem daí eu tava discutindo com ela, que não queria nada e ela toda se querendo pra cima de mim...
-Quê??
-Hahahaha.. brincadeirinha.. Na verdade ela queria que fossemos namorados, porque minha mãe, é.. ela de novo, pôs na cabeça dela que formávamos um casal bonito junto e coisa e tal. Mas na verdade minha pensava mais em como a união da minha família com a da marcinha seria boa pros negócios do papai, sendo que papai mesmo não ligava pra nada disso.
-Poxa.. eu encontrei com sua mãe, eu liguei pra ela uns dias antes, marcando uma surpresa pra você e ela me tratou super bem e..
-Não se engane com isso. Minha mãe foi atriz antes de largar tudo e ficar como “socialite”. Ela fingiu muito bem e combinou tudo com a Marcinha esse showzinho da cena do beijo cuja platéia era você.
-Nossa, estou chocada! Sua mãe é capaz de tudo isso só pra não me ver junto de você?!
-Pior que é. Não vou nem dizer como eu fiquei depois de saber disso.
-Como você descobriu esse plano diabólico?
-Foi a Valdete. Ela é um amor de pessoa. Sempre cuidou de mim e da minha irmã, que não mora mais com a gente. Ela não agüentou me ver sofrendo pela confusão causada pela minha mãe e contou tudo, todas as conversas de telefone e pessoalmente que as duas tiveram. Eu fui tirar satisfações com minha mãe, quebrei até o vaso favorito dela, isso me faz lembrar que tenho que comprar outro, e ela irritou-se comigo e me mandou pro tal colégio.
( http://www.youtube.com/watch?v=qZ0FhVZce2o&feature=fvst )
Não tive outra reação se não abraçá-lo. As lágrimas saíram e não pude evitar. Ele retribui ao abraço e se afastou um pouquinho pra me dar um beijo. Um beijo quase tão bom e intenso que o primeiro, naquele dia da janela. Esse seria um bom momento pra que o tempo parasse, eu ali com meu amor num lugar especial e ainda fazendo as pazes. Não conseguia dizer nada, mas reuni minhas forças e as palavras conseguiram sair mesmo que quase no empurrão:
-Desculpa de novo. Eu....-a força havia cessado, mas um pensamento novo conseguiu que pelo menos mais uma palavrinha saísse- SIM!!
Ele me olhou com uma cara de não estar entendendo nada:
-Sim o quê?- agora sim eu tinha toda a força e a vontade de falar.
-Sim, eu aceito casar com você- ele abre um sorriso de orelha a orelha- Claro que não exatamente agora, mas quem sabe daqui a alguns anos?
Ele me abraça de novo e tira meus pés do chão, começa a me rodopiar. Dois bobões apaixonados rindo do amor que pareceu mais uma montanha-russa com momentos de êxtase e de grandes depressões. Agora parece que finalmente o carrinho pára juntamente com o sobe e desce de sentimentos.
5 anos depois...
http://www.youtube.com/watch?v=x2pf7urnVYQ
FIM, ou quem sabe apenas um : “E viveram felizes para sempre”? xD
Dani C.

Got to get you into my life

- O de sempre, Lulu? – o meu querido barman pergunta, assim que me sento.
- Não, que isso! – respondo. – Hoje é um dia especial, Pedroca, manda aí um especial: 99% álcool.
Ele ri, mas sei que vai fazer o que peço. Numa proporção de álcool menor, é de se esperar, mas ainda assim uma bebida bem mais forte do que as que costumo tomar toda sexta a noite.
Porque hoje, oh sim, é uma sexta especial.
É cedo, o bar ainda está vazio. Eu nem ouso olhar para trás e checar como anda a parte do restaurante. Não é prudente fazer isso nesse dia em particular.
A não ser, é claro, que você seja um deles. Ridículo como um deles.
Será que nesse dia, e apenas nele, os casais viram inimigos dos solteiros? Ou será que surge um desejo estranho de desfilarem por aí, de mãos dadas, derramando corações e juras de amor eterno por onde passam?
Será que tem algum componente químico no ar, que dá um êxtase a todos os namorados apaixonados, fazendo-os grudar e se amar loucamente, enquanto deixa todos os solteiros se sentindo sozinhos e desprestigiados?
Ou será que isso tudo é invenção da minha cabeça para que eu não me sinta culpada por querer afogar minhas mágoas em alguns copos de bebida e pedaços grandes de chocolate?
De uma coisa, pelo menos, eu tenho certeza. Eu odeio esse dia.
Eu odeio dia dos namorados.
- Aqui, Lú. – Pedro me entrega o copo, e aquela aliança gorda e dourada brilha em sua mão direita. – Mas vai com calma aí, hein?
- Pode deixar. – eu respondo desviando, enjoada, meus olhos de sua mão.
Enquanto dou meu primeiro gole, passo novamente por minha mente alguns dos motivos pelos quais eu odeio demais esse dia e sou a favor de que ele seja abolido do calendário.
1) É puro comércio e hipocrisia! É ridículo que as pessoas sejam forçadas a comprar presentes umas pra outras só por causa dessa data. E quer saber do que mais? Aposto que aquelas porcarias de floriculturas ainda só existem por causa dessa data! Tá legal, dessa e do dia das mães, mas que se dane.
2) Todo mundo arruma um rolo nas vésperas desse dia. Sério. É como se as pessoas falassem “ah, meu Deus! O dia dos namorados está chegando, preciso arrumar um estepe para não me sentir um solitário”. Gostar da pessoa? Ah, fala sério, isso é o menos importante. Afinal, romances armados não duram, não importa o que “Muito Bem Acompanhada” te mostre.
3) Todas as propagandas felizes e bonitinhas na televisão que me deixam com vontade de chorar toda vez que eu vejo. Pelo amor de Deus, isso é um preconceito! Deveria ser contra a lei que se passasse propagandas sobre amor e namorados sorridentes, num mundo em que, sabemos bem, os relacionamentos longínquos estão cada vez mais raros e fadados a desgraça.
4) Todas as amigas que conhecemos surgem com um crush doido por te contar o que ganharam de presente, ou como foi/ vai ser linda a noite romântica que o fulaninho da vez planejou.
5) E a última, mas não menos importante, coisa que eu mais detesto no dia dos namorados é o fato de que nunca, em todos os meus dezoito anos, eu o tenha passado acompanhada.
Acho que isso me deixa meio traumatizada, vá saber.
E eu provavelmente não deveria estar reclamando. Sou adepta a filosofia de que a vida de solteiro é a melhor de todas. Liberdade total. Não precisar dar satisfações pra ninguém, sobre nada. Não tem ninguém no meu pé, enchendo o saco sobre cada movimento e detalhe meu. Bem menos stress, menos brigas. Mais tempo pra mim mesma, sou dona do meu nariz. Não tenho que aturar as meias largadas pela casa e nem a cisma em ver todos os jogos de todos os campeonatos existentes. Sem namorado, evito também a velha estória chata de domir-junto-só-com-anel-no-dedo dos meus pais, ou a tensão de ter que dar uns pegas rápidos e escondidos atrás de um sofá antes que alguém apareça.
Mas cara, se quer saber, as vezes eu acho isso tudo balela. Me dá uma droga de uma vontade de ter uma pessoa. Uma pessoa fixa. Uma pessoa fixa super legal, com quem eu poderia conversar sobre qualquer coisa, que me ajudaria nas minhas crises peculiares e repentinas, que me ligaria de madrugada só pra saber se eu cheguei bem (e tá, eu iria querer mata-lo, mas é meio que bonitinho) e que nunca me mandaria flores ou cartões, mas me escreveria poemas ou músicas.
E hoje é um dia que eu estou de verdade querendo mandar todos os meus ideais as favas e arrumar alguém para agarrar em algum beco escuro.
Quão culpada uma garota pode ser por isso?
E, sério, ainda tem uma ramificação nesse quinto motivo:
5b) É meio difícil não odiar esse dia, quando você acabou de sair de um relacionamento do qual realmente gostava (mesmo que ele tenha durado menos de três meses, mas a culpa não foi minha, sério!), mas, aparentemente não era correspondida o suficiente. Ou pelo menos é isso que você descobre quando vê seu ex-namorado passeando de mãos dadas com uma dessas miniaturas de garotas de saltos inversamente proporcionais a sua altura, todo sorridente. E, se bobear, ele nem lembra mais qual é o seu nome.
Não que eu tenha esperado pra ver se ele iria falar comigo. Quer dizer, sou orgulhosa. De forma alguma eu iria passar pelo Sr. Felicidade ambulante com esse cabelo a lá “acabei de acordar” ou essa roupa de “tanto faz, eu não tenho namorado”. Evitá-lo-ei até o dia em que puder desfilar na sua frente com um cara mais gato, mais gostoso e BEM menos ridículo! E tenho o dito.
Por sorte já estava perto do bar (que chamam de Pub, mas pra mim é bar), e pulei pra dentro antes que o idiota me reconhecesse.
Misturo a água derretida do gelo com o restinho do drinque, chateada por ser boba a ponto de me importar com o que aquele retardado pensa ou deixa de pensar.
- Mais um, por favor. – pisco pra Pedro, que sorri, balançando a cabeça como quem diz “você não tem jeito”.
Eu sei que não tenho.
- Boa noite, freqüentadores do Pub do Brownie, sejam todos muito bem vindos nessa sexta-feira super especial. – a voz vem dos alto-falantes localizados em todos os lugares. Eu gemo, pensando no que vem. – Sou Júnior e trago aqui uma seleção das músicas mais românticas de todos os tempos, pra todos nós entramos no clima dessa sexta feira... apaixonante. Um beijo e um cheiro pra minha namorada Júlia!
Quase vomito todo o drinque que já havia tomado, quando Pedro me entrega o novo, com uma cara engraçada demais.
- Pub do Brownie, puuuf. – ele não consegue se controlar e gargalha. – Até hoje eu ainda rio com esse nome idiota.
Rio com ele, antes do ar ser infectado pelas batidinhas românticas. Reconheço logo de cara a música, apesar de não ter idéia do nome dela ou quem canta. Mas é aquela música que as rádios simplesmente amam.
- How Deep is Your Love. – “Júnior” diz, entre os arcordes iniciais. – Bee Gees.
How deep is your love? I really mean to learn. Cause we’re living in a world of fools, breaking us down when they all should let us be. We belong to you and me...
Nem um pouco ‘depp’, muito obrigada por me lembrar.
Agora esse dia maldito conseguiu, sério. Já não basta invadir as ruas, os prédios, as cidades, meus amigos, essa porcaria desse dia tem que invadir o MEU espaço? A MINHA bolha? O MEU bar?
Se isso não é passar dos limites, o que é? Talvez ano que vem eu tenha que me enterrar esse dia, ou me enfiar de baixo do cobertor e dormir o dia todo.
- Pintura intima. – Junior aparece de novo. – Kid Abelha.
Tou com saudades de você, debaixo do meu cobertor...
Tá, então talvez passar o dia em baixo do cobertor não seja uma boa idéia. Talvez ler. Colocar aquele bando de livro que eu tenho acumulado em dia.
- Vambora, da Adriana Calcanhoto.
Quando sinto seu perfume dentro de um livro...
- Nem um dia, de Djavan.
Um dia frio, um bom lugar pra ler um livro. E o pensamento lá em você, eu sem você não vivo. E por mais que eu tente fugir e arrumar um jeito de não ser contagiada pelo ar melancólico desse dia, eu me vejo cercada.
- Tim Maia com a música: Você!
Sou feliz, agora. Não não vá, embora, não!
E eu sou feliz? Acredito que sou. Mas agora? Nesse exato momento? Não. Não estou me sentindo nem um pouco feliz.
- Te ver, Skank!
Te ver, e não te querer. É improvável é impossível.
Eu já vi quem eu muito quis no passado, meu querido. E acredite ou não, eu não quero. Isso não é improvável, muito menos impossível.
Mal tenho tempo para pensar e pedir mais bebida entre uma música depressiva e outra.
- Every Breath You Take. – Junior diz. – The Police.
Oh, can’t you see? You belong to me.
Eu acho uma safadeza apelarem para meu ponto fraco, que são as músicas antigas. Sinto minha vontade se dividir.
Uma parte de mim me diz para que eu me afunde na mesa e chore (essa é a minha parte ridícula) e a outra me diz para mandar todo mundo pro raio que o parta, essa porcaria dessa sociedade capitalista e fútil!
Porque essas pessoas sentem necessidade de escrever músicas sobre amor? Cadê os Futuristas, que só queriam falar da destruição? Da guerra, da modernidade? Falem de morte, falem de ação, falem até mesmo de futebol! MAS chega de amor!
CHEGA de amor! CHEGA!
O ar é contagiado por uma batida conhecida. Os Beatles tomam todos os lugares e eu tenho raiva, raiva porque gosto deles e raiva porque vou passar a odiar algumas músicas se elas começarem a tocar nesse dia fatídico. E a música que toca, In my life, é infelizmente uma de minhas preferidas. Ou era, pelo menos. Agora, e especialmente hoje, eu não tenho mais certeza de nada.
But of all theses friends and lovers, there’s no one compared with you. And theses memories lose their meaning, when I think of love as something new.
Mas que... porra. Sacanagem.
Pedro ainda tenta dizer alguma coisa quando eu peço mais um copo. Algo do tipo “Luisa, pelo amor de Deus! Você vai sair daqui carregada hoje a noite?”. Mas eu só abano minha mão pra ele, chateada demais para me importar com o que o noivinho da parada tem a dizer.
Levanto minha cabeça do meu copo vazio e reparo que já tenho companheiros sentados nos bancos, envolta da mesa comprida em forma de U do bar. A maior parte de homens carecas, provavelmente divorciados com dor de cotovelo.
Estou sentada num dos lados do U, e não no meio. O cara que está sentado na minha frente, do outro lado do U, particularmente, me dá medo. Ele não tem muito de diferente de todos os outros envolta dele, que parecem distraídos, bebendo cerveja ou batucando no copo de whisky. Todavia, ele não tira os olhos de mim. Me olha como se eu fosse uma espécie de comida, e não de uma forma boa.
Desvio o olhar para bebida que Pedro me trás com uma careta e depois dou mais uma olhada discreta para minhas laterais e para a parte central do U, procurando por mais alguma mulher que ele possa secar.
Mas sou a única.
Quer dizer, eu acho. Não dá pra enxergar muito bem a minha direita, porque o cara que está sentado do meu lado é realmente gordo e tapa toda minha visão dos outros bancos depois dele. Mas que seja, provavelmente sou a única mulher mesmo.
A única mulher numa mesa em U repleta de homens no dia mais infeliz do ano. É, sempre me achei meio masculina, no fim das contas. Porque acho que isso é uma coisa tipicamente masculina. Se embebedar num Pub qualquer. As mulheres solteiras devem estar em casa, assistindo Diário de Bridget Jones e se entupindo de sorvete de chocolate.
Júnior anuncia mais alguma música no microfone, mas eu estou ocupada demais tomando meu drinque e tentando me esconder com meus cabelos do velho tarado pra reparar em qual é. Só que quando ele termina de falar, ainda diz algo como: “essa vai pros solteiros desse estabelecimento”.
Eu não ligo muito, sabe como é. Quem se importa?
Só que quando a entradinha de violão começa a tocar, e a voz de John Mayer lota o ambiente, eu me vejo murmurar junto com ele.
- Searching all my days just to find you, I’m not sure who I’m looking for. But I’ll know it, when I see you.
Love Song For No One, me deixa certa de que vou levantar e ir embora. Me meter embaixo de um edredom e ver um filme, tipo “Diário de uma paixão” e comer chocolate. O que eu deveria ter feito desde o início e não dar uma de machona e vir beber.
Só que antes que eu pudesse levantar e gritar para Pedro colocar os drinques na minha conta, ele apareceu me empurrando mais um.
- Mas eu não pedi outro! – eu digo, confusa.
- Pagaram para você. – ele dá de ombros, e me empurra um guardanapo dobrado.
Eu fico encarando o guardanapo como se ele fosse uma barata até tomar coragem de toca-lo e abri-lo. Não antes de dar uma olhada pro velho tarado, que está distraído o bastante olhando pra bunda de uma garçonete, enquanto ela limpava a sujeira de um copo caído.
O que mostra que ele não deve ter nada haver com isso. Ufa.
Antes de abrir o guardanapo olho em volta de novo. Nada de diferente. Quer dizer, todos os coroas com dor de cotovelo ainda estão se embebedando, e o gordo (sério, gordo mesmo) ao meu lado ainda me impede de ver se tem alguma outra mulher pras bandas direitas.
Junior apresenta mais uma música: Só Hoje.
Hoje eu preciso te encontrar de qualquer jeito, nem que seja só pra te levar para casa, depois de um dia normal...
Então que seja, beberico meu drinque que já foi pago enquanto abro o guardanapo displicente. Pelo menos vou ter o prazer (ou não, sei lá) de dar um fora nesse dia ma-ra-vi-lho-so.
Esforço-me para ler o que vem escrito, em uma caligrafia arrumada, sisuda, pomposa de uma forma quase clássica.
O começo é sempre hoje.
Só isso, mais nada. Então, sei lá, um arrepio estranho percorre toda extensão da minha coluna vertebral, chegando a arrepiar alguns cabelos de minha nuca.
Só por causa de uma frase num guardanapo.
Estranho.
Hoje, só tua presença, vai me deixar feliz. Só hoje.
Pedro me encara do outro lado do U, sorrindo torto da minha cara de surpresa. Eu lhe mando um olhar fuzilante e ele logo vem na minha direção com aquela cara de “ai, droga!”.
- Quem foi? – pergunto, quando ele encosta no balcão. Seus olhos pretos demais, brilhantes combinando perfeitamente com seu sorrisinho.
- Bom, eu não deveria contar. Sabe como é, o relacionamento barman-cliente é quase uma coisa de psicólogo paciente. – ele enrola.
- Pedro... – eu franzo meus olhos e ele logo vê que a coisa tá preta pro lado dele. Nunca o chamo de Pedro.
- Tá legal, tá legal. – ele diz, pegando um pano e limpando a mesa.
Mas não fala nada.
- E? – pergunto impaciente.
Ele aponta com a cabeça para a esquerda dele, minha direita. Eu dou uma disfarçada, como se estivesse coçando o cabelo para dar uma olhada. E tudo que eu vejo é aquele cara gordo que bloqueia minha procura por outras garotas.
O olho desesperada.
- Esse não, anta. – Pedro diz. – A terceira pessoa depois dele.
Então, ó céus, existe vida inteligente do outro lado do gordo!
Sei que é uma coisa meio idiota, mas me apoio no balcão para conseguir uma visão melhor e mais aérea da situação. Vejo alguns cotocos de cabeça quando faço isso, mas apenas isso.
Quando Can’t take my eyes of you começa a tocar, o cara cheinho obstruinte bufa para mim e se levanta do banco. Dando assim, uma visão geral do que antes estava escondido.
Eu pisco algumas vezes com a tensão.
- O Terceiro. – Pedro repete.
Um:
Careca desquitado.
Dois:
Mulher loira e peituda.
Três:
Ah meu Deus, nem pensar! Caio do meu apoio no balcão, sentando com força na cadeira.
- Ele? – pergunto a Pedro que, prendendo o riso, confirma.
Só que eu ainda não acredito.
O careca desquitado da ponta olha pra mim meio admirado. Como se estivesse se perguntando se eu estou mandando uma mensagem subliminar para ele. Com essa coisa toda de ‘can’t take my eyes of you’ e minhas encaradas.
Huum, não.
Mas então a loira peituda o cutuca e ele se vira, me deixando ver a ponta dos cabelos bagunçados e meio arruivados da terceira pessoa. Tenho vontade de virar e perguntar a Pedro se ele tem certeza, mas antes que tenha a chance, os dois – o careca e a loira peituda, digo – começam a se atracar numa série de beijos e amassos nojentos. Quem diria?
No momento seguinte, ele está catando por chaves no bolso e os dois saem praticamente correndo do bar, jogando umas notas no balcão.
Engulo seco ao perceber que nessa perna do U, ficamos só eu e meu possível admirador secreto.
Só que eu ainda não acredito ser possível.
Fico um pouco vermelha ao reparar que ele me encara, nem tenho coragem de encarar de volta. Volto meus olhos para minha bebida, Pedro reclama alguma coisa comigo, mas eu finjo que não ouço.
Num olhar de soslaio, vejo que o cara ainda está de olho em mim. Não entendo.
Não entendo porque – oh meu Deus – o que é esse cara? Desde quando um cara como ele fica sozinho no dia dos namorados?
Olho de novo. Ele se entreteu com o jogo mudo na tevê. Itália versus Inglaterra. Azzurra está vencendo de 3x0, e já é final do Segundo tempo. Sinceramente, ninguém está nem aí. Nenhuma das pessoas sentadas nesse bar olha para a tevê silenciada pelas músicas românticas. Ninguém exceto ele, ao que parece.
Mas não me incomodo, pois com sua suposta distração, posso examinar melhor.
- Quer ser mais discreta, Luisa? Pelo amor de Deus. – Pedro enche o saco, mas eu relevo de novo.
Porque é meio impossível ser discreta quando se trata de um exemplar do sexo masculino como esse. O cabelo é definitivamente arruivado. Castanho arruivado. Mesmo que ele esteja de perfil, vejo que tem traços fortes, bem delineados, marcantes. Queixo quadrado, saliente, másculo. Pernas longas, o que demonstra que ele é alto, cobertas por uma calça quadriculada esverdeada. Dá até pra ver a barba por fazer, mas não grande demais, só uns pontinhos avermelhados ao longe.
You’re just to good to be true, can’t take my eyes of you.
Seus olhos saem da televisão, e eu lanço os meus – ligeiramente esbugalhados – para cima de Pedro.
- Ai Meu Deus. – silabo. – Se isso for uma brincadeira, acho melhor você me dizer agora, Pedro. Ou então eu...
Não tenho a chance de terminar. Pedro, ainda escondendo um sorriso, tira os olhos de mim, para encarar alguma coisa ao meu lado enquanto diz:
- Posso trazer mais alguma coisa pra você?
- Ah, mais uma gin. – uma voz responde ao meu lado, de uma forma meio estranha.
E, salabim, salabam! Quando giro meu rosto para ver quem é o dono da voz, vejo que sentado do meu lado se encontra meu suposto admirador secreto!
Pedro ri para mim, antes de se virar para buscar a bebida.
- Oi. – o cara diz do meu lado.
- Oi. – eu repito, encarando firme o meu copo de bebidas.
Só que por dentro eu estava gritando loucamente. Ou, pelo menos, parte de mim. A outra parte estava tentando me lembrar que eu jurei pra mim mesma que faria uma abstinência de garotos depois do meu ex namorado idiota.
- Então vejo que recebeu meu bilhete. – ele diz, estranhamente enrolado, apontando para o guardanapo ao lado de meu copo.
- Ah, era seu? – me faço de desentendida. – Recebi sim, uma bonita frase.
Quase emendo um ‘me mandou porque?’, mas resolvi guardar a pergunta pra depois, até porque ele logo responde:
- Mary Shelley foi genial. – ele diz, com um sorrisinho de lado.
Que revela uma covinha muito fofa que me faz abanar a cabeça como se confirmando o que ele diz.
Sim, Mary Shelley foi genial!
Espera. Quem é ela?
- Desculpe a ignorância, mas... quem?
Ele ri. Ri com vontade e então gira seu rosto totalmente na minha direção. E, apesar de seus olhos estarem – mesmo que ele esteja sentado, veja bem – uma cabeça mais altos que os meus, eu ainda vejo que eles são verdes. Um verde ainda mais claro que um verde esmeralda, quase translúcido.
- É uma escritora de minha terra. – ele responde, meio enigmático, mas ainda enrolado. – É considerada uma das primeiras feministas. Você conhece, com certeza, o livro mais famoso dela.
- Hm, qual?
- Frankenstein.
- Meu Deus, uma feminista que escrevia estórias de terror? – pergunto, quase caçoando.
- Na verdade Frankenstein não é uma estória de terror. – ele me repreende, de uma forma calma, piscando os olhos de longínquos, acobreados e densos cílios. – Foram todas essas adaptações que estragaram a estória. Você nunca leu o original?
Se eu li o original? Ah, é claro. Coelhinho da Páscoa era quem lia pra mim um pouco dela antes deu ir dormir.
- O máximo que eu li foi aquela adaptação com desenhos grotescos. – respondo.
- Inadmissível. – ele diz indignado. Mas tão enrolado que chega a ser quase incompreensível. – Quer dizer que você não é chegada a letras?
- Na verdade até que sou. Leio uma média de um livro por mês, mas a maior parte deles são chicklits. Sabe, “livro de mulherzinha”. – frizo as aspas.
- Ah, sim. – ele faz uma careta. – Minha irmã tem montes deles em casa.
- Aposto que você nunca leu nenhum deles. Devia ler antes de fazer essa careta por causa deles. – opino.
- Só se você ler Frankenstein, mas a versão original. – ele articula. – Temos um trato?
Encaro sua mão estendida por alguns momentos antes de aperta-la.
- Trato.
Não sei ao certo por quanto tempo ficamos assim, em contato. Seus dedos compridos e extremamente brancos em contraste com meu esmalte escuro e dedos bronzeados. Alguém grita “GOL!” e num susto, como se estivéssemos sido pegos fazendo alguma coisa errada, soltamos nossas mãos.
- Oh, crap. – ele diz, vendo que a Itália fez mais um gol no último minuto dos acréssimos. E eu vejo que quem gritou gol foi Pedro. Ele vai ouvir.
- Então, Mary Shelley e você são de onde? – pergunto, mexendo no canudo da minha bebida, desviando meus olhos dele.
- Inglaterra. – ele responde. – É por isso que eu falo meio, sabe, enrolado. E por isso o “crap”.
INGLATERRA!
IN.GLA.TER.RA.
- Poxa, pra um inglês até que você fala bem direitinho. – opino, quase babando.
Qual é o meu problema?
- Isso é porque minha mãe é brasileira, então fui obrigado a conviver com as duas línguas desde bebê. – ele explica-se. – Meu inglês é impecável, mas meu português acaba ficando com um resquício de sotaque.
Eu sorrio, embasbacada. Bato o canudo mais forte, por pura falta do que fazer.
- Acredita que eu vou pra sua terra em menos de um mês? Ganhei de presente de formatura um intercambio para Londres, de seis meses. Só que só vou poder ir agora, no segundo semestre. Porque senão perderia a vaga, mas agora vou trancar por esses seis meses e depois retomarei. – dou de ombros, dizendo.
- Sério? – ele abre um sorriso, e eu vejo que ele tem covinhas dos dois lados. Oh My God. – Espero que você goste de lá, é minha...
- Aqui cara, seu gin. – Pedro aparece, interrompendo meu amigo inglês e levando meu copo embora. – Vai mais um aí, Lulu?
- Não, obrigada. – eu respondo.
Ele me olha meio torto, mas se afasta. Chega de bebida por hoje. Digo, acho que estou tendo alucinações. Ingleses semi ruivos falantes de português não podem ser reais. Não quando estamos falando da minha vida.
- Oh man, que falta de educação. – meu amiguinho inglês diz. – Meu nome é Andrew.
ANDREW! Ó céus... Andrew!
- Luisa. – sorrio.
- Então, Luisa, o que te trás a esse protótipo de Pub? – ele olha em volta, quase enojado.
- O dia dos namorados. – eu acabo sendo honesta. – Detesto essa droga desse dia.
- Ah sim, é dia dos namorados. Estranho essa coisa do Brasil. Em todos os outros países é no dia 14 de Fevereiro. Mas enfim, porque? – ele pergunta. – O chefe do seu namorado fez ele trabalhar hoje a noite?
- Antes fosse isso. – rio sozinha. – Ou não, sei lá.
Ele levanta uma única sobrancelha, também arruivada, me convidando a explicar melhor a situação. Então me vejo explicar. Não sei porque. Dizem por aí que jamais se deve falar dos nosso dramas e de relacionamentos passados para possíveis pretendentes, muito menos no primeiro encontro. E, mesmo que isso não seja propriamente um encontro, é só disso que falo.
Talvez os trezentos e um drinques que eu já tomei tenham alguma coisa haver com isso, mas só ouço o som da minha voz me lamuriando sobre meu ex namorado idiota e sobre meus ideais de me manter solteira, de gostar da liberdade. Exceto no dia 12 de Junho.
Quando finalmente termino, estou realmente chateada. Por isso grito para Pedro que mudei de idéia e que vou sim querer mais um drinque.
- Lamentar uma dor passada, no presente, é criar outra dor e sofrer novamente. – e a única coisa que ele diz no fim de tudo.
É a minha vez de levantar uma única sobrancelha.
- Eu sei que é complicado, Luisa. Só que sempre parece tão fácil quando você está do lado de fora da estória toda. – ele continua, dando um gole no seu copo pequeno. – É o que dizem na Inglaterra: Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente.
- Ah é, eu definitivamente não consigo controlar minha dor. – concordo. – Aliás, ela só se transformou em ódio. Sei lá, as vezes acho que os caras são todos iguais, farinha do mesmo saco, uns babacas infantis, manipuladores de sentimentos.
- Ui. – ele diz, voltando a ter aquele sorriso torto adorável no rosto. – Acho que vou ali cometer suicídio só por pertencer a essa raça desgracenta. Volto em duas semanas se der errado.
Não posso me impedir de rir.
Pedro chega com a bebida, enquanto eu estou gargalhando. Ele apenas olha de mim para Andrew por alguns segundos, deixa meu copo na minha frente e sai andando.
- Não, agora é sério. – Andrew desmancha o sorriso. – Não dá para generalizar. Nem todos os caras são um idiotas manipuladores de sentimentos. Você só deu azar. Só conheceu a parte vergonhosa do universo masculino, a parte que troca uma tarde com a namorada por um jogo de futebol com os amigos.
- Mas isso não é parte praticamente da genética dos homens? – interrompo.
- Não! – ele se apressa em responder. – Isso é o mesmo que você dizer que todas as mulheres tem uma propensão genética a fazer as unhas no salão toda semana.
Eu encaro minhas unhas, carcomidas e sem nenhuma gota de esmalte.
- Sou a prova viva de que isso não é verdade. – mostro minhas mãos para ele.
- E eu sou a prova viva de que nem todos os homens são idiotas. – ele dá um sorrisinho.
Quase que um “com certeza” pula pra fora da minha boca, mas eu me controlo e balanço a cabeça em negação, sorrindo enquanto digo:
- Sua humildade é cativante.
Ele aumenta o sorriso, enquanto diz que estava brincando. Parcialmente.
- Foi só o que eu verifiquei ao longo dos meus 20 anos de existência. Não tenho muito do que reclamar, de verdade. Dá pra contar nos dedos de uma mão as vezes que briguei feio com algum antigo rolo meu. – ele dá de ombros. – Isso não quer dizer que eu não goste de futebol, ou não aprecie sair pra beber com meus amigos. A única diferença é que eu sei dosar.
Pedro, favor trazer um babador.
- E não sou o único, juro pra você. – ele coloca sua mão sobre a minha, batendo-a gentilmente.
Ao contrário do meu coração, que começa a bater loucamente.
- Sabe, eu nunca tinha pensado por esse lado. – admito.
- Há vida inteligente na terra? – ele pergunta, mas nem me deixa tempo para responder, pois complementa: - Sim, mas eu estou só de passagem.
Começo a gargalhar de novo, dessa vez ele me acompanha.
- E voltamos a humildade cativante. – brinco.
Nossos sorrisos vão murchando, e quase que simultaneamente, tomamos um gole de nossas respectivas bebidas.
- Adoro essa música. – ele acaba dizendo, depois de alguns segundos de silencio.
De cara eu reconheço que são os Beatles de novo, mas não identifico a música. É quando Júnior entra, dizendo:
- Os Beatles de novo com Things We Said Tonight.
If I have to go, you’ll be thinking of me. Somehow I will know. Someday when I’m lonely, wishing you weren’t so far away, then I will remember the things we said today.
- Adoro esses caras. – Andrew assume, meus olhos brilham. – Sou o único dos meus amigos que gosta deles.
- Bem vindo ao meu mundo. – murmuro.
- Nasci em Liverpool, então eu deveria ter ficado enjoado deles. Liverpool é, definitivamente, Beatlesland. Esses quatro estão em todos os lugares, sem exageros. – ele fala sorrindo, enquanto eles continuam soando pelo lugar. – Pode até ser que fosse enjoativo, mas agora que eu estou morando em Londres, sinto uma falta enorme de toda aquela parafernália.
- Sou doida pra conhecer Liverpool. – assumo. – Vou me planejar para conhecer quando estiver por Londres.
These days such a kind girl, seems so hard to find.
- Não conhecia essa música deles. – comento.
- Não é muito famosa. – ele responde. – E é por isso que eu adoro.
Nós dois ficamos em silencio pelo restante da música. Ele batucava no ritmo, murmurando algumas partes, eu só estava focada na letra.
Love me all the time, girl. We’ll go on and on. Someday when we’re dreaming, deep in love, not a lot to say. Then we will remember what we have said today.
- Você acha que a gente vai lembrar sobre o que falamos hoje? – a pergunta acaba saltando da minha boca, assim que a música acaba.
- Bom, eu não sei quanto a você, depois desses vários copos de drinques. – ele ri. – Mas eu sei que eu não vou esquecer.
Nos encaramos em silêncio por alguns segundos, os dois sorrindo. Não sei o que dizer exatamente, é uma situação extremamente utópica, pela qual nem de longe eu pensaria em passar na noite de hoje.
- Lu, já são duas e meia. – Pedro aparece, como as badaladas do relógio em Cinderela.
- Ai, droga. – murmuro. – Brigada Pedro.
- O que tem já serem duas e meia?
- Minha mãe. – respondo. – Ela fica super preocupada se eu demoro pra voltar pra casa. Mais ainda se eu não aviso, e hoje eu nem trouxe meu celular.Grito pra Pedro, que já está do outro lado do U, pra colocar todas as bebidas que consumi na minha conta.
- Sabe como é, quase dezenove anos na cara, mas ainda tenho meio que um horário pra voltar pra casa. – dou de ombros. – Não que minha mãe me obrigue, nem nada assim, mas eu tenho pena. Ela ficou tão solitária desde que se separou de meu pai, e como eu sou filha única a preocupação só cresce e cresce.
Andrew ri.
- Tudo bem, eu entendo. – diz. – Minha mãe também é meio superprotetora até hoje.
O que é uma coisa bem fofa de se dizer.
Pedro, onde está o maldito babador?
- Então, obrigada. – levanto do banco. – Por tudo, digo.
Ele se levanta também. Fico assusta ao ver que passo só um pouco de seu ombro, apesar de ser a mais alta de todas as minhas amigas.
- Disponha sempre. – ele responde.
E, mais uma vez, eu não sei exatamente o que fazer. De acordo com as tradições inglesas é falta de educação dar um abraço na pessoa que você só conhece a algumas horas na despedida? Um beijo na bochecha? Um aperto de mão?
Ó céus.
Acabo resolvendo só sorrir e dizer:
- Tchau então, Andrew.
O que soa como um: “Tchau pra sempre” de tão lamuriante e melancólico. Faltam só lágrimas para ser praticamente um capítulo de novela mexicana.
Saio rapidamente do Pub, deixando-o para trás. Descubro que está chovendo loucamente, apesar da lua cheia estar bem resplandecente no céu. Não tenho guarda-chuva.
Caramba, eu trouxe alguma coisa para o bar? Porque estou com o sentimento de que estou esquecendo alguma coisa?
Então descubro o que é, e corro pra dentro do bar de novo, antes de ficar toda molhada. Não encontro Andrew, só Pedro limpando o lugar onde estivemos a pouco. Salvo o guardanapo antes que ele o amasse e jogue fora. Lamurio-me por não ter tido a chance de perguntar qual foi o motivo da aproximação.
- Ele pagou suas despesas de hoje. – Pedro diz.
- Que? – eu pergunto, tonta.
- Seu namoradinho estrangeiro pagou tudo que você consumiu hoje. – ele explica de novo.
- Mas isso é um absurdo! – e uma fofura, diga-se de passagem – Onde está ele? Tenho que repor tudo. Quem mandou você aceitar?
Pedro só deu de ombros, indo atender outro cliente. Com o guardanapo dobrado entre as mãos, tentando cobri-lo ao máximo para que não molhe ou borre, saio do bar de novo.
A chuva parece ter piorado, tento andar mais rápido, mas o vento que bate é contrário ao caminho que tomo e me atrasa.
Só andei alguns passos quando alguém buzina. O que é meio anormal de se fazer quase as três da manhã, por isso olho. Vejo o carro parar e uma figura alta que a chuva ofusca sair de dentro dele.
- Luisa, venha, eu te dou uma carona.
Eu sorrio, mas não me movo. Ele vem ao meu encontro, e puxa minha mão.
- Ande logo, vai ficar toda molhada.
E, magicamente, lá estou eu no banco de carona do carro chique de Andrew.
- Meu Deus, que rapidez foi essa? – me admiro. – Como me achou?
- Bom, quando você saiu perguntei ao barman se você estava de carro. Ele respondeu que não. Então perguntei qual era a direção da sua casa, e saí logo em seguida para pegar o carro. Meu plano era dirigir rente a calçada, procurando por você para te oferecer uma carona. – ele explica. – Eu ia te oferecer antes, mas você saiu tão rápido que não me deu a chance.
- Desculpa. – sorrio. – Eu não sabia muito bem qual era a despedida inglesa correta para duas pessoas que se conhecem apenas a algumas horas.
- Teoricamente pessoas que se conhecem apenas a algumas horas não pegam caronas uma com a outra, certo? – ele diz, dirigindo calmamente, observando atento a estrada. – E olhe bem pra nós.
Rimos.
- Só um momento, você não bebeu?
- Bebi.
- E está dirigindo? – pergunto horrorizada.
- Shh, não conte pra ninguém. – ele ri. – Se eu te deixasse ir sozinha você também teria uma probabilidade de morrer, afogada, por essa chuva. Mas relaxe, eu não vou bater. Senão vou ter de pagar a agencia onde aluguei. O carro não é meu, sabe como é. E pelo menos se a gente morrer, morre junto.
- Ai meu Deus, que horrível. – digo, tentando parecer séria, mas estou rindo. – Não posso morrer ou minha mãe me mata.
- O que faz de nós dois. – ele responde. – Sabe, tive medo que não conseguisse te achar, que você tivesse corrido pra casa ou algo assim. – ele gira na minha rua, segundo minhas coordenadas. - Mas parece que você não conseguiu andar muito.
- É que eu voltei no bar para pegar uma coisa que eu tinha esquecido. – respondo. – Mas foi extremamente gentil de sua parte, muito obrigada.
Ele olha pra mim rapidamente, para ver se eu carregava alguma coisa diferente.
- É aqui. – aponto para meu prédio adormecido e ele encosta o carro. Ainda chove torrencialmente.
Viro na direção da minha porta, para tentar abri-la, mas não consigo. É uma espécie de trava diferente. Todavia, antes que eu possa virar de volta e pedir ajuda a Andrew, o enxergo do lado de fora, abrindo minha porta.
Caramba.
- Meu deus, que cavalheiro. – brinco, mesmo sendo uma brincadeira séria.
O cabelo dele fica ainda mais bagunçado quando molhado, e os pingos escorrem pelo seu rosto. Seus olhos mais brilhantes ainda misturados com chuva. Just to good to be true.
Ele bate a porta e nós dois corremos para a pequena marquise de meu prédio. Eu procuro minhas chaves pelos meus bolsos enquanto digo:
- Ah, Pedro me disse que você pagou minha despesa de hoje. – o fuzilo com o olhar. – Não devia ter feito isso.
- Não vejo qual é o grande problema. – ele diz, olhando meio intrigado para minhas mãos. – Porque você está procurando só com uma mão pela chave?
Ah, legal. Porque eu não coloquei o guardanapo no bolso enquanto tive chance?
- Ahh, bem...
- O que tem na sua outra mão, Luisa? – ele ri, segurando-a entre as suas.
Então eu nem tenho forças pra lutar. Sabe como é, contato físico. Minha mão se abre quase que automaticamente.
Revelando um guardanapo todo amassado e bem molhado. Mesmo assim Andrew o reconhece.
- O meu guardanapo? – ele pergunta admirado, rindo. – Não acredito que você quis traze-lo. Porque?
- Eu queria ter certeza de que me lembraria dessa noite. – acabo respondendo. – Que lembraria das coisas que falamos, e que não acreditaria que tudo foi alucinação da minha cabeça perturbada por drinques. Queria uma prova.
É a vez dele ficar sem saber o que responder, enquanto segura com uma delicadeza exacerbada minha mão, como se ela fosse extremamente preciosa.
- E é uma frase muito bonita, no fim das contas. Estimulante. – começo a me enrolar.
Difícil pensar com esse contato, com o balançar do cabelo dele e com as covinhas de seu rosto, tomado por um sorriso largo.
- Há instantes em que os homens são senhores do seu destino. – ele diz por fim. – Tem que tomar uma decisão, assumir um risco. Foi um risco mandar esse guardanapo pra você. Foi difícil escolher o que escrever. Mas alguma coisa só me dizia que eu precisava apostar.
A mão de cima dele, do sanduíche de minha mão, sobe por meu braço direito. Arrepio-me pela junção da chuva e do vento frio, com a eletricidade que percorre por onde sua mão passou.
- Porque se na época dos Beatles uma “kind girl” já era “hard to find”, - ele diz. – hoje em dia, achar uma garota como você é praticamente impossível. Aqui ou na Inglaterra, tanto faz. Eu já estava achando que estava fadado a ficar com uma biologicamente tendenciosa a manicure toda semana.
A mão que escapou do sanduíche desliza para meu pescoço, enquanto a outra se enrosca a minha mão. Sinto-me uma idiota, incapacitada de dizer alguma coisa.
- Vou te mostrar qual é a despedida inglesa correta no nosso caso. – ele diz sorrindo.
Pra depois usar aquela mão que estava no meu pescoço para me puxar pra perto dele. E aquela outra mão que estava enroscada com a minha, vai parar na minha cintura. Só tenho tempo de encostar as minhas em seu peito antes de seus lábios chegarem aos meus. Então parece que um raio atingiu o topo de minha cabeça e sua corrente se espalhou por todo meu corpo, devido a força do arrepio elétrico que me percorre.
A chuva aperta, fazendo um barulho bizarro ao bater sobre a redoma de vidro acima de nós. Nosso beijo se torna um abraço e eu chego até a ficar com medo que ele consiga ouvir o quão rápido bate meu coração.
- Eu estou te devendo algumas. – digo.
- O que? – ele responde, com o rosto afundado em meus cabelos.
- Você pagou toda meu gasto hoje, me deu carona pra casa e ainda me mostrou extraordinariamente bem como é a despedida correta. – eu enumero. – Preciso repor isso de alguma forma.
- Por agora, eu fico feliz se você me mostrar que você aprendeu direitinho como é a despedida. – ele volta a me encarar, e está sorrindo. – E, sobre o dinheiro e tudo mais, você pode me pagar comprando Frankenstein para ler. Porque eu vou querer comentá-lo com você, definitivamente.
- Vem me ver amanhã, então? Aí vamos juntos a livraria. – eu respondo, enrolando minhas mãos em seu pescoço. – E depois eu te mostro minha coleção de chicklits para você escolher qual deles vai querer ler.
- Ai, caramba. – ele reclama, envolvendo minha cintura com carinho.
- Trato é trato. – o lembro.
Nós dois sorrimos ternamente. Ele se abaixa para me dar mais um beijo, com a promessa de que volta amanhã.
- Uma pena que não seja mais dia dos namorados. – lamento, enquanto ele corre na direção de seu carro.
- Ah Luisa, haverá sempre o ano que vem! – ele dá uma piscadinha super significativa.
Aceno para ele, enquanto o carro toma seu rumo novamente, imaginando se daqui a um ano essa cena se repetiria.
Será que eu me darei esse luxo? De me apaixonar de novo? Por uma pessoa que nem mesmo mora no mesmo país que eu? Esse possível romance tem realmente alguma chance de dar certo? Estou disposta a jogar todos os meus ideais de solteirice pelos ares por causa dele? Será possível que eu vou conseguir, enfim, parar de detestar o dia 12 de Junho?
Só pagando pra ver.
E, definitivamente, eu vou querer pagar.
O carro dele some, girando a esquina. Enquanto me viro para entrar no prédio, uma outra música dos Beatles vem na minha cabeça e eu me vejo cantarolar:
I was alone, I took a ride, I didn’t know what I would find there. Another road, maybe I could see another kind of mind there. Then suddenly I see you.
Got to get you into my life.

Fim.

C.

Coletânea "ODEIO DIA DOS NAMORADOS"


Essa coletânea é especial para as garotas solteiras desse mundo.
Aquelas que odeiam tanto esse dia, que ficam tensas só de saber que ele está chegando, que não saem de casa nem por um decreto nesse dia fatídico.
Solteiras do mundo uni-vos!

Aí vai a segunda coletânea desse blog:

Dani N. (Nii): Um pontinho vermelho em meio a Paulista
Clara (Cla): Got to get you into my life
Dani C. (Dani C): Roller Coaster
Renata (Rezzi): Aí vem a história de um furacão

Espero que vocês gostem e comentem! :D

Um pontinho vermelho em meio a Paulista

Tic-tac-tic...
Era tão frustrante olhar para o relógio e ver que a cada trezentos e sessenta graus percorridos pelo ponteiro demorava cada vez mais para ser completado. O dia estava tão monótono e irritantemente lento que nada tinha graça.
- Com licença mocinha.
Ainda apoiada com o queixo na mão, debruçada no balcão, apenas virei o rosto para a voz. Contemplei a paisagem. Um senhor que provavelmente passou sua juventude ouvindo blues ou jazz me fitava com um sorriso e flores na mão. Era impossível continuar com a cara amarrada para uma figura tão simpática como aquela. Endireitei-me. Abri o mais dos espontâneos sorrisos que tinha. Por que realmente era muito agradável ver uma pessoa como aquela.
- Como posso ajudar o senhor?
- Gostaria que me ajudasse a escolher a melhor rosa. A mais branca e pura.
Então, o balcão que antes era apenas palco do meu tédio, tornou-se um tapete de rosas brancas. Olhei para o senhor e vi como seus olhos brilhavam, como se o que tivesse diante dele fossem diamantes que brilhavam e reluziam em seu olhar.
- Aniversário da esposa? – sorri.
- Não exatamente. São para a minha bela rainha, mas pelo quadragésimo dia dos namorados que estamos juntos. – enquanto falava, ele pegava as rosas no balcão e separavam algumas em sua mão.
Quarenta dias dos namorados. Hoje era dia dos namorados. Nem me lembrava mais que essa data existia. Mentira. Eu trabalho numa loja de flores, impossível não saber, ainda mais com uma placa de dois metros de largura dizendo “Promoção – Dia dos Namorados”. Porém, era algo que eu realmente gostaria de esquecer.
- Qual? – perguntou o senhor e cai da minha nuvem de pensamentos.
Olhei para as três rosas em sua mão. Todas eram brancas e puras, talvez as melhores. Para mim idênticas. O que me perturbava era o porquê alguém perde o seu tempo escolhendo “a melhor rosa” sabendo que a mesma irá murchar. Morrer. Porque flores são símbolos do amor se elas morrem?

Trilim...
O barulho do sino seguido pelo som da porta se fechando obrigaram-me a desviar os olhos das rosas. Era apenas mais um cliente que provavelmente vinha comprar flores para sua querida namorada ou esposa.
- Fique a vontade. – me dirigi ao novo cliente e voltei minha atenção ao senhor das rosas – Qual? Hum... Desculpe-me, mas são todas lindas. – dei de ombros, porque realmente eram indiferentes para mim - Leve as três, faço um desconto.
- É, por favor, o Senhor pode me dar licença. – falou o outro cliente, obrigando o senhor das rosas deslocar-se um pouco para direita. – É que estou com pressa. – Deu um sorriso amarelo para o senhor. Olhou para mim, depois para as rosas. – Tome. – Esticou-as para mim. – Quanto fica?
Olhei para o senhor e ele como se entendesse minhas desculpas mudas, sorriu para que eu prosseguisse.
Como gesto automático, ajeitei o arranjo, peguei o papel celofane transparente e embrulhe-as e com a fita vermelha (escolhida pela dona da loja especialmente para o dia dos namorados) fiz um laço que finalizava o meu trabalho.
- Cinquenta reais. Qual seria a forma de pagamento? – coloquei o embrulho em cima do balcão a sua frente.
Como um ninja ele estendeu o seu cartão.
- Crédito, por favor.
Mais um gesto automático, usar essas maquininhas de cartão, nunca foi tão fácil depois de três anos mexendo com elas diariamente. Entreguei a notinha ao João, pelo menos é o que dizia o cartão. Como um foguete sussurrou algo como um “Boa tarde” e saiu.
- Desculpe-me... – por um segundo havia me esqueci do senhor e sua rosa branca.
- Jovens. Com essa pressa nunca apreciam as belezas da vida – agora ele parecia estar entre duas rosas. Aproximou-as de seus olhos e examinou como um ourives suas jóias. – Esta. Vou guardar as outras.
- Não precisa... – ele já tinha recolhido todas e ia em direção ao balde onde ficavam as rosas brancas.
Olhei para a rosa em minha mão. Percebi que meu coração batia mais rápido e a mão, por onde já haviam passado centenas de rosas como aquela, transpirava. Realmente aquela era um rosa linda. O cheiro que exalava era maravilhoso.
- Perfeita, não acha? – levei um susto apesar da voz serene do senhor.
- A perfeição é algo muito relativo. – sorri – Caixa ou celofane? – mostrei as duas opções. Ele apontou para o celofane.
- Justamente, a perfeição é a ausência de quaisquer defeitos. E julgar o que são os defeitos não depende de um consenso e sim opiniões. Cada um absorve o que acha melhor e cria a sua forma de julgamento da perfeição.
- Então, o senhor julga esse embrulho perfeito? – entreguei-lhe a rosa branca no meio do celofane junto com um laço.
- Sim, maravilhoso. Quanto custa? – ele colocou a rosa delicadamente no balcão e pegou a carteira.
- Nada.
- Faço questão de pagar. – ele foi abrindo a carteira e pegando uma nota, mas o impedi.
- Eu que faço questão, por favor.
Eu realmente não teria coragem de cobrar uma rosa a esse senhor, se eu pudesse daria todas. Como o melhor dos pagamentos recebi um sorriso.
Assim voltei para a minha monotonia. Absorta no meu mundo. Pela vitrine contemplava os carros que passavam pela Avenida Paulista. Olhei para relógio, faltavam vinte minutos para que aquilo virasse um caos, como se a cidade toda tivesse marcado um encontro. 17 horas, avenida paulista. E assim começava a sinfonia de buzinas.

Trilim...
Mais um cliente? Não. Minha chefe. Ela era a típica paulistana, 35 anos e muito bem sucedida. Acho que nunca viu uma vaca, para ela o leite deve ser um tipo de água industrializada que colocam corante branco para ficar daquele jeito.
- Preciso pedir rosas vermelhas. – ela falou enquanto examinava os baldes de rosas – Vendeu uma branca?
Tecnicamente não.
- Não exatamente. – falei. Por incrível que pareça, o senhor da rosa branca não tinha sido o primeiro a levar uma rosa de graça.
- Isso será descontado do seu salário. – ela fez a típica cara dela de “esse mundo está perdido” e se recolheu para o escritório. Onde ela fingia que fazia alguma coisa.

Trilim...
Mudança de turno.
- Boa tarde! Ou seria Boa noite?
É incrível como a Gil tem um humor maravilhoso. Vai ver que são os dois sólidos anos de namoros, todos dizem vai dar casamento.
- Laila, você não vai acreditar. – como uma colegial, ela deu a volta no balcão e segurou as minhas mãos. – O Felipe me pediu em casamento! AHHH... – claro, tinha que seguir com um gritinho tipicamente colegial.
- Ótimo Gil, parabéns! Que vocês sejam muito felizes. – tentei ser ou transparecer uma imagem animadora. Mas definitivamente esse dia em especial não era o melhor para mim.
Tirei o meu avental e entreguei a Gil. Coloquei o meu casaco e peguei as minhas coisas. Quando estava para sair, algo me deteve.
- Gil.
- Sim? – ela levantou a cabeça em um gesto súbito e pelo desmanchar do seu sorriso a minha cara não era das melhores.
- O que é perfeição para você?
- O que? – ela desmanchou a cara de preocupação dando espaço a uma gargalhada. – Realmente Laila, você esta precisando de um namorado.
Talvez ela fosse a pessoa errada para esse tipo de pergunta.
Contemplei a minha floresta de pedra. A sinfonia começava a se agrupar em meio a Paulista, já se podia ouvir os primeiros bi bip das motos. Senti um pingo em meu rosto, olhei o meu reflexo numa vitrine e vi que o pingo escorria pelo meu rosto como uma lágrima.
“Porque rosa branca? As vermelhas que significam amor”. Meus pensamentos não deixavam esquecer-me daquela tarde, daquelas rosas, daquele homem. Mais um pingo no rosto, mais uma lágrima formada. “Ele me dava rosas brancas”. Os pingos ou lágrimas, o que fossem tornaram-se uma coisa só. A chuva apertou e me vi obrigada a abrir o meu guarda-chuva, me transformei em um ponto vermelho em meio ao cinza e preto da cidade.
- Minha Lai – estava brava com ele naquele dia, tinha me deixado esperando, em meio à chuva. Então me recusei a responder. – Perdoe-me minha Lai. – pronome possessivo era marca registrada dele. – Me responda só uma coisa, por favor. – a persistência era outra.
- Hum... – eu o amava.
- Responda-me minha Lai, o que seria um pontinho vermelho em meio o viaduto de chá?
- Não – estava realmente irritada, ele vinha com piadas?!
- Não vai nem tentar? Ora, essa é fácil, é você.
- Isso era para ser engraçado? – eu realmente estava com um humor péssimo naquele dia, ele não merecia, pelo menos eu achava que não.
- Desculpe. – ele baixou a cabeça, mas a levantou em seguida e serio. – Mas o que seria um pontinho branco do viaduto do chá?
Hoje eu posso dizer, ele estava lindo naquele dia. O cabelo molhada da chuva, apesar de estar com um guarda-chuva, provavelmente comprou de algum camelô quando viu que a chuva não ia parar. Típico.
- Por favor, Paulo não venha com essa... Será que não pode ser menos criança?
Uma rosa branca surgiu na minha frente fazendo com que eu me calasse.
Foi uma noite inesquecível. Eu realmente o amava.
“Atenção passageiros, ponto final da linha 4. Desembarque obrigatório, obrigada.”
Por sorte os meus pensamentos não atrapalham os meus gestos automáticos. Já estava chegando em casa. Morava na Vila Sônia, zona Oeste de São Paulo.
Entrei na minha casa, como sempre silenciosa. Já havia apagado os resquícios de Boa noite que recebia do Paulo quando chegava em casa, ou mesmo os beijos.
- Amor, o seu telefone esta tocando. – olhei para o visor e era um numero desconhecido. Ele não respondeu por que estava no banho, não achei mal em atender. – Alô.
- Paulo – a ligação estava ruim, ela não tinha me ouvido – Já reservou a vaga no motel? Alô?
Desliguei o telefone.
Foi outra noite inesquecível. Mas eu não o amava mais.
Apaguei os Eu te amo, os momentos bons. As fotos? Viraram cinzas. As Rosas? Murcharam.

Acordei na manhã seguinte com o despertador. Mais um dia de trabalho. Não, hoje era a minha folga, mas mesmo sim decidi acordar cedo, ver o sol nascer. Era dia 13 de junho e o meu pesadelo havia acabado.
Vi que o dia estava perfeito para uma visita ao Ibirapuera e não perdi a chance. Talvez seja um dos poucos lugares da cidade onde você consegue respirar um pouco de oxigênio e menos gás carbônico.
Sentei em um dos bancos e como um filme as pessoas passaram a andar em câmera lenta. Não existia mais som. Estava inerte nos movimentos. Por alguma razão levantei e comecei a andar em direção a um casal de senhores. Eu conhecia aquele senhor de algum lugar.
- O senhor da rosa! - minha voz foi como um portal para que os sons voltassem, as pessoas saíssem do estado de câmera lenta e eu estava no chão.
Meio perdida, abri os olhos e encontrei outro me fitando. Belos olhos, por sinal.
- Você esta bem?
Tentei me levantar, mas alguma coisa me impediu. Estava meio perdida.
- Não se mexa. Está tudo bem?
- Sim.
Agora a mão que tinha me impedido de levantar me ajudava.
- Você apareceu do nada. Sabia que isso é uma pista onde há pessoas correndo, andando de bicicleta, skate, patins? Tem que ter mais cuidado.
Espere, ele que tinha me atropelado.
- Desculpe. – ele disse, acho que tinha lido os meus pensamentos. - Meu nome é Ricardo.
Assim começamos a conversar. Passeamos pelo parque e nos conhecemos. No final ele pegou uma margarida que tinha no canteiro e me deu. Passou o telefone e pediu o meu.
- Até mais. – ele falou seguido de uma piscadela.
Enquanto atravessava o parque ate o metro vi uma porção de casais. Marido e mulher. Senhor e senhora. Senhor e jovem. Jovem e senhora. Homem com mulher. Mulher com mulher. Homem com homem. Enfim, diversos casais.
Começou a garoar, mas dessa vez os pingos não viraram lágrimas, porque eu era um pontinho vermelho em meio ao Ibirapuera, porem mais do que nunca, um pontinho feliz.
Hoje, eu pegava a linha amarela do metro em direção a Vila Sônia, com a resposta que eu queria do Dia dos Namorados. O amor é algo singularmente perfeito, definitivamente. Singular porque não existi um igual ao outro, perfeito porque é único.
“Atenção passageiros, ponto final da linha 4. Desembarque obrigatório, obrigada.”