terça-feira, 12 de maio de 2009

A fada azul do central park

“Lisa era uma garota de 20 anos, sua principal ambição? Nova Iorque. E esse ano ela irá estrelar sua vida na Big Apple e mostrar ao mundo para o que veio”.
Quem me dera se realmente estivesse estreando em Nova Iorque, moro aqui há seis meses. Pretendia fazer uma faculdade maravilhosa, mas sabe como é a vida nem sempre dá. Sai da minha cidadezinha em Branford, Connecticut e vim arriscar o melhor para mim.
Agora estou indo para uma entrevista de emprego.
Meu maior sonho era ser uma mega executiva nos prédios maravilhosos que enchem a All Street. Mas nos jornais não encontro muita coisa além do que atendentes de faz Ford ou babá.
É isso mesmo, acabo de pegar o metro com destino ao Central Park, para me candidatar à baba.
Experiência na área?
Zero.
No entanto, “acredito muito na minha força de vontade. Sempre gostei de crianças e tenho facilidade em me comunicar com elas. Fui uma das melhores da turma e acredito que posso ajudar a criança em qualquer dever ou dificuldade na escola. Sei cozinhar o básico e os números da emergência”. Esse seria em tese o meu discurso para o emprego.

Era minha primeira vez no central park. Acreditem mais bonito do que nas fotos. Os prédios que o rodeiam então. Quase tropeço nos meus próprios pés de tão imponentes.
300, 301, 302, 303.
Cheguei.
- Bom Dia. – um senhor que deveria ter um metro e meio, usando um quepe e aquelas roupas de porteiros de mega hotéis nos filmes, veio até mim com o mais simpático dos sorrisos.
Expliquei que estava vindo para uma entrevista no apartamento 2000. Mostrei o jornal, mas antes disso ele já tinha aberto as portas daquele templo contemporâneo para mim. Quando entrei e olhei para o chão tão branco e tão limpo que dava até medo de pisar. Olhei para o porteiro que estava atrás de um balcão igualmente branco e limpo. Dirigi-me até ele e informei a mesma coisa que tinha dito ao senhor.
Ele ligou para o apartamento ao qual eu estava indo e informou a minha presença no recinto. Ele me indicou o elevador e em um gesto automático virei para onde ele apontava. Era impossível não ver a porta do elevador dourado em meio aquele mar de mármore branco.
Apertei o botão e então esperei.
Droga. Eu estava com chiclete na boca, não seria muito bom chegar à entrevista com um chicletão na boca. Olhei para um lado e para outro e nada, nem uma latinha de lixo ou mesmo um cinzeiro.
8, 7, 6... O pior que o elevador estava chegando. Cara eu preciso de um lixo, qualquer coisa. Deve ter alguma coisa na minha bolsa. Lixo é o que não falta nela.
3, 2, 1, térreo.
Plim.
Aporta abriu.
Pow.
Cai.
Estava tão absorta em procurar alguma coisa para embrulhar o chiclete que nem olhei para frente. E por que não olhei? Agora um par de olhos verdes me fitava. Ele estendeu a mão, mas estava tão envergonhada que ignorei e me levantei.
- Desculpe. – falei entrando logo no elevador.
- Tome cuidado por ai. – falou os olhos verdes.
Devolvi um sorriso meio debochado e constrangido.
E agora? 2000 é em que andar. A idiota ao cubo esqueceu de perguntar. Deve ser o segundo. A porta abriu. Levou-me a um hall onde havia umas plantinhas bem cuidadas e mais uma porta imponente. Mas o numero do apartamento era 200.
Voltei para o elevador. Ele tinha ido para o térreo então esperei um pouquinho.
Térreo, 1, 2.
Plim.
Não!
- Bom dia!
- Bom dia. – respondi.
- Cuidado com o degrau.
Como era possível, ele tinha acabado de sair do prédio e eu nem demorei um minuto.
-Vai para que andar? – perguntou os olhos verdes.
- É... – olhei para os botões e fiz os caçulos na minha cabeça. Se no segundo era o 200. - Vinte.
Fui para frente apertar o botão e ele também.
- Desculpa. – coral. Seguido do risinho constrangido, pelo menos da minha parte era constrangido.
Plim.
- Até mais. – os olhos verdes saiu pela porta.
Meu Deus esse garoto me persegue. Apesar de que ele não é de se jogar fora. Mas foco Lisa.
Ih! O Chiclete.
10, 11, 12...
Papel, algum papel, urgente.
14, 15, 16...
Achei.
Droga, grudo. A idiota ao invés de cuspir logo no papel pegou na mão e aquele era um daqueles chicletes grudentos.
19, 20.
Plim.
- Merda. – merda ao cubo.
Quando a porta abriu na minha frente estava uma jovem mulher (jovem devido a muitos métodos antirugas) toda de branco, loira e com um sorriso de comercial de pasta de dente. Já eu, devia estar horrível. Com um papel todo amassado no numa mão e quanto na outra ainda havia vestígios de chiclete rosa, alem da cara de espanto.
Ajeitei-me o mais rápido que pude colocando o papel na bolsa e estendendo a mão limpa em um gesto instintivo.
- Bom dia, senhora... – quanta gafe para um dia só.
- Sr. Gumbert. É... – ela me avaliou dos pés a cabeça e finalizou com um sorriso não muito espontâneo, talvez educado, ou melhor, forçado pela etiqueta – Entre.
Que casa. Se eu estava impressionada com portas e elevadores até agora, estava enganada aquilo não era muito, mas muito pouco, comparado aquele apartamento. Imagine uma cobertura de frente para o central park, triplique o que imaginou e ai você teria uma pequena noção do que eu estava vendo.
Ela me encaminhou para um escritório. Nem vou comentar... Ela sentou atrás da mesa e eu em uma das cadeiras na frente. Ajeitei a minha postura, tentando tirar a primeira impressão do elevador.
Ela começou a falar sobre o que seria o emprego. Eu teria que ser baba em tempo integral. Levar para escola. Levar no parque. Brincar. Falar para tomar banho. Ela só esqueceu-se de falar, tudo o que ela como mãe deveria fazer. Pelo que entendi, ela só não assume esse papel por que tem compromissos importantes. Reuniões de empresas que sustentam essa casa? Claro que não. Só se os locais de reuniões mudaram para um SPA.
- Tem experiência ou referencias? – eu sabia que essa pergunta ia chegar a qualquer momento.
Comecei meu discurso enquanto procurava o meu currículo. O pior, eu achei. Ele tinha acabado de virar embrulho para o meu chiclete velho.
Pensa rápido.
- Me desculpe, não trouxe o meu currículo. Mas pode ter certeza que farei um ótimo trabalho. – pelo menos estava sendo sincera em relação ao trabalho.
A Sra. Gumbert, apoiou seu queixo nas mãos. Fechou os olhos, respirou fundo.
Droga, tudo por causa do chiclete.
- Olha, vou ser sincera com você. Faremos uma experiência. Não tenho muito tempo e preciso urgente de um baba. Até agora você foi a melhorzinha que apareceu por aqui. Então, venha.
Ela me levou ate o seu filho. Disse que estava estudando para poder entrar em Harvard. Achei estranho por que geralmente essas mães contratam baba para crianças, não para adolescentes.
Toc. Toc.
“Entre”- falou a voz do outro lado.
A Sra. Gumbert sorriu para mim e abriu a porta devagarzinho. Estava me sentindo em um daqueles programas de auditório.
“Lisa estava vivendo uma nova fase em sua vida. Finalmente ele conseguiu um emprego em Nova Iorque e o seu próximo passo é sair das coberturas particulares, para grandes prédios executivos. Nossa est...”
-Babá?! Está tudo bem? – cai do reality show imaginário depois de uma mão atravessar os meus olhos.
- Sim, claro. Perdão. Onde está o Peter?
Meus olhos percorreram o quarto na procura de um Peter que deveria ter entre treze e quinze anos. No entanto, eles se deparam com um menininho de certa de um metro e vinte olhando para mim de baixo para cima.
- Oh, a senhora tem outro filho?! – vou ter que repensar no salário já que são dois. Isso é bom de certo modo, salário em dobro. Abaixei-me e estendi minha mão. – Meu nome é Elisa, mas pode me chamar de Lisa. Qual é o seu nome?
- Peter.
“Dessa vez Lisa não se deu bem, ou melhor, ela nunca se da bem”.
- Ah! Claro. Ele é o Peter. – olhei para mãe dele que contemplava sua prole como uma jóia e depois olhei para joiazinha da mamãe.
- Se a senhoras me dão licença devo voltar aos meus estudos. – ele como em um movimento robótico virou e voltou para escrivaninha que estava empilhada de livros.
Fiquei boquiaberta. O menino não deveria ter mais de oito anos. Como assim estudando para entrar na faculdade? Isso é loucura.
- Aqui estão os horários do Peter, eles devem ser rigorosamente cumpridos. Venha irei mostrar o seu quarto. – ela me entregou uma pasta de coro preto e começou a andar.
Enquanto a acompanhava dei uma olhada nos horários. Era incrivelmente impossível acreditar que alguém pudesse cumprir rigorosamente aquele horário.
Ah! Claro. Na folha seguinte tem o plano B. Se contar que no rodapé diz: “horários programados para atrasos de no máximo cinco minutos”.
- Aqui esta. Não é o melhor quarto da casa, mas acredito ter tudo o que precisa. Quando poderá começar?
- A senhora tem...
- Amanhã?
- Hãm?
- Ótimo. Vou falar com o porteiro que você trará suas coisas amanhas. Aqui esta a copia da chave da cozinha. Caso você passe pelo período de experiência, darei a copia da porta principal. – enquanto ela falava me levava para a porta principal. Entregou a chave e um envelope. – Adiantamento. Obrigada, até amanha.
Tom.
É ela fechou a porta na minha cara. Ridícula essa atitude. Amanhã nem vou aparecer.
Plim.
A porta abriu.
Se vou deixar ela na mão, pelo menos vou ser honesta e devolver o dinheiro. Mas quanto será esse adiantamento?
- Oh m-e-u – d-e-u-s!

No dia seguinte lá estava eu e minhas malas naquele térreo imponentemente branco. E cada dia que eu passava por aquele mármore italiano mais ele perdia o seu encanto. O dourado perdia o seu brilho. E cada vez mais conhecia o Peter.
Como poderia defini-lo uma criança rica jogos de vídeo game, brinquedos de ultima geração, mas que nunca tinha tempo para aproveitá-los. Pobre definitivamente em afeto dos pais.
Em dois meses trabalho para aquela família. Vi duas vezes o seu pai. A mãe passou três semanas em um SPA, sem se quer ligar para saber do filho. E o Peter absorto no seu mundinho onde o amor fica do lado de fora.
Mas amanha vai ser diferente.
“Oito horas da manhã, vinte e cinco graus em Nova Iorque. Um excelente tempo para praticas ao ar livre. Isso, meu caro ouvinte. Saia. Viva. Tente não sufocar com a poeira na All...”
Hora de levantar.
- PETER! – só gritei porque a mãe dele tinha ido viajar. É de novo.
O coitado não entendeu muito bem.
- Vamos, vamos. Temos que sair logo daqui. – o ajudei com a bota de chuva e saímos em disparada com pijama mesmo.
- O que esta acontecendo? – ele perguntou com uma carinha de medo.
- Você verá. - já estávamos no elevador.
Quando a porta se abriu, puxei-o e sai em disparada. Quando chegamos à rua, parei.
- O que foi? – perguntou o Peter.
Por incrível que pareça a cidade estava fazia. Era feriado e boa parte dos empresários e pessoas que moravam naquela região foram viajar. Carros e pessoas? Claro que tinham, mas numa proporção muito menor. E apesar de estarmos no meio da cidade de Nova Iorque, os pássaros compunham nossa trilha sonora.
- Baba! – senti um puxão no meu braço. Olhei para o Peter. – O que estamos fazendo de pijama na rua? – ele falou bem baixinho entre os dentes.
- Apreciando o dia maravilhoso que esta fazendo hoje.
- As pessoas estão olhando.
- E daí?
Ele ficou sem resposta.
- Vamos tomar sorvete? – perguntei para ele.
Foi assim que o nosso dia começou. E os outros dias passaram a ser. A escola não deixou de ser prioridade, mas também não era uma obsessão. Pela primeira vez via o Peter sorrir e se divertir.
Só que minha temporada como baba estava acabando. E não podia deixar o Peter sem resolver um problema, os seus pais. Não eu tivesse obrigação disso, mas queria fazer isso pelo Peter.
Achei o dia das mães uma data propicia para isso. O pai eu já vi dada ia adiantar, mas a mãe só faltava abrir um pouco mais os olhos, porque o coração eu tinha certeza que estava ali.
A mãe dele ia chegar hoje da Califórnia, depois de uma semana. Ela estava planejando levar o Peter para um jantar especial da alta sociedade. Mas os meus planos e os de Peter iram mudar não só a idéia de dia das mães dela, mas ela também.
Eu e Peter ficamos quietos apenas esperando o “PLIM” do elevador e o destrancar da porta.
- SUPRESA!
A porta se abriu e jogamos balões e confetes para o alto.
- O que esta acontecendo? – a Sra. Gumbert ficou espantada. Surpresas na vida dela? Acho que apenas as já programadas.
Dei um leve empurram no Peter para ele tomar a frente.
-Mãe – ele começou a ler o papelzinho que estava em sua mão – eu sei que hoje é um dia muito especial. Hoje eu gostaria de agradecer por tudo que a senhora me dá, mas se eu pudesse trocar, daria tudo que eu tenho por você. Você é a melhor mãe do mundo.
As últimas palavras de Peter encerraram a minha missão. Lágrimas foram derramadas por aquela, antes, estátua de pedra que rondava a casa. Como se a fada azul do Pinóquio não fosse nada, mesmo com a sua magia, comparada as palavras daquele menino.

“Lisa finalmente descobriu que a vida é muito mais que arranhásseis pela All Street. Sua vida seria marcada por diversas experiências. No entanto, aquela em que sem poderes mágicos tornou vivo o coração de um estatua, seria inesquecível”.
Arrumei minhas coisas. Despedi-me dolorosamente de Peter. Ouvi agradecimentos da Sra. Gumbert. Estava me despedindo daquele elevador e, logo, da portaria imponente. Quem sabe eu não torne ser babá um estilo de vida...
3, 2, 1, térreo.
Plim.
Sobre ser baba, acho que não.
- Bom dia! – aqueles olhos verdes atacaram novamente.
Quem sabe cuidar de lindos pares de olhos verdes mini, misturados com o preto das minhas madeixas e que me chamassem de mamãe.

Ni
(dani novaes)

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Flor de Maio




Pracinha – Segundo domingo de Maio, 10:00.
Passa uma bola de futebol branca com bolinhas azuis. Em seguida, uma criança correndo atrás. Um menino de cabelos negros na cara, vestido como um verdadeiro jogador. Mais atrás ainda, uma moça com cara abatida vestida com roupa de ginástica e com cabelos presos por um rabo de cavalo corre em direção à criança. Eu estava sentada e observava a cena. Bateu um aperto no coração, isso me lembrava velhos tempos.
Há mais ou menos um ano sai de casa brigada com minha mãe. Não suportava mais o clima daquela casa. Tudo começou com coisas simples do tipo proibições às minhas saídas com os amigos, depois as horas que eu passava no computador, entre outras pequenas broncas chegando ao ponto dessas discussões serem terríveis, daquelas em que não olhávamos uma pra cara da outra. Um belo dia, cansada dessa tensão e necessitando de espaço, arrumei minhas coisas, peguei meu cartão e mais alguns trocados meus e saí porta à fora, sem rumo, pelas ruas. Claro que eu não dormi ao lado de mendigos, recorri aos amigos, mas pra ela não me achar costumava não ficar por muito tempo na casa de um amigo. Lógico que combinava com eles antes, afinal, os pais deles não me deixariam ficar se soubessem que eu estava ali fugida. Sempre ligava para meus irmãos pra dizer que tudo ia bem, e que estava segura. Não contava a eles onde eu estaria porque sabia que eles não resistiriam às pressões de minha mãe e acabariam contando, eu sabia que indiretamente acabavam transmitindo a informação à ela.
Fiquei alguns meses nesse vai e vem entre casas. Arrumei um emprego simples de garçonete e já tinha largado há algum tempo a escola. Com meu salário ajudava nas despesas das famílias onde me acolhiam, mas sempre guardando um pouco na minha conta. Quando eu senti que dava pra ir arranjar lugar numa pensãozinha ou num albergue parei de recorrer direto aos meus conhecidos. Era um quartinho bem barato, só mais pra dormir mesmo.
Continuava minha rotina normalmente. Sentia- me sozinha por várias vezes, estava acostumada com a agitação da minha casa. Com meus irmãos saindo correndo pelos cômodos e corredores e minha mãe, conseqüentemente, os caçando e tentando ameniza os possíveis estragos. As lembranças eram algo freqüente. Mesmo eu tentando afastá-las era difícil não pensar “o quê eu estaria fazendo se estivesse em casa? E meus irmãos, meu pai, minha mãe...?”. Sabia que não seria saudável pensar neles, mas eles apareciam em meus sonhos noite sim, noite não. Isso começou a me fazer sentir mal. Tentava manter mente e corpo ocupado.
Por ironia do destino, as minhas tão problemáticas saidinhas diminuíram, eu deveria pegar cedo no trabalho e não queria chegar com cara de cansada, ainda mais sendo novata. Diversão só nos finais de semana. Numa dessas nights eu conheci um garoto lindo,fofo, romântico, engraçado, enfim... maravilhoso, o Bruno. Ele é moreno de praia, em cabelos castanhos e olhos numa cor bem diferente, algo entre o mel e o verde, é complicado definir. Ele inclusive já fugiu de casa, mas disse que acabou voltando. Não quis me contar quais foram os motivos que o fizera a sair e a voltar pra junto dos pais dele, respeitei totalmente. Mas alguns momentos ele tentava me convencer a voltar também, eu simplesmente ignorava e tentava curtir o máximo a presença dele, já que só nos víamos no final de semana( tanto eu quanto ele trabalhávamos muito, eu, pelo menos, fazia isso pra receber as horas extras).
Meu aniversário tinha chegado. Recebi presente dos meus amigos, do Bruno e incrivelmente dos meus irmãos. O deles foi o que me fez chorar mais, vinha acompanhado do pacote um envelope. Ao abrí-lo encontrei um desenho meu e um cartão. Nele dizia que estava morrendo de saudades e que até hoje mamãe não tinha se acostumado com a minha falta, não que eu não sentisse de vez em quando, nem que eu não sabia que seria assim durante esse período. Apesar da plena consciência, meu estomago deu um nó e meu coração baita acelerado. Dois filetes de lágrimas saíam dos meus olhos. Ainda bem que estava sozinha, não queria que meu namorado começasse a tentar me convencer a voltar pela 4.567.568ª vez.
Num belo domingo de sol, Bruno e eu decidimos ir a praia. Enfrentamos todos os percalços possíveis para um domingo de sol no Rio, desde ônibus à areia lotados. Após encontrarmos um buraquinho no meio da multidão armamos nossa barraca, entrei logo no mar, sentia falta de passar pelas ondas e deixar a espuma bater em mim. Voltei ao nosso pequeno espaço de areia, estiquei a canga pra me deitar e secar ao sol (ok pra pegar uma corzinha e tirar minha cara de pálida também).
-Amor, vou cair na água. Toma conta direitinho das nossas coisas, hein?
-Claro que vou tomar conta, né Bruno?- daí ele se afasta e eu volta a fechar os olhos e a torrar no sol.
Alguns minutos ouço crianças gritando e correndo na areia, a primeira coisa que penso é “que legal, pirralhos que ficam soltos por aí armando confusões e pertubando banhistas que só querem um lugar ao sol”. Ainda com meus olhos fechados sinto uma grande quantidade de areia ser lançada pra cima de mim. Levanto imediatamente e procuro pelo engraçadinho vejo dois menininhos fugindo. Eu grito:
-Heeiii.. vocês seus pestes sua mãe não deu educação, não?- Eles pararam e olharam para trás.
Mas espere, eu reconheço aquelas sungas infantis. Eu que tinha escolhido para meus irmãos quando a família tinha viajado junta pras praias do sul. Eles se viraram e olharam chocados pra mim, pelo menos eu acho que estavam (é que eu tava sem minhas lentes e meus óculos estavam muito bem guardados na mochila, não iria pegá-los).
-Déb!! É você??!-estava certo esse era o Alexandre
-Claro que é seu idiota não tá vendo, cegueta? -tipo comportamento carinhoso de Caio.
-Caio, Ale!!! - E saio correndo pra falar com eles.- Meu Deus!! Como vocês cresceram nesse tempo que fiquei fora, hein?
-Credo Débora, tá parecendo a tia Amélia falando! -disse Caio.
-Humm.. Acho que entendo os motivos dela agora -eu não tirava o sorriso do rosto.
Lembrei-me de que tinha deixado as coisas pra trás. Voltei com a intenção de que o Bruno não tivesse chegado. Pro meu azar ele já estava sentado na cadeira e estava com uma cara de preocupação olhando pra todos os lados. Até que ele me viu.
-DÉBORAAA!!! ONDE VC TAVA?? PENSEI QUE TINHAM TE LEVADO EMBORA, SEQUESTRADA, SEI LÁ!!
-Desculpa amor... mas antes tenho que te apresentar- empurrei meus irmãos pra frente e continuei- Bruno, esses são Caio e Alexandre, meus pestinhas preferidos.
-Epaa.. pestinhas não Débora.
-Desculpem me meus educadíssimos irmãos.
E ae, caras? Tudo beleza? -continuou Bruno.
Ao fundo alguém desesperado grita:
-CAIOOO... ALEEE....ONDE ESTÃO VOCÊS?? ALEXANDREEE.... CAIOOOO...APARECESSAM MENINOS!! CAIOOO...
-Ihh.. é a mamãe. -disse Ale.
Bateu aquele nervosinho seria a primeira vez que encontraria minha mãe desde aquele dia o qual fugi.
-Bora Caio!! Vamos antes que a mamãe tenha um ataque.
-Tá bom..certinho...Mas eu não vejo a mamãe, você consegue?
-Ahh.. a gente segue a voz dela, ué?
-Não mesmo. –intervi- não quero que vocês se percam no caminho. Eu levo vocês até lá. Bruno, me espere que eu já volto. E ahh.. tome conta das nossas coisas, hein?- Dei aquele sorrisinho sarcástico.
-Fazer o quê...-falou ele revirando os olhos(aii.. ele é um fofo.)
E lá fomos nós. Parecia uma corrida de obstáculos, desviava a cabeça das barracas na parte de cima e tomava cuidado para não pisar nas cangas ou nos castelinhos de areia. Eu podia ouvir a voz de minha mãe gritando pelos meus irmãos ainda, eu estava fazendo exatamente o que o Ale tinha sugerido ao Caio, estava seguindo o som de desespero de minha mãe.
Finalmente a avistei. Estava usando seu típico maiô azul-piscina, os cabelos estavam presos, mas eu diria que ela mudou a cor deles de novo. Usava seus óculos Ray-Ban, que tinha comprado da última vez que foi aos EUA. Creio eu que ela também me viu, pois parou de chamar pelo meninos de uma maneira repentina. Pelo visto as crianças também perceberam e saíram correndo pra abraçar a mamãe. Falaram uníssonos:
-Mãe!!!
-Onde vocês estavam, crianças? Eu quase morri de preocupação! –Flou ela.
-A gente tava brincando na areia, sem querer acabamos ficando um pouco longe da barraca...
-Bem, deixa eu ligar pro pai de vocês ele foi ao posto ver se alguém tinha visto vocês e mandar procurá-los.- Ela pega o telefone e disca os números freneticamente.-Alô, Pedro? Sou eu. Eles já chegaram, pode voltar. Quando você voltar eu explico, beijos e tchau.
Eu já ia dando meia volta, erroneamente achei que não iria dirigir a palavra a mim. Mas foi só eu dar o primeiro passo que:
- Eii, mocinha. Onde você pensa que vai sem nem dar umas explicações? Primeiro, como você foge de casa e não liga pra mim nem pra pedir desculpas ou mesmo atender minha ligações?
-Bem, caso a senhora não tenha percebido, eu não estava a fim de papo, eu não queria ouvir a senhora berrando no meu ouvido. E notícias eu dava através deles – olhei em direção aos meus irmãos- Eu sei muito bem que eles contavam tudo pra você.
-Contavam, mas isso pra mim não é o suficiente, eu sou mãe, né?. Conte- me, então. Onde você está morando? Você não se envolveu com nada ilícito, se envolveu? O quê em feito da sua vida? Como..
- Opa, opa,opa.. quantas perguntas!! Vou respondendo uma de cada vez, está bem?- interrompi o discurso dela- Primeiro, estou morando num albergue...
- Albergue!!! – foi a vez dela me interromper.
-É mãe... Um albergue, lá as pessoas são simpáticas e direitas, mas
eu não fico o tempo todo lá, até porque albergue é só para alguns dias. Eu às vezes fico com o Bruno, nas casa dele...
-Bruno? Quem é Bruno?
-É o namorado da Déb, mãe. Ele parece ser um cara maneirão!! –disse o Caio lá debaixo da barraca.
-Namorado?! Foi só sair de casa pra começar a se perder livremente, né?
-O que?? Eu não estou me perdendo, eu levo tudo bem a sério, viu? To trabalhando duro pra juntar dinheiro e não ficar dependendo de ninguém. –tentei controlar meu tom de voz, afinal, não queria que minha vida partivular fosse exposta na praia.
-Trabalhando? Em que posso saber?
-Não que seja da sua conta agora, mas sim eu estou trabalhando. Sou garçonete numa lanchonete aqui na zona sul. Vive lotada e ganho muitas gorjetas.
-Claro que isso é da minha conta, você ainda é minha filha e você pode ter feito dezoito anos, mas a maioridade pra muitas coisas não é dezoito, não! É vinte e um!!
-Mas a senhora não pode reclamar, eu estou ganhando minha vida honestamente.
Nesse momento chega meu pai. O senhor Pedro não havia mudado nada, ainda usando aqueles óculos redondos e cabeça grisalha. Estava morrendo de saudades dele,da minha mãe também, mas mantive meu orgulho e não demostrei isso a ela. Fui abraçá- lo.
-Débiiii!! Minha querida!! Como você faz uma coisa dessas com nossa família!! Sua menina danada...
-Ahh.. pai.. Eu apenas não agüentei mais ficar naquela casa. Eu tive que sair.
-mas você está bem, querida? Como anda sua vida? Tem se virado por aí?
-Eiitaa pai, pegou a mania da mamãe? Eu jáá respondi tudo isso a ela, eu adoraria falr mais com o senhor, mas meu namorado Bruno está me esperando e deve estar meio preocupado.
-Bruno? Que Bruno?
-O namorado dela, Pedro. – minha mãe falou antes de mim e com aquele tom de nojinho.
-Bem já que você já sabe de tudo, mãe, tenho que ir. Beijos pra todos e fui!
-Mas espera menina!!
Já tinha ido embora. Voltando a barraca, meu gatinho tava sentado na cadeira embaixo da barraca, lendo o jornal.
-Oi amor!
-Nossa Déb!! Você demorou, pensei que ou você tivesse se perdido ou se atracou com sua mãe.
-Muito engraçado, você... Mas eu realmente agi de uma maneira um tanto ...curta e grossa com ela.- Ouvindo minhas palavras saindo senti o quão desnaturada que eu sou. O remorso bateu.
-Eiii.. amor.. tudo bem? Acho q ue já torrou demais sua cabecinha que tal voltarmos agora?
-É acho melhor mesmo.
Pegamos nossas coisas e saímos da praia. Ainda bem que, pela hora, o ônibus estava menos cheio (ainda era cedo pra saída do pessoal da praia). Chegando no casa do Bruno, tomei um banho longo, e todo o encontro na praia ficou na minha cabeça. Remoía os sentimentos isso estava me deixando angustiada. Depois de limpa fiz um lanchinho e tentei descansar um pouco, acho que realmente havia tomado muito sol. Tentei dormir, mas o sono não chegava, mesmo com a sensação de peso na cabeça eu me revirava de um lado ao outro na cama. Só consegui pegar no sono depois de tomar um remédio pra dor.
A semana passou do mesmo jeito de sempre, porém o domingo na praia foi extremamente marcante. Volta e meia eu me pegava pensando no diálogo que tivemos. Era horrível pensar que eu tinha largado minha família pra viver a vida perigosamente. Não que eu esteja reclamando da maneira que eu vivo agora, mas às vezes eu acho que não fiz a coisa certa.
Recebi no meio da semana eu telefonema dos meus irmãos. Na verdade, quem estava ligando usando o telefone deles (sim, são crianças de oito anos mas tem um celular ¬¬)era minha mãe:
-Antes que você desligue, aviso que o assunto é sério.-ela continuou pra que eu não tivesse chance de protestar- seu avô não está nada bem, estamos indo pra fazenda agora mesmo. Liguei só pra avisar. Tchau.
-NÃOOO! Espera um minuto. Eu..eu..eu vou com vocês! Eu vou praí em 20 minutos.
Joguei o telefone no sofá e saí correndo para arrumar as malas. Como era a fazenda do vovô eu sabia que teria algumas coisas por lá. Levei só o essencial. Deixei um recado na caixa-postal do Bruno e um bilhete em cima da mesa, caso ele não tivesse escutado o recado do celular. No caminho passei no restaurante e expliquei ao meu chefe a situação, eu já havia feito muitas horas extras e ele estava contente com meu trabalho, então fui tranqüila.
Chegando à porta da minha antiga casa, o momento nostalgia bateu em mim. Relembrei vários acontecimentos que havia passado lá. Tomei um pouco de coragem e toquei a campainha, não queria usar minha chave que eu ainda guardava no meu chaveiro de estrela de pelúcia. Abri um largo sorriso ao ver quem havia atendido. Era Nana, a empregada, ela trabalha há anos ali e não cansava de repetir que veio trabalhar naquela casa quando minha mãe ainda era apenas uma criança. Fui entrando e dando um abraço bem apertado nela. Era impressionante como nada saiu do lugar, tudo estava exatamente igual ao dia em que eu saí. Ela me avisou que todos estavam no carro e que colocavam as últimas malas. Desci correndo até a garagem e encontro a família toda reunida. Minha mãe, que estava dando um baita bronca calou-se, meus irmãs, no entanto, continuavam a se debater já sentados no banco de trás. Aproximei –me do porta-malas e encaixei minha bolsa onde dava, era uma tarefa difícil, já que parecia que estavam levando as roupas de todos os armários. Entrei no carro, não demorou muito e partimos.
Durante todo o percurso não se ouvi um diálogo, a não ser os esporros habituais que os meninos levavam, nem senti tanto, pois meu ipod ficou constantemente ligado. A fazenda não ficava muito longe, duas horas foi o tempo que levou. Outro lugar que simplesmente não sofrer com a ação do tempo é aquela fazenda. Meu Deus!
Se eu pegasse a fotografia de quando eu tinha a idade de meus irmãos e comparasse agora, veríamos a semelhança, nem daria pra brincar de Jogo dos Sete Erros.
Ninguém quis descarregar as malas assim que chegou, fomos todos diretos pro quarto do vovô, passando antes pela sala. A sala, com piso de tábua corrida, estava bem mais desgastado, essa era a única diferença gritante do ambiente. As tapeçarias continuavam com o ar empoeirado, a cristaleira sempre trancada e com as taças refletindo o brilho que batia do sol, os arranjos sempre no mesmo lugar. A vontade de parar no tempo estava forte agora, queria jogar tudo pro alto e morar aqui, eu sei que é loucura, já joguei tudo pelo ares esse ano, agora preciso me conter. Minha mente voltou ao seu devido lugar e continuei meu caminho até o quarto.
Entrei no quarto tudo escuro, podia ouvir um sussurrar dentro do cômodo. Fui chegando mais perto e vi uma mexida leve na boca dele, parecia um risinho, de felicidade? Talvez. Quando parei ao lado de minha mãe (um ato impensado, não tinha percebido que era ela)meu vô falou:
-Minha Nossa Senhora! Eu nunca tinha reparado como você são tão parecidas! Você minha filha, é a sua mãe cuspida e esgarrada.- ele dá uma pausa.- Uma menina muito à frente do tempo, com idéias muito malucas, todos falavam dela por aí. Ela deu um trabalho...
Mal pude acreditar, minha mãe uma rebelde falada na cidadezinha perto da fazenda? Juraria que ela era uma das carolas da pracinha, que só sabia ir à igreja e tal.
-Não fale muito, papai. Assim o senhor vai se cansar - como ela consegue interromper até meus pensamentos? Muito estranho, acho que ela de vê ter poderes paranormais.
Meu vô sentia muita falta da vó que já tinha ido há uns dois anos. De lá pra cá, ele ficava bastante abatido, tentamos diversas vezes colocá-lo num apartamento pertinho da gente na cidade, mas ele sempre recusa a proposta. Passamos todo o final de semana na fazenda e ficou decido que, querendo ou não, meu avô ia com a gente pra cidade e ficaria acompanhado da mamãe. Voltamos todos: eu, papai, mamãe, Caio, Ale e o vovô. Sorte que nosso caro era grande(quase uma mini-van) e eu mais o Caio fomos nos banquinhos reservas de trás.
Outras duas horas perdidas na volta, mas dessa vez mamãe não quis dar esporros nos meninos, já que eles estavam separados e meu avô estava conosco no carro. Tirando esses dois detalhes a volta foi igualmente quieta. Chegando de volta a casa da família, ajudei meu avô a se acomodar no quarto. Fiz umas horinhas cozinha conversando com a Nana na cozinha. O papo que surgiu foi o de sempre:
-Por que diabos você saiu de casa minha filha??
-Ahhh Nana, eu não agüentava mais as discussões com a mamãe. Era muito cansativo eu falar as mesmas coisas e ela não me dar chance de falar.
-Minha querida posso ser sincera?
-Claro!
-Sua mãe é muito compreensiva pro meu gosto. Quando ela tinha mais ou menos a sua idade ela aprontava tanto quanto você...
-É fiquei sabendo de algo, meu avô comentou que quando ela morava na cidadezinha da fazenda ela era muito falada na cidade.
-Mas ele te contou o porquê? – Balancei a cabeça negativamente, então ela continuou.- Sua mãe também fugiu de casa, mas por se tratar de uma cidade pequena ela não teve a mesma chance que você de ficar tanto tempo longe dos pais. A cidade inteira sabia onde ela se escondia. Foi por isso que sua vó trouxe sua mãe pra mora junto com ela na cidade grande, mas não antes de apanhar um pouco, não no sentido literal, porque seus avós nunca levantavam um dedo pra ela,mas a pressão psicológica que sua vó a fez passar eu não sei se existiria alguém tão forte capaz de agüentar como ela.
Não consegui falar mais nada, eu não acreditava. Alias, eu não conseguia enxergar aquilo, eram duas imagens completamente opostas. Saí um pouco atordoada, sabia que tirando a Nana e meu avô ninguém estava em casa,pois tinham ido acertar resolver alguns assuntos que tornaria a estadia do vovô melhor. Aproveitei e meti o pé, me despedindo deles antes, óbvio. Andei sem rumo por aí. Caí na pracinha perto de casa. É esse o momento cujo menino de cabelos pretos, dono da bola de futebol sai correndo com a mãe atrás.
Essa cena ficou sendo remoída por minha cabeça várias e várias vezes. Junto a elas outras da minha infância se juntavam. Chegou num ápice em que eu me dei conta, não há mais ninguém além da minha família que me ama tanto que me conhece tanto. Sempre foi minha mãe que me socorria quando eu pedia ajuda, ela que afagava meus cabelos quando eu estava chateada, que enxugava minhas lágrimas quando caía em prantos. Sempre ela minha mãe. Olhei no relógio pra saber que horas eram, pois uma senhorinha interrompia meus pensamentos. Dei- me conta de que o Dia das Mães era hoje e não tinha comprado nada pra minha mãe. Saí correndo, pelo caminho passei por uma floricultura. Bem na porta, enfeitada e já toda florida, tinha uma flor de maio. Das minhas recordações infantis me lembrei que essa era uma das flores preferidas da mamãe porque ela só floresce em maio, o mês das mães. Comprei uma e mandei entregar , aproveitei e escrevi um cartão junto:
Para alguém que, agora eu sei que me compreende mais do que nunca. Para uma ex-adolescente rebelde que sabe como às vezes é irritante estar passando por essa fase hormônios a mil.
Te Amo, mamãe!! Você é meu espelho!! Muitos beijoss!!!



Dani C.

"The Girl's Best Friend"

Presságio.


- AH MÃE, VOCÊ É UM SACO!
A porta do meu quarto faz um barulho estrondoso quando bate, o que ainda me deixa mais irritada. Deito-me na cama, urrando de raiva por dentro.
Quem ela pensa que é?
Se nem a minha própria mãe confia em mim, quem confiará? Odeio que ela sempre vá atrás do que as outras pessoas dizem e tome tudo como verdade, enquanto duvida de tudo, absolutamente tudo, que eu digo.
E a mania que ela tem de se fazer de coitadinha toda vez que discutimos. Odeio também o fato dela não calar a boca depois de uma discussão e ficar querendo aguçar mais e mais gritos.
Ou quando ela diz que eu devia ser igual a pessoa X, ou pessoa Y, porque elas são inteligentes, bonitas e tem namorados que serão ricos no futuro.
E eu tenho um namorado que está tentando passar na faculdade pela segunda vez, que tem o cabelo meio pintado de azul e um brinco enorme na orelha.
Namorado que ela odeia demais, diga-se de passagem. O que só me faz gostar mais e mais dele. Mesmo que ainda faltem 11 meses para que eu faça 18 anos e ele alguns muitos meses também para ele fazer 19, sei que nosso amor é forte. E passa por tudo.
Tateio por meu rádio e dou play no meu CD favorito. AC/DC me diz o que eu já sei.
It’s all screwed up.
All screwed up.

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- Gina, bom dia. – alguém passa a mão por minha cabeça, mas eu não reconheço a voz de imediato.
Então forço meus olhos a se abrirem.
O que faz com que eu pule metros e metros, gritando loucamente.
Porque além de não reconhecer o quarto onde estou - com as paredes muito brancas, repletas de armários e uma cama digna de uma rainha no meio - eu também não reconheço o cara relativamente VELHO que está deitado nessa cama.
Vestindo só uma boxer branca!!!!!!
- O que houve? – ele pergunta confuso sentando-se na cama, fazendo gestos de silencio para mim. – Vai acordar Bernardo!
Bernardo? QUEM É BERNARDO?
QUEM É VOCÊ?
ONDE EU ESTOU?
AH CÉUS, QUEM SOU EU?
- Alicia voltou super tarde ontem a noite novamente. – ele continua me dizendo, sem reparar na minha expressão de horror e confusão total. – O que vamos fazer com essa garota?
SEI LÁ! EU SEI LÁ QUEM É ALICIA!
Então, ouve-se um lamurio infantil, seguido por um choro tão potente que se mostra capaz de destruir um prédio... e meus tímpanos.
- Ah não, ele já acordou. – o cara diz, esfregando os olhos. – Eu vou vê-lo, enquanto isso você vai tomar um banho ou algo assim.. está com uma cara muito estranha.
Então ele se aproxima e eu em resposta praticamente escalo o armário. Ele mexe em meus cabelos e beija minha testa.
- O que aconteceu, meu amor? – pergunta ainda, encarando-se com aqueles olhos de tom tão escuro.
Que eu ainda demoro um bom tempo para reconhecer, mas quando os dedos compridos dele passam por minha bochecha e eu perco parcialmente o ar, eu descubro de quem se trata.
- Vitor?
- Hum, é. - A pessoa a centímetros de mim responde, franze a testa, como se procurando entender qual é o meu problema.
Passa a mão nos cabelos, castanhos repletos de pontadas brancas, quando o choro infantil fica ainda mais alto. Então ele bufa, andando em direção a porta, não antes de meter uma camisa comprida e me encarar como se eu fosse louca.
No quarto vazio, de coração acelerado e mente confusa, enxergo meu reflexo num largo espelho, numa das portas do armário.
Grito de novo.
- Pelo amor de Deus, Regina! – a voz do suposto Vitor chega até mim, enquanto eu corro na direção do espelho.
Tenho vontade de gritar de novo, mais alto. Porque nada disso faz sentido, nem um pouco de sentido!
Porque o reflexo no espelho não pode ser meu. Simplesmente não pode! Não pode porque eu não tenho essa camisola curtinha, e nem essas pernas grossas. Meu peito não é nem de longe desse tamanho. Mas é totalmente impossível que seja meu reflexo, porque eu não tenho esse rosto.
Apesar de reconhecer as feições, eu não reconheço as minhas rugas e marcas da idade! Um rosto senil demais, comparado ao meu verdadeiro, de dezessete anos.
ESTOU PARECENDO A MINHA MÃE!
- Mãe, dá pra você parar de babaquice? – uma garota está parada na porta do meu quarto, dizendo toda séria.
Ela está com a cara amassada, maquiagem borrada e cabelo juba. Aquela cara de quem acabou de voltar da night.
E ELA SE PARECE ABSURDAMENTE COM O EU-REAL!
E ELA ME CHAMOU DE MÃE!
Não sei o que responder, não sei o que pensar!
MEU DEUS, O QUE É TUDO ISSO?
Ela me manda a mesma cara de confusão que Vitor (???) me mandou anteriormente, seguida por uma revirada de olhos dramática. Em seguida, ela sai do quarto, batendo pé pelo corredor, até que se ouve um estrondoso barulho de porta e uma música muito alta começa a tocar.
Onde foi que eu já vi isso antes?
- Alicia, pelo amor de Deus! – o cara-da-cama grita de novo. – Estou tentando ninar seu irmão!
Mas o som não abaixa.
Abro as portas dos armários, me deparando com um mundo de cores e formatos. Uma coisa mais linda que a outra! Todavia, eu não faço idéia de onde vieram. Puxo qualquer uma e me livro da incomoda e pequena camisola.
Encontro o suposto Vitor – depois de andar por todo corredor cheio de portas, inclusive uma toda cor de rosa, de onde vem o som alto - com um bebê no colo em um quarto com decoração de estrelas e um berço com mosqueteiro de astronautas.
Olho a criança por cima dos ombros largos do homem que a segura e com os olhos bem abertos, ele me vê e dá um sorriso desdentado.
- Own! – suspiro.
Vitor gira o rosto, e nosso narizes se esbarram. A centímetros de meu rosto, ele murmura:
- Ele tem seus olhos. – e embala-o nos braços. – Mas o formato de rosto é meu.
Então as coisas vão ficando mais claras. Ou o mais claras que elas podem ficar numa situação dessa. Esse cara, grande e grisalho, tem os olhos do meu primeiro namorado e um anel dourado no dedo anelar da mão esquerda, igualzinho ao que eu mesma tenho. E o bebê no colo dele tem meus olhos, enquanto a garota mal educada tem meu rosto de dezessete anos.
FAMÍLIA!
Ó CÉUS! Isso aqui é minha FAMÍLIA!
ALÍCIA E BERNARDO!
Os nomes que eu sempre disse que meus filhos iam ter um dia!
OLHOS PRETOS DO MEU MARIDO!
Olhos pretos de Vitor! Meu primeiro namorado, o que eu namorava desde os 15, e aquele cara que minha mãe totalmente odiava, mesmo dois anos depois!
COMO AS COISAS TERMINARAM ASSIM?
Eu, casada com Vitor! Com uma filha de no mínimo quinze anos e outro de menos de um!
AH MEU DEUS, QUANTOS ANOS EU TENHO?
ONDE FOI PARAR A MINHA VIDA?
- Vamos tentar acertar com ele. – Vitor diz, desviando os olhos de mim e mandando um olhar amistoso para o pequeno ser em seus braços. – Éramos jovens demais para acertar com Alicia.
- Éramos?
Ele põe Bernardo (!!!!) adormecido no berço e me encara. Lenta e digo até, apaixonadamente.
- Gina, eu sei que você se sente culpada por isso tudo, mas você não tinha nem dezoito anos quando aconteceu! Eu mesmo tinha acabado de fazer dezenove! Não tínhamos maturidade para criar um filho! – ele passa as costas da mão sobre meu rosto, numa tentativa de me acalmar muito freqüente de um Vitor jovem. – Muito menos sem a ajuda de nossas mães.
E se eu já estava em choque antes, pioro depois dessa última constatação.
- Ai caramba, porque elas não ajudaram, não é mesmo?
Fiz um pequeno teatro para fingir tristeza, quando estava é curiosa.
- Sua mãe nunca foi minha fã, você sabe disso. – ele passa a mão por meus braços descobertos. – Não suportou nossa decisão de nos casarmos e termos a criança sozinhos. Achou que você perderia a vida. Mas você não perdeu, não é verdade? Está certo, você nunca teve a chance de fazer uma faculdade, mas você mesma disse que nunca quis fazer uma.
Ah meu Deus!
- E eu sou uma babaca que vive as suas custas! – me repreendo em voz alta.
- Não, claro que não! – ele se apressa em dizer. – Quando minha mãe morreu, pouco antes de Alicia nascer e eu fiquei com a herança toda, em momento nenhum você aceitou viver do meu dinheiro! Por mais que eu te oferecesse! O que aconteceu com você hoje?
- Eu não sei. – respondo pausadamente, encarando firme dentro daqueles olhos breu.
Apesar de não entender muita coisa, meu coração parece ver coisas onde não vejo. Um carinho estranho por Vitor, um jorro de amor pela criança no berço e uma frustração extrema pela música alta que vem do quarto de porta cor de rosa.
- Vou falar com Alicia. – me vejo dizer.
- Vou tomar banho. – Vitor concorda. – Fique de olho em qualquer choramingo de Bernardo.
Mas nenhum de nós arreda pé. Ele continua me olhando, com um sorriso torto exatamente igual ao que o jovem Vitor sempre fazia. Do nada, me puxa para um abraço forte, que me dá vontade de chorar.
- Eu te amo. – é o que ele diz. – Podemos passar por qualquer coisa juntos, o tempo já provou isso.
- Eu também. – acabo respondendo.
E não só porque é o certo a se dizer. Porque uma parte de mim tem certeza de que isso é verdade, por mais irreal que pareça.
Tem vezes que a gente trabalha no automático. Só nossa mente em funcionamento, focada em uma coisa especifica, esquecendo de todas as ramificações.
Mas tem vezes que só quem trabalha é o coração. Ele toma controle de todo pedaço de seu ser, amordaça seus pensamentos e te deixa só. Sem chão, sem eira nem beira, só com a força incrível que ele tem.
É por isso que me vejo andando na direção do quarto rosa barulhento, para falar com uma FILHA que, psicologicamente, não tem mais que a minha idade.
E não ache que eu estou me acostumando com isso, porque não é verdade. Mesmo.
Bato à porta por educação.
- VAI EMBORA!
Então meto a mão na maçaneta e forço a porta com meu corpo.
- Mãe, SAI DAQUI! – ela grita de novo, sobre os gritos de alguma cantora totalmente desconhecida por mim.
O que é novidade, mas surpresa! O tempo passou!
- Alicia, eu só quero conversar com você.
O que não é alguma coisa inteligente de se dizer, mas você quer o que? Eu só tenho dezessete anos! Ou não. Ah caramba, sei lá.
Sinto-me como a tímida da escola, na presença da popular. Na presença da popular piranha.
E, a popular piranha é – mesmo que eu não consiga entender como.onde.ou.porque – MINHA FILHA.
Isso me deixa meio agoniada. Porque alguma coisa no meu intimo me diz que eu sei onde ela vai acabar. Talvez seja intuição de mãe, ou sei lá como chamam. Mas alguma coisa me diz que ela vai acabar onde EU acabei.
Eu, que também era a popular piranha e certo dia acordei casada e mãe.
E, apesar de não saber exatamente o que aconteceu entre meus dezessete anos e meus trinta e tantos, eu tenho certeza de que Alicia vai pro mesmo caminho se eu não tentar fazer alguma coisa.
Não digo que ela vai dormir com 17 e acordar com 30 e tantos como eu, mas ela pode dormir normal e acordar grávida.
E depois disso é um passo para chegar aonde a mãe dela chegou.
- Poupe sua saliva. – ela diz. – Eu já sei o que você vai dizer “não dá mais pra ficar assim, Alicia”, “você está perdida na vida! Já sabe o que vai querer fazer na faculdade?”
Ela faz uma cara de desgosto completo.
- Eu nem quero fazer facul...
- CALA A BOCA! – eu grito interrompendo. – Você não sabe o que está dizendo.
- Eu sei sim! Eu já tenho 16 anos na cara, to sabendo muito bem o que eu quero da vida! – ela grita de volta. – E não é a porra de uma faculdade!
- Não jogue sua vida fora! – eu baixo o tom de novo. – Não faça que nem eu.
- Só porque você fez burrada, mãe, não quer dizer que eu vá fazer. – ela responde, despeitada. – Essas coisas não passam por genes, você sabe.
- Eu sei. – respondo. – E você não é uma burrada, Lícia... Nunca foi, nem nunca será. Eu e seu pai te amamos muito!
- Você está fazendo que nem minha avó fazia com você. – ela responde curta e grossa. – E olha só onde vocês duas estão agora: não se falam desde que eu nasci. Um dia nós duas vamos acabar do mesmo jeito.
Eu estou prestes a repreende-la, mas demoro um pouco, chocada com suas palavras. Então ela se levanta da cama, arruma o cabelo no espelho e limpa a maquiagem borrada.
- Vou sair. – sentencia.
- Não, você não vai!
- Sim, eu vou. – ela responde. – Vou sair com Rogério.
E a maneira com que os olhos dela brilham ao falar o nome de seja lá quem for esse Rogério, me faz pensar se já não é tarde demais.
- Fui! – ela grita na minha cara, desafiadora como a mãe foi um dia.
- ALICIA! – eu ainda grito no corredor.
Bernardo começa a chorar no berço, quando sua irmã bate a porta violentamente. Vitor aparece correndo, com aquela cara de preocupado.
Eu a assisto ir embora.
Talvez para sempre.

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Hey Satan! Paid my dues. Playinin a rockinband.
Hey Mama! Look at me! I’m on my way to the promise land. Uau!
Abro meus olhos.
A primeira coisa que reparo é que minhas bochechas estão molhadas, e que AC/DC ainda está berrando no rádio.
Meu coração está acelerado quando pulo para fora da cama e olho em volta. Meu quarto de solteira de 17 anos! Abro a porta do meu armário furreca e checo meu reflexo.
EU SOU EU DE NOVO!
Com a cara amassada, maquiagem borrada e cabelo juba. Aquela cara de quem acabou de voltar da night.
Huum... familiar.
Sem nenhum filho chorando, nenhuma filha revoltada e nenhum marido-primeiro-namorado. Só eu, no auge dos meus dezessete anos com uma vida inteira pela frente.
E por mais que tudo não tenha passado de um sonho, eu sinto meus olhos se abrirem a medida que limpo a maquiagem borrada. Eu sei que tudo é só coisa de minha cabeça fértil, mas há uma pontada em meu peito. Há uma pontada em meu peito que me diz que tudo pode se tornar real um dia...
Se eu continuar do jeito que estou.
Pode ser que seja um presságio.
E eu não quero que se torne! Eu quero uma vida normal, me casar quando me sentir preparada e ter meus filhos na hora certa. E mesmo que por acidente eles venham na hora errada, eu quero que minha mãe esteja por perto para me ajudar!
Eu ainda posso mudar um destino.
Abaixo o volume do rádio, no momento em que alguém bate na porta.
- Pode entrar, mãe.
E o olhar arrependido que ela me lança, já diz tudo. Assim como o meu lacrimoso também.
Eu odeio meus momentos chorona, mas é totalmente incontrolável.
- Sinto muito, mãe.
- Eu também! – ela me abraça. – Não devia ter sido tão grossa com você, querida.
- Eu não deveria ter sido tão despeitada. – respondo.
- Não, não, a culpa é toda minha. – ela seca as minhas lágrimas com as pontas dos dedos. – E, estive pensando, adoraria que você convidasse Vitor para jantar. Se você gosta dele e ele gosta de você, eu também vou gostar.
Eu sorrio, mesmo que duvide um pouco da sentença.
- Precisamos mudar nosso relacionamento. – ela continua.
- Eu sei.
- Vai ser difícil. – ela abana a cabeça.
- Estou disposta a tentar. – respondo, consciente.
- Eu também.
E nós duas sorrimos, numa estranha cumplicidade que a muito tempo não compartilhávamos. Mas que eu espero que nunca mais nos abandone.

Fim.

Clara A.

Coletânea: "Eu, mãe?"

Em função do dia de ontem - dia das mães - nossa primeira coletânea será sobre esse tema.

Porque, afinal, quem nunca se encheu de raiva da progenitora e depois se arrependeu?
Quem nunca reclamou por liberdade, se sentiu pressionado? Quem nunca jurou que seria uma mãe/pai totalmente diferente?
Mãe.
Porque essa relação de amor e ódio não é de hoje, e nem vai terminar amanhã.

Lista de contos:
Presságio. (Clara A.)
Girl's Best Friend (Rezzi)
Flor de Maio (Dani C.)
Fada Azul do Central Park (Ni)